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O que deve trazer mais turbulências ao mercado

Regina Pitoscia

27 de abril de 2020 | 03h10

(*) Com Tom Morooka

O humor do mercado financeiro azedou de vez na sexta-feira com a demissão do juiz Sergio Moro do Ministério da Justiça, em meio às circunstâncias que tendem a jogar mais lenha na fogueira da crise política.

Visto por profissionais do mercado como o pilar moral do governo, pela atuação que teve, como juiz, no combate à corrupção à frente da Operação Lava Jato, Moro deixa o ministério em um momento de severa crise de enfrentamento à pandemia do coronavírus.

Para o mercado, a demissão de Moro agrava o momento de dificuldades que o País atravessa, ao trazer para o miolo da crise maior grau de incerteza política, já alimentada pelas dúvidas em relação à evolução do coronavírus, no pós-pandemia, as consequências econômicas e fiscais deixadas pela pandemia.

A saída de Moro põe fim às especulações sobre os atritos com o presidente, mas cria outra, igualmente perturbadora e inquietante, de acordo com analistas e economistas de mercado. A saída do juiz, comentam, poderia fragilizar e colocar o ministro Paulo Guedes na alça de mira dos que podem também deixar o Ministério.

O temor é de possibilidade de perda do que é considerado o segundo pilar, este pelo lado econômico, de sustentação do governo Bolsonaro. Considerado defensor de política econômica liberal, baseada na disciplina fiscal e livre iniciativa, Guedes foi, ao lado de Moro, nomes que ajudaram a atrair simpatizantes para a candidatura presidencial vitoriosa de Bolsonaro.

Suas ideias mais importantes, contidas nas propostas de reformas econômicas, contudo, ficaram pelo caminho. No projeto de reforma previdenciária, sofreu revés e o esquecimento sua proposta que criava o regime de capitalização e da reforma tributária, embora ainda em gestação, a recriação de nova CPMF (Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira).

O último sinal malvisto pelo mercado foi a ausência de Guedes na elaboração e anúncio do Plano Pró-Brasil, um programa de investimentos públicos para oxigenar a economia pó-pandemia, avaliado como uma indicação de mudança na política econômica. Mais que isso, um embate entre o liberalismo pré-coronavírus, defendido e seguido por Guedes, e o novo sistema de intervencionismo estatal na economia.

Dúvidas sobre como será a linha de atuação do governo sem Moro e, possivelmente, sem Guedes, gera inquietação e agrava o clima de instabilidade no mercado financeiro. Um fator adicional de perturbação para um mercado já preocupado com o alastramento do coronavírus, seus efeitos negativos sobre a economia e as consequências fiscais dos gastos públicos na proteção de famílias e empresas.

Para analistas, avoluma-se o conjunto de fatores de incerteza que só afastam o capital estrangeiro em sua possível volta ao País, especialmente ao mercado de ações. Os últimos dados da Bolsa de Valores de São Paulo, a B3, apontam que continua forte a saída de recursos externos da bolsa, contrabalançada em parte pelas compras dos investidores pessoas físicas domésticos que esperam retorno com ações em períodos mais longos, acima de três, de acordo com analistas.

A Bolsa de Valores de São Paulo despencou na sexta-feira, com queda de 5,45% no fechamento, para 75.330 pontos, acumulando perda de 4,63% na semana; a alta no mês é de 3,16%, até agora.

Disparada do dólar

O dólar deu um pinote na sexta-feira, embicando momentaneamente acima de R$ 5,70, mas fechou cotado por R$ 5,67, com valorização de 2,54%.

Persiste como pano de fundo dessa escalada das cotações, que tem batido seguidos recordes nominais de alta, o cenário de dúvidas com os rumos da economia global diante da crise causada pelo coronavírus, mas a elas se juntaram outros fatores. Além da saída do ministro Sérgio Moro, o que estaria pressionando também o mercado seria a elevada possibilidade de que a taxa básica de juros, a Selic, passe por nova redução na virada de maio.

A expectativa, reforçada pelo pessimismo crescente com a piora das projeções sobre a economia, é que a Selic passe por um corte adicional na virada de maio, como tentativa de estímulo à atividade em brusca queda.

A perspectiva desse novo corte na Selic estaria empurrando para cima o dólar desde já porque, com juro mais baixo, o capital estrangeiro perderia o interesse em investir na renda fixa doméstica, pelo achatamento ainda maior da diferença entre os juros internos e externos.

O diretor de Câmbio da Ourominas, Mauriciano Cavalcante, considera exagerada e intempestiva a disparada das cotações na sexta-feira e prevê possível ajuste para baixo do dólar nesses próximos dias.

O dólar fechou a semana com valorização de 8,21%, apesar das intervenções diárias do Banco Central, ora com oferta de contratos de swap cambial (venda de títulos que oferecem proteção contra altas de preço), ora de dólar papel no mercado à vista, ora com as duas modalidades. A alta acumulada no mês está em 9,05%.

 

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