Juros, câmbio, ações: tudo gira em torno da reforma da Previdência

Regina Pitoscia

06 de maio de 2019 | 00h22

(*) Com Tom Morooka

O andamento da reforma da Previdência Social na Câmara continua no centro das atenções de investidores e do mercado financeiro. O principal foco de interesse nesta semana, a segunda de maio, é a reunião da Comissão Especial, marcada para terça-feira, em que o governo precisará dos votos de 25 deputados para a aprovação do relatório.

Número maior de votos seria visto como uma medida do cacife do governo para dar andamento ao projeto no Congresso e tenderia a repercutir positivamente nos mercados, com valorização das ações e queda da moeda norte-americana.

É a expectativa em torno do que pode acontecer ou deixar de acontecer com a tramitação do projeto de na Previdência Social e do que ela pode render em economia para as contas públicas, ao fim e ao cabo de sua aprovação, que continua ditando a trajetória dos mercados, especialmente dos de ações e de dólar, mas o de juros também.

De acordo com o analista da Socopa, Nicolas Takeo, o mercado de ações está muito ligado ao cenário doméstico, em que a questão política é muito forte, avalia, com vetor principal na agenda de reformas, onde a previdenciária é o destaque.

Ele afirma que o investidor estrangeiro, tradicionalmente protagonista da valorização da bolsa de valores, permanece cauteloso, sem apetite para compra de ações, diante de incertezas com a agenda política e de uma economia que demora para reagir.

“Um cenário mais claro vai demorar um pouco mais”, avalia Nicolas Takeo. “Enquanto isso, a bolsa de valores tende a reagir mais a fatores pontuais, com movimentos laterais e acomodação de preços que devem fazer o Índice Bovespa andar em um intervalo entre 95 mil e 97 mil pontos”. O Ibovespa fechou a sexta-feira em 96.007 pontos, com alta de 0,50%.

Com a perspectiva de acomodação do mercado de ações no curto prazo, a indicação do analista da Socopa para maio, com vistas à formação de uma carteira rentável no médio e longo prazo, está distribuída entre as ações do setor de varejo, de bebidas e alimentos, de saúde, de educação e infraestrutura.

Nicolas afirma que setores de varejo de forma geral, mas sobretudo os de alimentação e roupas, podem beneficiar-se do crescimento em médio e longo prazos e tirar proveito da melhora do consumo.

Novo piso para o dólar

No sobe e desce das cotações dos últimos dias, o dólar pode ter encontrado novo piso, ao redor de R$ 3,90, depois de oscilar insistentemente em um intervalo entre R$ 3,96 e R$ 3,92.

A oscilação das cotações nesse intervalo é reflexo de busca de proteção pelos investidores na moeda americana, por causa de temores com a discussão da reforma previdenciária, na Câmara, avalia Tarcísio Rodrigues Joaquim, diretor de Câmbio do Banco Paulista.

“É uma proteção defensiva, diante do cenário de incertezas internas que se mistura também com a insegurança com o cenário externo, associado ao desempenho da economia de alguns países da Europa e do Japão”, afirma Rodrigues Joaquim, lembrando que apenas a economia dos Estados Unidos parece andar bem, com bons dados sobre o emprego, ainda que persista certo temor com possível alta dos juros.

Definição da Selic

Embora a reunião do Copom (Comitê de Política Monetária), do Banco Central (BC), tenha deixado de atrair maior interesse, dada a repetida manutenção da taxa básica de juros, a Selic, em 6,50% ao ano, o encontro desta semana, o terceiro do ano, não deixa de chamar a atenção. Ainda que a quase totalidade das opiniões de analistas e economistas do mercado financeiro aponte para mais uma estabilidade da Selic.

A reunião começa na terça e termina na quarta-feira, quando o BC anuncia a decisão no início da noite. Motivos, como a inflação baixa e sob controle, não faltam para o BC reduzir mais a taxa básica para tentar reativar a economia, que continua travada e patinando.

Mas não são apenas essas cartas que estão na mesa. A estabilidade da Selic, que deve ser repetida esta semana, espelha uma atitude cautelosa do BC diante de incertezas com a aprovação da reforma, vista como condição necessária para colocar a dívida pública no caminho do ajuste.

Como se sabe, o Tesouro financia a dívida pública federal, que passa de R$ 3 trilhões, com a colocação de títulos no mercado financeiro. Investidores (bancos, empresas e investidores) que compram esses títulos recebem como remuneração a taxa Selic, mas em momentos de tensão passam a exigir uma remuneração mais atraente para compensar riscos.

A expectativa é que, aprovada uma reforma previdenciária com ganho robusto nas contas públicas e mantido o cenário de inflação baixa, o BC se sentiria à vontade para promover cortes adicionais na Selic. Até lá, manteria a taxa básica onde está há mais de um ano para não precisar fazer eventuais ajustes para cima, se as propostas de mudança nas regras de aposentadoria tiverem tropeços em sua longa caminhada pelo Congresso.

 

 

 

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