Mercados de ações e dólar fazem pausa e aguardam fatos novos

Regina Pitoscia

26 de novembro de 2018 | 00h21

Os investidores do mercado de ações aprovaram os nomes dos principais integrantes do time econômico montado pelo presidente eleito Jair Bolsonaro, como o de Roberto Campos Neto, para a presidência do Banco Central; o de Joaquim Levy, para o BNDES, e o de Roberto Castello Branco, para presidir a Petrobras. Além de Paulo Guedes, guru de Bolsonaro e desde a primeira hora escolhido como superministro da Economia.

A boa receptividade aos nomes, que para o mercado financeiro formam uma equipe econômica de primeira linha, não se cristalizou, porém, em resposta positiva, por enquanto, do mercado de ações, que vem colecionando uma série de baixas. Aparentemente todos, investidores estrangeiros e domésticos, estão à espera das reformas econômicas.

Para os especialistas, os investidores gostaram dos nomes, mas continuam cautelosos, reticentes na compra de ações. Antes, esperam avaliar melhor o trabalho em conjunto da equipe para ver se a atuação será pautada pelo clima de harmonia e entendimento em torno das medidas propostas.

A ideia é que o bom encaminhamento e a aprovação nas medidas pelo Congresso darão um sinal inequívoco de sustentação política do governo de Bolsonaro, fundamental para a retomada e expansão dos investimentos no País.

Uma das dúvidas que incomodam os investidores é se o governo que assume em 1º de janeiro será bem-sucedido nessa tarefa, diante de um Congresso tradicionalmente hostil e arredio em debater e aprovar mudanças nas regras de aposentadoria. Sobretudo quando a intenção é aprovar rapidamente a reforma previdenciária, possivelmente no primeiro semestre, um prazo curto, mas considerado ideal por ser supostamente um período de lua de mel entre o novo governo e o mercado financeiro.

O interesse pela aprovação da reforma é grande, mas o temor também. Se as coisas desandarem, o governo Bolsonaro correria o risco de enfraquecimento político precoce que poderia abortar a recuperação cíclica da economia, fragilizada sem a sustentação da esperada retomada dos investimentos.

Esse parece ser o sentimento que move as decisões do investidor na bolsa de valores e estaria por trás da relativa apatia do mercado nos últimos dias, após reagir com euforia à eleição de Bolsonaro.

O ambiente externo também tem deprimido o mercado de ações, pelas incertezas ligadas à tensão no embate comercial entre Estados Unidos e China, perspectiva de desaceleração das principais economias e de elevação dos juros americanos.

Um cenário que, segundo especialistas, também contribui para desencorajar o ingresso de capital externo para a compra de ações no mercado doméstico. A bolsa de valores torce pelo retorno às compras do investidor externo que vendeu ações em outubro para tentar ganhar novo fôlego.

O capital estrangeiro, contudo, parece estar também à espera de definição de medidas econômicas e de maior clareza do ambiente político para retornar à bolsa brasileira.

Dólar acima de R$ 3,80

Aos poucos, sem alarde, o dólar vai escalando degraus que têm levado e acomodado as cotações acima de R$ 3,80. Uma reação que não estava nas estimativas da maioria dos analistas, que previam a descida das cotações para níveis abaixo da de R$ 3,65 com que chegou ao segundo turno das eleições presidenciais, dando como favas contadas a vitória Jair Bolsonaro.

A aposta nessa perspectiva de trajetória da moeda americana se apoiava na rápida divulgação de medidas de ajuste fiscal, principalmente as que mudariam as regras das aposentadorias. A demora no anúncio dessas esperadas medidas e de outras para o ajuste das contas públicas, contudo, tem elevado o grau de ansiedade dos investidores e respingado na procura de dólares como proteção até que o presidente eleito e sua equipe econômica expliquem em detalhes as propostas para o encaminhamento de uma solução para o rombo fiscal.

A pressão sobre o dólar pode ser explicada ainda pelo aumento da cautela dos investidores estrangeiros em relação ao Brasil. Um sentimento que teria provocado elevação de saída de recursos e diminuído o fluxo de ingresso, dada a redução do apetite por aplicações no mercado doméstico, seja em ações, seja em títulos de renda fixa.

O descompasso entre entrada e saída de capitais leva a menor oferta de moeda americana, agravada também por motivos sazonais. Nesta época do ano, o movimento de saída de divisa estrangeira é reforçado pelas remessas de recursos – lucros, juros e dividendos – de filiais de empresas multinacionais no País a suas matrizes no exterior.

No cenário internacional, o que tem influenciado a recuperação do dólar são certo pessimismo com a economia americana como consequência de incertezas criadas pela persistente queda do mercado de ações por lá, o tombo das cotações internacionais do petróleo, os sinais de desaceleração das economias desenvolvidas, perspectiva de elevação das taxas de juros nos principais mercados e temor ainda com os desdobramentos da disputa comercial cada vez mais tensa entre Estados Unidos e China.

São fatores que devem continuar atuando sobre as cotações do dólar no dia a dia de negócios, mas o interesse do mercado permanece voltado basicamente aos eventos domésticos, sobretudo às possíveis novidades econômicas que serão adotadas pelo governo do presidente eleito Jair Bolsonaro, daqui a pouco mais de um mês.

Até lá, a expectativa é que a moeda americana continue passando por ligeiros ajustes de preço, embora nada acentuados, porque o otimismo do mercado financeiro, apesar de cada vez mais cauteloso, com as perspectivas econômicas do País sob o comando do presidente eleito permanece de pé.