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O que esperar do mercado financeiro em março

Regina Pitoscia

02 de março de 2020 | 00h09

(*) Com Tom Morooka

O mercado financeiro dá pontapé aos negócios do mês, nesta segunda-feira, em meio a um agravamento de pessimismo com o avanço do coronavírus e seus efeitos sobre o crescimento da economia global.

A preocupação aumenta à medida que a epidemia, originária na China, se propaga pelos países da Europa, Oriente Médio e chega ao Brasil, com risco de se tornar uma pandemia, uma doença em escala mundial.

A expectativa de analistas é que o agravamento de incertezas continue encorajando o investidor a migrar dos ativos de maior risco, principalmente bolsas de valores e títulos de renda fixa de países considerados emergentes, para ativos considerados mais seguros, como ouro, dólar e bônus, como os títulos do Tesouro americano (treasuries).

Uma intensificação do fluxo de recursos para aplicações mais seguras tende a deprimir a bolsa de valores, em pregões de maior volatilidade, e a pressionar para cima o dólar, considerado um ativo real e moeda de aceitação em praticamente todas as regiões do mundo.

O mercado financeiro tende a reagir, no curto prazo, às expectativas em relação ao coronavírus, sua velocidade de propagação para diversos países e seus impactos sobre o crescimento global. A dúvida é saber até quando persistirá essa incerteza.

A inclusão do impacto negativo do coronavírus, ainda que preliminarmente, na conta do PIB (Produto Interno Bruto, total de bens e serviços produzidos no País) já leva a uma revisão da estimativa de crescimento econômico para 2020, de 2,3% para algo ao redor de 2%, pelo mercado.

“O coronavírus vai influenciar negativamente o crescimento do PIB, o que lança uma nuvem negra sobre os mercados, e a bolsa de valores deve reagir negativamente a essa expectativa”, afirma o agente de investimentos Eduardo Santalucia, da Santa Sociedade de Agentes Autônomos de Investimento. “A questão é saber de quanto será esse impacto e até onde poderá ir a queda da bolsa.”

Importante ressaltar que nos últimos dias, no entanto, o mal-estar dos mercados não vem refletindo apenas preocupações com o vírus. Ele embute também um sentimento de certa apreensão com o acirramento da tensão política entre o governo e o Congresso, uma queda de braço que estaria pondo em risco a votação de medidas econômicas importantes, incluídas as reformas administrativa e tributária, essenciais para destravar a economia.

São medidas de uma agenda com que investidores e mercados contam para impulsionar o crescimento, após a aprovação da reforma da Previdência Social no ano passado.

Em relação ao coronavírus, a expectativa dos mais otimistas é que a epidemia e seus possíveis efeitos mais brandos sobre a economia global percam força em meses. Já o entendimento e a articulação política para o encaminhamento e votação das reformas esbarra na restrição do calendário eleitoral.

Existe certo consenso de que, se isso não ocorrer no primeiro semestre, as reformas vistas como tão necessárias à retomada da atividade, já prejudicada pelo coronavírus, poderiam naufragar.

Essa mistura pode acrescentar turbulências que o otimismo do mercado ignorava na virada de ano. Em um cenário assim, uma busca de proteção na própria renda variável, sem sair da bolsa de valores, seria uma estratégia importante. A migração de ações de maior risco para outras, mais defensivas, é uma das dicas. “Menos emoção e especulação, é a busca de ganho com risco menor”, diz Santalucia.

Outra dica para a proteção do patrimônio consistiria na venda de ações de empresas que estão sofrendo com o coronavírus, como as aéreas, e na compra de ações de bancos, também consideradas defensivas, que continuam acenando com boas perspectivas de valorização.

As dúvidas são muitas para qualquer decisão do investidor em bolsa de valores, seja para quem está com dinheiro em caixa para a compra de ações, seja para quem, assustado com as fortes quedas, pensa em vender e sair do mercado de ações.

Santalucia diz que, por enquanto, o melhor para quem está na bolsa é ficar quieto com as ações, mesmo desvalorizadas, e não fazer nada. “Se tiver caixa, poderá até fazer bom negócio se aproveitar a queda e comprar ações baratas de empresas boas.”

O investidor que está abraçado em ações e não liquidou sua posição  quando o Ibovespa (Índice Bovespa, o principal índice da B3) despencou a 104 mil pontos – pontuação de quinta-feira, na volta do carnaval, quando a Bolsa de Valores de São Paulo fechou com desvalorização de 7% – ou a 102 mil pontos na sexta-feira, não tem por que sair, pondera Santalucia.

“Agora, é melhor ficar com as ações e esperar uma recuperação do mercado.” A perda, por enquanto apenas contábil, seria materializada se houver venda dos papeis. A previsão do agente de investimentos é que, apesar dos percalços pela frente, a bolsa de valores tem dez meses para reagir e chegar ao fim de 2020 em torno de 135 mil pontos, prevê. “Vai ser um ano bom para a bolsa”, acredita Santalucia, que está convicto de que um rendimento acima da Selic de 4,25% são favas contadas.

Ele alerta ainda que quem faz mudanças bruscas no portfólio ou na carteira de investimentos em momentos de nervosismo no mercado financeiro corre maior risco de perder do que chance de ganhar.

Dólar

Foi sob influência desses dois componentes de alta, efeitos do coronavírus e tensão política, que o dólar chegou a embicar acima de R$ 4,50 na sexta-feira, após seguidos recordes nominais nos últimos dias. A moeda americana ultrapassou esse patamar considerado emblemático na sexta, mas fechou em nível pouco abaixo, R$ 4,48.

O diretor de Câmbio da Ourominas, Mauriciano Cavalcante, prevê que a cotação do dólar permaneça em torno de R$ 4,48, a do fechamento de sexta-feira, até que surjam notícias menos preocupantes ligadas ao coronavírus. Segundo ele, o que não dá para apostar é que os preços venham a se acomodar rapidamente em patamares muito mais baixos.

O dólar comercial acumulou uma valorização de 2,05% na semana.

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