Nos mercados, atenção total à reforma da Previdência e instabilidade

Regina Pitoscia

25 de fevereiro de 2019 | 01h37

A atenção do mercado financeiro estará voltada daqui para a frente ao andamento da reforma da Previdência Social, a começar pelas articulações do governo no Congresso para a aprovação das propostas.

A reação foi positiva ao texto apresentado, mas foi momentânea, porque o olhar dos investidores foi rapidamente deslocado para Câmara, onde começa, ainda sem data definida, a caminhada do projeto de mudanças na aposentadoria.

“A reforma apresentada pelo governo ao Congresso veio mais dura do que se imaginava, acenando com uma economia de R$ 1 trilhão aos cofres públicos”, comenta Tatiane Cruz, gestora de Investimentos da Coinvalores.

Para ela, o sentimento dos investidores – que não reagiram com entusiasmo maior porque essa perspectiva já estava incorporada nos preços das ações e do dólar – continua positivo, com o mercado de ações embicado em movimento de alta, mas com muita volatilidade ou forte oscilação dos preços dos papeis.

Esse comportamento mais instável, segundo Tatiane, deverá refletir a impressão dos aplicadores sobre o encaminhamento do tema. “Se a percepção for a de que a reforma está sendo desidratada, com a flexibilização das regras de idade mínima e período de transição, principalmente, a reação tende a ser negativa. Nesse caso, a bolsa de valores poderia responder com quedas e o dólar, com alta.

Outro ponto considerado balizador da tendência dos ativos, aponta a gestora de investimentos, é a economia prevista com a aprovação e adoção da reforma. O mercado responderia bem-humorado, prevê, se as mudanças nas regras de aposentadorias aprovadas pelo Congresso redundar em uma economia nas contas públicas acima de R$ 600 bilhões. Uma economia abaixo de R$ 400 bilhões, avalia, tenderia a azedar o clima.

Os resultados alentadores da reforma esperados pelo mercado, reconhece ela, vão depender de articulações políticas que azeitem a capacidade de negociação do governo com deputados e senadores. Afinal, para que seja aprovada a reforma precisa passar por duas votações na Câmara, onde necessita de 308 votos favoráveis, e por duas no Senado.

Os desafios são enormes para o governo, mas a expectativa dela é que a proposta seja aprovada na Câmara ainda no primeiro semestre e pelo Senado no segundo semestre, o que já anteciparia um longo período de tramitação pelo Congresso.

Se tudo correr bem e a reforma bem-sucedida redundar em economia de pelo menos R$ 600 bilhões, Tatiane prevê uma alta do Ibovespa (principal índice de referência da Bolsa de Valores de São Paulo ou B3) para um nível acima de 122 mil pontos no fim de 2019. O Ibovespa fechou a semana em 97.446 pontos.

Nesse cenário, Tatiane considera que, apesar de toda volatilidade e turbulências previstas à frente, o momento pode ser interessante para a compra de ações, sobretudo pelo investidor que aposta nas reformas e na recuperação da atividade.

Sua sugestão são as ações de empresas sólidas, boas geradoras de caixa e lucrativas, que poderiam tirar proveito da possível retomada de crescimento econômico, na esteira de aprovação das mudanças.

Ela destaca como as de maior apelo as ações de empresas do setor de varejo, que seriam beneficiadas pelo possível aumento de consumo estimulado pela ampliação da oferta de crédito, o que favoreceria também ações de bancos. Fazem parte da lista de opções consideradas atraentes ainda papeis de empresas do setor de infraestrutura e de concessão de rodovias.

Para quem prefere investir em ações por meio de fundos, a especialista sugere a aplicação em Bova11, uma ETF ou fundo de índice negociado na B3 cujo rendimento replica a variação do Ibovespa (Índice Bovespa). Ou, ainda, um fundo de ações passivo tradicional atrelado ao Ibovespa.

O diretor da Ourominas Mauriciano Cavalcante comenta que a reação dos investidores poderia ter sido melhor à divulgação do texto da reforma previdenciária não fossem as preocupações políticas em relação à votação do projeto de mudanças na Previdência. Cauteloso, ele prevê que os mercados só firmem uma tendência mais clara após a aprovação da reforma previdenciária. Até lá haveria uma resistência do dólar a uma queda mais acentuada e da bolsa de valores a uma valorização mais forte.

 

 

 

 

 

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