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Medidas do governo são boas para a bolsa, mas há pânico nos mercados

Regina Pitoscia

13 de março de 2020 | 01h16

Queda livre da bolsa de valores e escalada do dólar. São movimentos que expressam o sentimento de pessimismo e pânico que se instalou nos investidores, se agrava a cada dia desta semana e produz eventos emblemáticos no mercado financeiro.

A Bolsa de Valores de São Paulo, a B3, teve o circuit breaker acionado quatro vezes nesta semana – duas vezes apenas ontem, quando por pouco não chegou ao terceiro –, algo inédito na história, e o dólar rompeu a cotação de R$ 5, embora tenha fechado em nível mais baixo.

As regras da B3 preveem que o circuit breaker seja acionado e os negócios suspensos por 30 minutos quando a queda do Índice Bovespa (Ibovespa, principal índice da bolsa de valores) atinge 10%. Se a baixa persistir na retomada do pregão e chegar a 15%, haverá nova paralisação, desta vez de uma hora; a terceira, que suspende os negócios por tempo indeterminado, ocorre quando a perda do índice alcança 20%.

A queda de 14,78% no fechamento da B3 provocou, apenas ontem, perda de R$ 489,2 bilhões, a maior da história, no valor de mercado das empresas listadas na bolsa de valores, de acordo com dados levantados por Einar Rivero, gerente de Relacionamento da Economatica.

O mesmo estudo mostrou que o valor de mercado das empresas encolheu R$ 1,52 trilhão no ano, até ontem, de R$ 4,56 trilhões, no fim de 2019, para R$ 3,04 trilhões. Apenas em março, a perda alcançou R$ 1,15 trilhão.

A maior queda no valor de mercado nesta quinta-feira foi da Petrobras, com R$ 43,8 bilhões, que sobe para R$ 240,2 bilhões em 2020. Com valor de R$ 166,7 bilhões, a Petrobrás é a quarta maior empresa com ações negociadas em bolsa, atrás de ItauUnibanco, Ambev e Vale. A quinta posição é do Bradesco, com R$ 163,8 bilhões, segundo a Economatica.

Desde 23 de janeiro, quando encerrou o pregão sustentando recorde nominal de 119.527 pontos, até o fechamento de ontem, em 72.583 pontos, a Bolsa de Valores de São Paulo acumula desvalorização de 39,3% – da qual 30,32% apenas em março, até agora.

Uma penca de incertezas, externas e locais, tem espalhado o pessimismo e pânico no mercado financeiro. A principal está ligada às dúvidas com a propagação do coronavírus – que chegou aos cinco continentes e ganhou a classificação de pandemia pela OMS (Organização Mundial de Saúde) –, sua extensão e todos os efeitos negativos sobre a economia.

Um fator que poderia reduzir o estresse nos mercados seria, de acordo com os analistas, o anúncio pelos governos de programas afrouxamento monetário para enfrentar estrangulamentos e problemas econômicos criados pela pandemia. O Federal Reserve (Fed, banco central americano) anunciou ontem que colocará US$ 1,5 trilhão de recursos no mercado.

Aqui, o governo anunciou na noite de ontem medidas que também podem dar algum suporte à economia, porque compreendem a injeção de R$ 23 bilhões no mercado com a antecipação de pagamento de 50% do 13º salário dos aposentados, que normalmente acontece em agosto, para abril, e estuda novas facilidades na concessão do crédito consignado.

Mais do que resultados concretos, as novidades podem levar o mercado a entender que muitas ações ficaram com preços atrativos, se consideradas a qualidade da empresa e as iniciativas a serem adotadas para amenizar os reflexos da pandemia.

Mas esse não é o único ponto. Além das preocupações com o coronavírus, tem provocado mal-estar e turbulências nos mercados a queda de braço entre Arábia Saudita e Rússia que tem derrubado a cotação do barril de petróleo. No cenário doméstico, passa a incomodar também a disputa política, em momento de crise global, entre o governo e o Congresso para a aprovação de propostas e medidas que influenciam o processo de consolidação fiscal, iniciada com a aprovação do teto de gastos e reforma da Previdência Social.

São fatores de incerteza que turbinam a arrancada do dólar, que não para de subir e embicou momentaneamente acima de R$ 5 ontem. Em boa medida, a escalada reflete a procura dos investidores para proteção do patrimônio, em um cenário em que todos estão tensos e sem saber o que virá com o coronavírus.

Cotado por R$ 4,79 no fechamento de ontem, o dólar acumula valorização de 6,92% neste mês, até ontem, que fica ampliada para 19,75% no ano.

Por causa da insegurança que vem de todos os lados, alimentada por eventos que não acenam ainda com um desfecho mais claro, analistas e especialistas não arriscam palpites sobre a tendência desses mercados. Apenas que os investidores terão de conviverão com as turbulências e vaivéns no mercado financeiro por bom tempo.

Como momentos assim são vistos também como abertura de janelas de oportunidade, alguns analistas entendem que as ações podem estar baratas e atraentes para compra após as fortes quedas. O ponto é saber se estão baratas mesmo ou se podem cair mais. O momento, de todo modo, exige cautela redobrada e a compra deve ser vista como investimento de longo prazo, com a readequação ou remodelação periódica da carteira de ações, feita por um gestor especializado.

O gestor de Renda Variável da Porto Seguro Investimentos, Marcelo Faria, diz que o momento pode ser interessante para compra também pelo investidor que tiver em carteira um volume de ações abaixo do que o previsto para o alcance de seus objetivos.

Já em relação à moeda americana, a dica para quem não tem e precisa de dólar continua sendo a compra gradual e periódica de pequenos lotes, uma estratégia considerada mais confortável pelos especialistas. Uma porção comprada no início do ano saiu por algo em torno de R$ 4 por dólar. Agora ameaça encostar em R$ 5 ou quase R$ 1 mais por dólar.

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