Na semana, definição de nova Selic e mais cautela nos mercados

Regina Pitoscia

04 de fevereiro de 2019 | 00h14

Na terça-feira, o Comitê de Política Monetária do Banco Central realiza sua primeira reunião do ano para deliberar o rumo da taxa básica de juros, a Selic. O encontro de dois dias, que se inicia no dia 5 e termina no dia seguinte, quando será conhecida a decisão, será também o primeiro do governo comandado pelo presidente Jair Bolsonaro.

O governo é novo, mas o piloto da política monetária continua sendo o presidente do BC, Ilan Goldfajn, que permanece no cargo até que o nome do sucessor indicado, Roberto Campos Neto, seja aprovado pelo Senado.

Não apenas por isso, mas porque a economia permanece em marcha lenta e a inflação controlada, a expectativa do mercado financeiro é que a taxa Selic seja mantida mais uma vez em 6,50%, nível em que vem rodando desde março de 2018, portanto há quase um ano.

Parte de analistas e economistas do mercado defende a ideia de que, diante desse cenário de atividade fraca e inflação comportada, o BC teria espaço para promover corte adicional e deixar a Selic mais baixa.

As apostas apontam, contudo, para a manutenção do juro básico em 6,50% ao ano, por causa do desajuste grave das contas públicas. A ideia é que o BC deve pautar-se pelo conservadorismo, ao calibrar a Selic, até que as reformas econômicas, principalmente a da Previdência Social, coloquem as contas no caminho do ajuste fiscal.

O entendimento é que, até lá, o nível atual de 6,50% ao ano permaneça como o piso de juros da economia. Uma referência para a remuneração de títulos públicos, com os quais o Tesouro financia o déficit público no mercado financeiro, e para a captação de recursos pelos bancos.

Como essa captação é abastecida pelo dinheiro depositado ou emprestado por investidores, o rendimento de quem aplica em renda fixa, dentre eles CDBs e fundos de investimentos formados por títulos, segue basicamente a taxa Selic, estável há quase um ano.

Uma estabilidade que nivelou por baixo e padronizou a remuneração das principais aplicações de renda fixa, como caderneta, CDB e fundos de renda fixa e DI.

Mais cautela

Tudo indica que o mercado financeiro fique mais cauteloso a partir de agora, deixando para trás a euforia que permeou os negócios em janeiro, primeiro mês do governo Bolsonaro. Cauteloso e instável, porque os investidores passariam a reagir com mais sensibilidade às ações e articulações políticas do governo para a aprovação de reformas.

O interesse é saber a abrangência das mudanças e se elas serão suficientes para a solução da crise fiscal. Se vierem ao encontro das expectativas, o mercado tende a reforçar a confiança na política econômica comandada pelo ministro Paulo Guedes, com a possível continuidade de valorização da bolsa de valores e queda do dólar comercial.

Uma frustração de expectativas, por sua vez, azedaria o humor dos investidores, cuja reação poderia ser a venda de ações na bolsa de valores, que subiu 10,8% em janeiro, e o crescimento de interesse por dólar. Tudo isso em meio a possível aumento do clima de instabilidade nos mercados.

Ao mesmo tempo que espera divulgação de propostas de reforma, os investidores estarão de olho nas articulações e negociações entre o governo e os parlamentares. Afinal, são medidas que, por mais bem avaliadas que sejam por analistas, precisam passar pelo Congresso para que sejam adotadas e entrem em vigor.

O anúncio das mudanças nas regras da aposentadoria ainda não tem data definida para ser feito, de acordo com o porta-voz da Previdência, Otávio de Rego Barros. Portanto, é com a atenção dividida entre a divulgação de reformas e o xadrez político que o mercado financeiro tocará os negócios em fevereiro.

São dúvidas que podem fortalecer os riscos em aplicações de renda variável, mas não o bastante para tirar a atratividade do investimento em ações. Sinais de trânsito sem maiores dificuldades das reformas no Congresso poderiam levar a bolsa de valores a romper rapidamente os 100 mil pontos, em busca de patamares mais elevados.

Ao contrário, eventuais percalços e frustração de expectativas podem redobrar as incertezas e redundar em turbulências nos mercados.