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Mercado financeiro atônito em meio a tanta turbulência

Regina Pitoscia

18 de maio de 2020 | 02h55

Com Tom Morooka

A crise em todas as frentes – sanitária (pela pandemia do coronavírus), política (pelo choque e enfrentamento entre os três Poderes) e econômica (pelas preocupações econômicas no pós-pandemia) – não dá sinais de trégua ao mercado financeiro. O último capítulo dessa novela recheada pela sucessão de adversidades foi visto na sexta-feira, com a queda do ministro Nelson Teich, do Ministério de Saúde.

A saída de Teich, menos de um mês depois de substituir a Henrique Mandetta na Pasta e antes de a epidemia do coronavírus ter chegado supostamente ao pico no País, adiciona mais incertezas sobre o desfecho da turbulência em curso – sobretudo na área epidemiológica e econômica.

O nível de dúvidas entre os investidores cresce a cada dia, embora os mercados, sobretudo o de ações e dólar, tenham reagido com relativa serenidade à demissão de Teich, na sexta. Para analistas e agentes financeiros, o mercado já havia embutido nos preços dos ativos o que se considerava a provável demissão do ministro da Saúde.

É nesse ambiente de elevada instabilidade que o mercado de ações tem encontrado forte resistência em romper e embicar acima de 80 mil pontos – zanzou ao longo da semana entre 79 mil e 77 mil, na pontuação de fechamento.  Altas e baixas do Ibovespa (Índice Bovespa, o principal índice da Bolsa de Valores de São Paulo, a B3) têm espelhado apenas uma reação a fatores pontuais, que investidores mais ágeis e mais cacifados aproveitam para obter lucros com rápidas operações de compra e venda.

“A bolsa de valores está ainda à espera de notícias e acontecimentos positivos, com ponto de equilíbrio em torno de 80 mil”, para engatar uma alta rumo a possível novo patamar, avalia Mauriciano Cavalcante, diretor de Câmbio da Ourominas.

Pelo cenário carregado de dúvidas e preocupações, tanto externas quanto domésticas, associadas a várias frentes, a análise de Cavalcante aponta para maior probabilidade de manutenção do Ibovespa abaixo de 80 mil pontos (fechou sexta-feira em 77.556 pontos) e perspectiva de alta do dólar, rumo a um nível mais próximo de R$ 6.

O economista-chefe da Porto Seguro Investimentos, José Pena, também destaca, em relatório econômico mensal, motivos para uma provável trajetória ascendente do dólar. Além da queda dos juros a patamares historicamente baixos, que tira a atratividade para o capital estrangeiro aplicar em renda fixa no País, teria potencial de pressão sobre o dólar “a rápida e expressiva deterioração das conta públicas e a perspectiva não muito favorável da retomada da agenda de reformas estruturais no curto e médio prazo”.

Essa percepção de maior risco fiscal e as dúvidas crescentes sobre a continuidade das reformas, na avaliação de Pena, tendem a reduzir o apetite dos investidores internacionais por ativos domésticos e, consequentemente, o ingresso de capitais externos no País, pressionando as cotações da moeda americana para cima.

Investidores na bolsa

Embora não se esteja cristalizando com fidelidade no avanço do Ibovespa (o principal índice de referência da Bolsa de Valores de São Paulo, a B3), há indicações de que o mercado de ações tem acolhido número crescente de compradores, em meio ao estresse provocado pelas incertezas econômicas da crise do coronavírus, apimentado ainda pela instabilidade e agravamento da crise política.

Dados da B3 apontam que o número de investidores pessoas físicas cadastrados nos segmentos de ações e fundos imobiliários nos primeiros quatro meses de 2020 cresceu 41,9%, para 2,4 milhões de investidores.

Ainda que não existam dados ou sinais que comprovem claramente, para analistas e profissionais do mercado essa movimentação para a bolsa de valores, em ambiente de forte estresse, seria indicação de que, com a Selic em 3% ao ano, o investidor da renda fixa, sem ter para onde correr, continua migrando para ações para diversificar os investimentos.

A falta de uma perspectiva de retomada vigorosa de valorização da bolsa no curto prazo não estaria desencorajando esses investidores, que também não teriam muito a ganhar mantendo o dinheiro em renda fixa, afirmam especialistas em investimento. Permanecer em ações, em um momento de turbulências, é um exercício de sangue frio, mas que trará compensação em um cenário de mais longo prazo, já que as ações compradas por preços baixos se valorizarão mais à frente, acreditam.

A Bolsa de Valores de São Paulo fechou sexta-feira com queda de 1,84%, acumulando baixa de 3,37% na semana. No mês, a B3 acumula desvalorização de 3,66%, que se amplia para 32,94% no ano.

Por enquanto, afirmam, quem está com pinta de que vai continuar subindo é o dólar, que vem de seguidos recordes nominais. Ele continua sendo o refúgio para proteção de capital que o investidor tem procurado, por causa do aumento de incertezas. E é só como proteção, principalmente para quem tem compromisso que segue a variação cambial, que a compra de dólar é indicada pelos especialistas.

A moeda foi cotada por R$ 5,84 na sexta-feira, com alta de 0,33% no dia. A alta acumulada na semana foi de 1,74%, que sobe para 7,35% no mês e para 46% no ano, até o momento.

 

 

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