Mesmo com turbulências, investidor deve ter sangue-frio na bolsa

Regina Pitoscia

18 de novembro de 2019 | 00h16

(*) Com Tom Morooka

O mercado de investimentos atravessa período de maior instabilidade derivada de intenso vaivém de duas das principais referências no mercado financeiro: a bolsa de valores e o dólar. Em geral, bolsa e dólar seguem trajetórias inversas, assimétricas: quando um sobe, outro cai e vice-versa. Nos últimos dias não tem sido assim, não raro os dois mercados seguem a mesma direção.

O que está claro, para analistas de mercado financeiro, é que os fatores externos voltaram a exercer influência preponderante sobre os mercados. Um deles não é novidade. É a recorrente disputa comercial entre Estados Unidos e China, entremeada por costumeiros acenos, ora de entendimento que sinaliza uma solução, ora de novas exigências que lançam mais incertezas em torno de uma finalização para o conflito.

Um embate cujos efeitos vão além do comércio entre os dois gigantes econômicos e alimentam preocupações pelos quatro cantos do mundo, temeroso de que o conflito contribua para reforçar a desaceleração econômica global.

As incertezas com o desfecho da guerra comercial são apontadas como principal fator de perturbação sobre o mercado de ações. A Bolsa de Valores de São Paulo, a B3, chegou perto de 110 mil pontos, há pouco mais de uma semana, mas recuou para o nível de 106 mil pontos. A B3 fechou a semana mais curta, por causa do feriado da Proclamação da República na sexta-feira, com desvalorização de 1%.

A inversão de tendência, que começou como reação ao leilão do excedente de petróleo do pré-sal sem a participação de empresas estrangeiras, na semana anterior, foi reforçada pela insegurança jurídica criada pelo episódio da soltura do ex-presidente Lula – derivada da suposta posição dúbia do STF (Supremo Tribunal Federal) em relação à prisão após sentença condenatória de segunda instância.

“Houve uma frustração muito grande com o leilão do pré-sal, que não trouxe fluxo de capital estrangeiro ao País, mas trouxe pressão sobre o câmbio”, avalia Jason Vieira, economista-chefe a Infinity Asset. “A tensão que se seguiu no mercado à liberdade de Lula ocorreu no contexto da insegurança jurídica”, acrescenta Vieira, porque a falta de regras claras é um dos fatores que inibem a atração de capital estrangeiro.

Sem a participação de capital estrangeiro no leilão do pré-sal e diante de um episódio que poderia manter o investidor externo longe do País, o dólar retomou a valorização e chegou a flertar com R$ 4,20, após embicar abaixo de R$ 3,99 no início do mês.

Mais que a reversão da baixa, desenhada após a aprovação da reforma previdenciária, o que surpreende é o ímpeto de alta do dólar, que saiu de R$ 4,00, no início de novembro, para R$ 4,19, na última quinta-feira, dia 14, um avanço de 4,75% ou de R$ 0,19 por dólar.

Para especialistas em câmbio, o mercado passou a trabalhar com um teto informal de R$ 4,20, uma linha de resistência de preço que, se atingida, faz pipocar ordens de venda de dólar. “A ideia é que esse nível de R$ 4,20 pode atrair vendas de dólar do Banco Central”, afirma Vieira, para tentar conter uma aceleração mais forte, o que deixa o investidor cauteloso. Por ora, o Banco Central (BC) não deu as caras com oferta de dólar.

O economista-chefe da Infinity Asset acredita que, por enquanto, o mercado deve continuar protagonizando o jogo de gato e rato, sem muita ousadia, com o BC. Se o dólar passar de R$ 4,20, o potencial de valorização fica maior, acredita.

Com a retração e falta de apetite do investidor estrangeiro pela compra de ações no mercado doméstico, Vieira diz que apenas um fato novo de impacto poderia dar mais tração para uma arrancada vigorosa da bolsa de valores. Até lá, a alta do mercado seria sustentada pelas compras de investidores domésticos, que têm migrado para a bolsa, como estratégia de diversificação de investimentos, à procura de um rendimento mais atraente que o proporcionado pelos juros baixos na renda fixa.

A tendência, acredita Viera, é que a bolsa continue reagindo a fatores pontuais que se apresentam no meio do caminho, em ambiente de muita volatilidade, o que não possibilita uma previsão por período mais longo. A dica é que investidor não reaja com vendas a ondas de baixa, porque a perspectiva é considerada promissora para a bolsa. Uma caminhada, contudo, que vai exigir paciência e sangue-frio do investidor em ações.

O gestor de Renda Variável da Porto Seguro Investimentos, Marcelo Faria, também atribui a derrapagem recente da bolsa de valores a fatores externos, especialmente à guerra comercial entre EUA e China e à tensão provocada pela crise político-social em vários países vizinhos do Brasil. Mas ele se baseia no otimismo com o cenário doméstico para apostar na valorização da bolsa. ‘É um cenário-base de crescimento econômico, que vem na esteira de rigor na política fiscal e uma política monetária de juros baixos por bom tempo sem gerar inflação.”

 

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