Mercado financeiro à espera de novidades para firmar tendência

Regina Pitoscia

19 de novembro de 2018 | 00h31

(*) com Tom Morooka

A indicação do economista Roberto Campos Neto para o comando do Banco Central, em substituição a Ilan Goldfajn, sob o governo do novo presidente Jair Bolsonaro foi a principal novidade para o mercado financeiro na sexta-feira, na volta do feriado de 15 de novembro.

O nome do economista, que deixa o banco Santander para a presidência do BC, ainda precisa ser aprovado pelo Senado, mas sua indicação foi bem recebida pelo mercado financeiro, que quer mais.

Cresce a ansiedade no mercado financeiro pela divulgação de medidas de ajuste fiscal que confirmem a agenda de reformas econômicas, principalmente a da Previdência Social, bandeira liberal que pavimentou, do ponto de vista dos investidores, a trajetória vitoriosa do deputado federal Jair Bolsonaro à Presidência da República.

A expectativa, contudo, parece ir diminuindo, aos poucos, sobretudo para quem apostava no rápido anúncio de propostas, logo após a eleição do capitão reformado. Não apenas pela demora da divulgação, mas também pela falta de clareza e consistência, para não dizer contradições, das poucas ideias de proposta divulgadas até agora.

É nesse ambiente de crescente ansiedade e até de alguma frustração que os diversos mercados, especialmente o de ações e dólar, têm trabalhado em compasso de espera, contrariando a expectativa dos que previam uma sequência positiva do desempenho que antecedeu a eleição.

A sinalização dada pela declaração do presidente eleito de que a votação do projeto de reforma da Previdência Social tende a ficar para o próximo ano arrefeceu o otimismo dos investidores. Havia a expectativa de que os primeiros passos na direção do ajuste fiscal poderiam ser dados ainda neste ano, no apagar das luzes do governo do presidente Michel Temer.

A demora no anúncio das medidas de ajuste fiscal, que o mercado espera ansiosamente da equipe econômica do novo presidente, comandada por Paulo Guedes, causa preocupação nos investidores, que divide a atenção entre o cenário doméstico, seu foco principal, e os fatores externos.

Foi sob influência desse cenário internacional de forte queda das bolsas americanas, das cotações do barril de petróleo e do desconforto na relação dos Estados Unidos com os aliados europeus, em que o problema fiscal da Itália é também a grande fonte de preocupação – o novo governo italiano insiste em medidas consideradas populistas que devem agravar ainda mais o desequilíbrio das contas públicas da Itália –, que o mercado doméstico de ações, tomado pela cautela diante de incertezas com as medidas do novo governo, entrou em aparente compasso de espera.

Fora de foco

Com o interesse dirigido às medidas de ajuste fiscal e reagindo colateralmente a fatores externos, o mercado financeiro tem dedicado pouca atenção às articulações políticas para a formação de uma ponte entre o novo governo e o Congresso da qual depende a aprovação de propostas econômicas para o reequilíbrio das contas públicas. Especialistas veem esse embate como o grande desafio de Bolsonaro. Sem o apoio de deputados ou senadores, as propostas não avançariam no Congresso, por mais brilhantes que sejam seus formuladores.

A preocupação existe, porque o presidente eleito já sinalizou em declarações que seu governo não adotará a política do toma-lá-dá-cá, como estratégia de negociação, para tentar aprovar medidas reformistas no Congresso. Ele tampouco conta com um articulador político como interlocutor com o Congresso, que recentemente aprovou e lançou duas pautas bomba, que podem pôr em risco os planos de ajuste fiscal formulados pela equipe econômica de transição: o reajuste do Judiciário e o regime especial para o setor automotivo, que pode consumir quase R$ 3 bilhões de subsídios.

O reajuste salarial de 16,38% para o Poder Judiciário não está garantido, mas a bola está, por enquanto, com Michel Temer. Cabe ao atual presidente vetar ou sancionar o projeto de lei que concede o reajuste e jogar a conta para o presidente que toma posse em 1º de janeiro.

São possíveis armadilhas que podem arranhar o cacife político do presidente eleito, despertando dúvidas em investidores, com possíveis reações negativas do mercado financeiro, sobre sua capacidade gerencial e administrativa de entregar as medidas de ajuste das contas públicas, defendidas em sua agenda de reformas, que impulsionou sua caminhada ao Palácio do Planalto.

 

 

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