Mercado financeiro reage aos lances da disputa eleitoral

Regina Pitoscia

01 Agosto 2018 | 01h42

Depois de apanhar feito nos meses de maio e junho, e fechar o semestre com variação negativa de 4,76%, as aplicações em ações ocuparam a liderança de melhor desempenho no mês de julho.

O Índice Bovespa, que mede a evolução das ações mais negociadas na Bolsa de Valores de São Paulo, a B3, fechou o mês com alta de 8,88%. Com isso, no ano, o Ibovespa passou a ter uma valorização de 3,93%. Fizeram caminho inverso o dólar e o ouro, que vinham com avanços expressivos no ano, e encerraram julho com queda de 3,18% e 6,72%, respectivamente.

Foram as pontas de renda variável que mais se movimentaram no mês, numa clara reação às novidades no front político. A renda fixa seguiu sem novidades com a permanência do juro básico da economia, a Selic, em 6,50% ao ano, interferindo no retorno de CDBs, fundos de renda fixa e caderneta.

                 Ranking em julho

Aplicações                              Variação

1 – Ibovespa                              8,88%

2 – IGP-M                                  0,51%

3 – Fundos DI                           0,45% a 0,55%

4 – CDB                                      0,45% a 0,55%

5 – Fundo R Fixa                      0,40% a 0,50%

6 – Caderneta                            0,37% (líquido)

7 – IPCA                                      0,30% (*)

8 – Euro                                   – 2,38%

9 – Dólar                                  – 3,18%

10 – Ouro                                 – 6,72%

(*) Projeção Boletim Focus

É verdade que a bolsa de valores foi influenciada por resultados positivos de muitas empresas em seus balanços do segundo trimestre, e também pelo alívio nas tensões comerciais entre Estados Unidos e China. No entanto, o que parece ter agido de forma decisiva no comportamento da renda variável foi o novo xadrez político para as eleições presidenciais.

Reflexos políticos

A expectativa positiva gerada pelo apoio dos partidos que formam o chamado Centrão ao pré-candidato presidencial Geraldo Alckmin (PSDB), para a disputa das eleições em outubro, mudou o humor do mercado. Daí uma reviravolta, com a bolsa de valores reagindo com forte valorização e o dólar com queda.

A aliança do Centrão, formado por cinco partidos – Partido Popular (PP), Partido Republicano (PR), Democratas (DEM), Partido Republicano Brasileiro (PRB) e Solidariedade (SD) -, com o PSDB para a disputa da eleição presidencial deu alento aos investidores que veem a agenda de reformas econômicas e de reequilíbrio das contas públicas, que o candidato tucano personificaria, como condição necessária para a retomada sustentada do crescimento econômico.

A ideia é que, em um primeiro momento, a coligação entre o Centrão e o PSDB, já formalizada, fortaleceria a possibilidade de que o candidato tucano, com tempo de propaganda ampliado no rádio e na televisão, teria mais chances de chegar ao segundo turno das eleições.

Visto como o candidato mais alinhado com as propostas econômicas defendidas pelo mercado, a expectativa é que o pré-candidato Alckmin, se vitorioso, formaria uma equipe e política econômica com medidas voltadas às grandes reformas e ao saneamento das contas públicas capazes de conter o crescimento considerado explosivo da dívida pública.

A aliança do Centrão com o PSDB, de todo modo, é apenas o pontapé inicial da corrida presidencial, que terá ainda novos lances, como a formação de outras coligações partidárias e a definição de candidatos a vice-presidentes. Essas articulações devem desenhar contornos mais claros do papel de quem é quem na disputa presidencial.

Uma aliança que fortaleça o candidato de um partido mais amigável às medidas defendidas pelo mercado tende a dar fôlego à valorização das ações e deprimir o dólar; ao contrário, se a perspectiva for de fortalecimento de um candidato avesso ao que o mercado defende, a tendência seria de alta do dólar e queda para a bolsa de valores.

É uma movimentação esperada, portanto, principalmente para os momentos que se seguirão à divulgação de dados de pesquisas eleitorais, o que sugere o aumento de instabilidade e bruscas oscilações nos mercados daqui para a frente.

Um cenário em que tende a ser bem-sucedidos apenas os investidores mais familiarizados com o sobe-e-desce desses ativos e que, portanto, sabem tirar proveito das oscilações de preço para realizar rápidas operações de compra e venda.

São operações desse tipo as que predominam no momento no mercado de ações e, por isso, altas ou baixas estão longe de indicar uma tendência de médio ou longo prazo para a bolsa de valores. Estiveram no foco dessas operações nos últimos dias as ações de empresas exportadoras de commodities, mineral e agrícola, e as do setor bancário.