Juros caem nas aplicações, mas não nos empréstimos

Regina Pitoscia

02 de outubro de 2019 | 01h49

Se a queda da taxa que é referência para o mercado, a Selic, tem efeito direito e imediato sobre os juros que remuneram as aplicações de renda fixa, o mesmo não acontece na ponta do crédito. O reflexo de uma Selic mais baixa demora a chegar, e quando chega é de maneira pífia, nas taxas cobradas de quem precisa de um empréstimo.

A Selic engatou em curva de baixa desde outubro de 2016, quando estava em 14,25% ao ano, até chegar nos atuais 5,50% ao ano. Embora os grandes bancos anunciem aos quatro cantos redução dos juros nos empréstimos diante de uma Selic menor, na prática, o custo dos financiamentos segue em níveis elevados.

É com o dinheiro captado nas aplicações em renda fixa que as instituições financeiras fazem suas operações de crédito. Se há uma redução das taxas na ponta da remuneração, mas o mesmo não acontece na ponta dos empréstimos, automaticamente a diferença entre elas, o spread, vai ficando cada vez mais maior.  Não por acaso, o Brasil tem o segundo maior spread do planeta, ficando atrás apenas de Madagascar, uma ilha na costa africana.

Em boa parte, o spread constitui o lucro das instituições financeiras, porque dele são descontadas as despesas operacionais, o risco de calote, o recolhimento que são obrigados a fazer ao Banco Central, mas ainda assim a parte que fica com elas é colossal. Basta dar uma espiada nos juros cobrados em qualquer das linhas de crédito, das mais baratas às mais caras.

Considerando as taxas informadas pelos próprios bancos ao Banco Central, no período de 11 a 17 de setembro, no cheque especial, por exemplo, o juro cobrado estava em 14,80% ao mês ou 424% ao ano no Santander. Ainda que esse banco dê dez dias de franquia ao correntista que entra no vermelho, o peso pode ser grande para quem estourar a conta por um dia a mais desse prazo, porque aí os juros serão cobrados pelo período todo e não apenas por um dia.

Entre os 31 bancos que enviam suas taxas ao BC, e considerando os juros mais altos, o Santander fica atrás apenas do Agibank (442% ao ano) e do Mercantil do Brasil (512% ao ano).

E não chega a ser muito diferente os juros do cheque especial nos outros quatro grandes do mercado. Confira:

Banco                           Juro ao mês               Juro ao ano

Santander                           14,80%                             424%

Itaú                                      12,48%                              310%

Banco do Brasil                 12,25%                              300%

Bradesco                             12,17%                              297%

Caixa                                     9,38%                              193%

Fonte: Banco Central

A esses níveis o cheque especial passou a ser a linha de crédito mais cara do mercado, superando até mesmo o rotativo do cartão de crédito, mas nem por isso o brasileiro deixa de usá-la. Ao contrário, por ser um dinheiro extra disponível e acoplado à conta corrente, de fácil acesso, liberado sem nenhuma burocracia, o limite do cheque especial é acionado com muita frequência. E os juros altos fazem a dívida crescer rapidamente, trazendo dificuldades para o seu pagamento e levando à inadimplência.

Não é de hoje que o Banco Central está de olho nesses juros escorchantes. No ano passado, a autoridade monetária permitiu que os próprios bancos apresentassem uma solução para evitar o endividamento contínuo no cheque especial. Em nenhum momento se falou em reduzir os juros, mas em oferecer um novo tipo de crédito para parcelamento do saldo devedor.

Embora com juros mais baixos, a nova modalidade tende a comprometer o orçamento do usuário por meses a fio. Além disso, ficou acertado que o banco precisa enviar avisos aos clientes no vermelho sobre a possibilidade de renegociação.

Os bancos digitais, sem rede de agências e quadro de funcionários bem mais enxutos, arcam com custos menores nas operações e, por isso, podem cobrar menos de seus clientes no cheque especial. Entre eles, o banco Inter é um dos que têm suas taxas mais camaradas, de 3,46% ao mês ou 50% ao ano, nesse mesmo período de setembro.

Juros do cartão

A esfolada também é grande no bolso de quem usa o rotativo do cartão de crédito. Embora o consumidor possa rolar a dívida por apenas um mês no rotativo, pagando ou não o mínimo da fatura (geralmente de 15%), os juros plicados à dívida antes de ser parcelada são bem salgados. No rotativo regular, em que há o pagamento mínimo antes da renegociação do saldo devedor em outras condições, as taxas no mesmo período em setembro eram as seguintes:

Banco                               Juros ao mês                 Juros ao ano

Bradesco                                  12,79%                                  324%

Santander                                11,50%                                  269%

Caixa                                          9,43%                                  195%

Itaú                                            8,80%                                  175%

Banco do Brasil                       8,50%                                  166%

Fonte: Banco Central

Crédito pessoal

No crédito pessoal, as taxas estão em níveis bem inferiores às do cheque especial, mas têm espaço para cair considerando o custo do dinheiro no mercado próximo de 0,45% ao mês ou 5,50% ao ano.

Banco                               Juros ao mês               Juros ao ano

Bradesco                                  5,08%                                   81%

Santander                                4,35%                                   67%

Itaú                                           4,26%                                   65%

Banco do Brasil                      3,72%                                   55%

Caixa                                        2,67%                                    37%

Fonte: Banco Central

Crédito consignado

O consignado está entre as linhas de crédito mais baratas do mercado, mas disponível a quem recebe seus rendimentos (salário, aposentadoria) por meio de folha de pagamento, com crédito em conta corrente. Mas quem tiver acesso, deve dar preferência a ele.

Taxa anual

Banco                             Aposentado                     Empregado

Santander                        25,68%                              34,01%

Banco do Brasil               24,89%                             26,77%

Itaú                                    24,58%                              39,15%

Bradesco                          21,38%                               29,55%

Caixa                                 20,81%                              25,39%

Fonte: Banco Central

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