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O bom humor voltou ao mercado. Veio para ficar?

Regina Pitoscia

09 de setembro de 2019 | 00h22

(*) Com Tom Morooka

Bolsa de valores em alta e dólar em queda trazem uma dúvida. Será a volta do bom humor ao mercado financeiro, internacional e doméstico, diante da perspectiva de uma trégua e possível encaminhamento de negociações para uma solução no embate comercial entre EUA e China?

A recente reavaliação de expectativas em relação ao cenário externo, que levou o Ibovespa (Índice Bovespa) acima de 102 mil pontos e trouxe o dólar abaixo de R$ 4,10, respingando em uma redução de pressão sobre os juros futuros, refletiria muito mais que isso. Ela incluiria também, para os investidores, um afrouxamento das tensões geopolíticas globais, principalmente na Ásia, relacionada a conflitos em Hong Kong, e na Europa, associada à suspensão de um desfecho sem acordo do Brexit (saída do Reino Unido da União Europeia).

É precipitado, no entanto, afirmar que o ambiente para os investidores mudou. Para eles, os dois principais temores, a tensão criada pela disputa comercial entre os dois gigantes econômicos e o risco de uma recessão global, permanecem firme na agenda e influenciando os negócios no mercado.

A melhora dos ânimos nos últimos dias, cristalizada na recuperação da bolsa de valores e queda do dólar, é vista ainda como pontual, sem nenhuma garantia de continuidade. A menos que se desenhe um encaminhamento de solução definitiva para o conflito, que vai além dos limites do mundo de negócios, envolvendo disputa pela hegemonia de poder geopolítico em várias regiões do mundo.

Se as incertezas no cenário externo não saíram totalmente da agenda do mercado, tampouco o quadro doméstico parece confortador, como se esperava, com encaminhamento da reforma previdenciária no Senado, cujo plenário começou a debater o texto-base aprovado na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ).

O avanço da proposta de mudanças nas regras de aposentadoria fortalece a sinalização de que as contas públicas caminham para um ajuste, uma perspectiva que anima os investidores, que têm no equilíbrio dessas contas uma das grandes fontes de preocupação. Um fato novo, porém, causou certo mal-estar e passou a preocupar os mercados.

Trata-se do debate sobre possível mudança na lei do teto de gastos públicos, aprovada em 2016, que limita o aumento de despesas de um ano à variação da inflação do ano anterior. A flexibilização das regras abriria espaço para afrouxar o aperto fiscal, que seca as torneiras do governo e inibe investimentos e outros custeios, mas existe aí o receio de que a flexibilização seja usada como atalho para o aumento dos gastos, pondo em risco o esforço de reequilíbrio do orçamento público.

Declarações contraditórias de membros da equipe econômica e do próprio presidente Bolsonaro, ora favoravelmente, ora contra a ideia de afrouxamento do teto, aumentam a confusão sobre a manutenção ou não da regra fiscal, o segundo freio mais importante de controle dos gastos públicos, desde a criação da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), em 2000.

Uma eventual reviravolta na dinâmica do ajuste fiscal, vista como passo atrás nesse processo de reequilíbrio das finanças públicas, poderia gerar respostas negativas nos mercados, com correção nos preços de ações, dólar e juros que poderia redundar até mesmo em uma reavaliação e mudança de rumo da política monetária.

Uma das reações, de acordo com analistas, poderia ser o aumento de procura por dólar, cuja valorização, pressionada por maior demanda tenderia a pressionar a inflação e exigir menos corte na taxa Selic.

Por enquanto, os debates sobre possível flexibilização do teto de gastos são vistos como mais um ruído, um balão de ensaio em meio às dificuldades financeiras do governo, dentre tantos outros, mas analistas e investidores não deixam de avaliar eventuais reflexos negativos de uma mudança dessas no mercado.

Em um cenário permeado de incertezas, tanto externas quanto domésticas, a perspectiva é a de que os mercados continuem reagindo a fatores pontuais, sem a definição de uma tendência.

Capital estrangeiro na bolsa

Tradicionalmente, a compra de ações pelo capital estrangeiro tem sido o carro-chefe que puxa uma valorização mais vistosa da bolsa de valores. Em geral, o investidor doméstico vem a reboque ao mercado, atraído pela alta das cotações, comandada pelas compras do capital externo.

Desta vez, tem sido diferente. O mercado de ações está encontrando suporte na demanda do investidor local, já que o investidor estrangeiro há algum tempo deixou o pregão doméstico de ações, antes mesmo do início das votações da reforma da Previdência Social no Congresso.

A expectativa, na época, era pelo retorno do capital externo após a aprovação da reforma previdenciária, mas o agravamento das incertezas externas, em agosto, acentuou o movimento de saída no mês passado em busca de portos seguros, como os títulos do Tesouro americano.

Dados da Bolsa de Valores de São Paulo, a B3, apontam que a procura global por proteção contra o risco, em reação ao agravamento de incertezas com a economia mundial, levou a uma saída líquida de R$ 10,8 bilhões (diferença entre R$ 190,1 bilhões de entrada pela compra de ações e R$ 200,9 bilhões de saída pela venda) em agosto.

E o mercado não aposta no retorno tão cedo do investidor externo e sim em que o investidor doméstico continue dando suporte à bolsa de valores, que, após o tropeço em agosto, acumulou valorização de 1,78% na primeira semana de setembro, também a do mês, até agora.

Sustenta essa ideia, entre outros motivos, o baixo nível da taxa básica de juros, a Selic, que roda no menor patamar histórico, de 6% ao ano, uma taxa que redunda em rendimento nominal e real bastante baixo em aplicações de renda fixa.

A expectativa é que esse movimento seja reforçado com o novo corte, considerado certo por gestores e analistas, na taxa Selic, no fim da próxima reunião do Copom (Comitê de Política Monetária), que começa no dia 17 e termina no dia 18. A estimativa é que o juro básico passe por uma redução de 0,50 ponto porcentual, para 5,50% ao ano.

 

 

 

 

 

 

 

 

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