O que é e por que o ‘open banking’ deve favorecer o consumidor

Regina Pitoscia

05 de abril de 2019 | 00h40

O sistema financeiro brasileiro está prestes a entrar em uma nova era com a chegada do “open banking, ou banco aberto, com vários e amplos benefícios ao consumidor final. Pelo menos uma parte do modelo deve ser implementada ainda este ano.

Para entender a necessidade de modernização dos serviços bancários, de modo a acompanhar o que já acontece em outras partes do mundo, vale lembrar que, para fazer frente a uma hiperinflação que assolava a economia, nas décadas de 80 e 90, o Brasil precisou desenvolver sistemas arrojados que permitissem o funcionamento regular de bancos e demais instituições do mercado. Com isso, o setor financeiro nacional se posicionou na liderança internacional em termos tecnológicos, lembra Rafael Pereira, CEO da Rebel – uma plataforma que oferece crédito pessoal online.

Nessa linha do tempo, vale destacar ainda como mais um importante avanço tecnológico a criação do Sistema de Pagamentos Brasileiro (SPB), em 2001, que integrou as instituições e agilizou o processamento de transferência de recursos.

Depois disso, segundo Pereira, o mercado doméstico não só ficou estagnado como piorou em termos de inovação. O resultado é que hoje existe uma forte concentração bancária, em que cinco grandes bancos detêm a grande maioria dos clientes, oferecendo os mais diferentes produtos e serviços. E, por isso, também apresentando custos elevados para seus serviços e altas taxas de juros no crédito.

A grande mudança que chega com o “open banking” baseia-se no conceito de que os dados financeiros de uma determinada pessoa pertencem a ela e não ao banco em que mantém sua conta corrente.

E de que forma a posse e administração de seus dados pode trazer vantagens ao cliente? De imediato, basta imaginar a situação de quem está precisando de um financiamento e tem sua conta em um banco A. Nesse banco, no entanto, as taxas estão elevadas e há interesse do consumidor em levantar o empréstimo em um banco B, que lhe oferece condições mais favoráveis.

Nessa hipótese e pelo sistema atual, esse consumidor só vai conseguir um financiamento no banco B se abrir uma nova conta, arcar com outros custos, manter um relacionamento, e oferecer reciprocidades ao novo banco.

No mesmo exemplo, pelo “open banking”, informações financeiras sobre sua conta corrente no banco A, como saldo, movimentação dos últimos meses, limite de cheque especial, investimentos, seguros, e assim por diante, poderão ser acessadas, de imediato, pelo banco B, facilitando a concessão do empréstimo. Isso porque, com esses dados, o banco B terá a possibilidade de analisar o perfil financeiro do cliente para lhe oferecer as condições mais adequadas.

Detalhe importante: para que o banco B possa acessar os dados no banco A, será sempre necessária a autorização do consumidor. Mas como dono dessas informações, ele poderá sair em busca e encontrar opções de crédito mais interessantes do mercado.

Fica claro, que o cliente é beneficiado não só por obter o empréstimo com juros mais baixos, mas também porque se livra de burocracia, sem a necessidade de abertura de nova conta ou ter de bancar outros custos.

Essa simplificação nas transações não se limita a uma operação de crédito, mas vai facilitar a portabilidade de aplicações ou financiamentos, e de outros produtos como seguro, e por acirrar a concorrência tende a baratear custos dos serviços financeiros e baixar as taxas de juros.

“Os dados do cliente têm valor, e esse ativo passa a ser dele com o “open banking’. É um patrimônio, que pertence a ele”, afirma Rafael Pereira. Trata-se de uma oportunidade, segundo o executivo, de racionalizar e dar mais transparência às relações com os clientes, além de ser um incentivo à competitividade no mercado. “A sociedade vem mudando a forma de consumir, tudo passa por um celular, um aplicativo, e aí se incluem também os serviços financeiros”.

A bola está agora com o Banco Central, que já vem discutindo com bancos, bancos de pagamentos e fintechs o modelo de ‘open banking’ a ser adotado por aqui. Na Europa, por exemplo, os maiores bancos foram obrigados a aderir ao sistema, abrindo os dados de seus correntistas. E para que isso seja colocado em prática, é necessário que haja uma integração de plataformas entre todas as instituições participantes da engrenagem.

E aí reside uma outra questão relevante, a de segurança de dados, mais precisamente sobre quem recairá a responsabilidade em casos de vazamentos de informação, uma vez que hoje eles são protegidos pelo sigilo bancário.

Há muitos detalhes a serem definidos, por isso, Pereira acredita que a implementação do ‘open banking’ ocorra em fases, mas deve estar concluída em um período de até três anos.

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