O que esperar dos mercados em outubro

Regina Pitoscia

30 de setembro de 2019 | 00h09

Faltando contabilizar apenas o pregão desta segunda-feira, último dia útil de setembro, para o fechamento do mês, a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) lidera a rentabilidade, com valorização acumulada de 3,90%, até a última sexta-feira, dia 27.

O mês que chega ao fim não só correspondeu às expectativas de quem apostou na valorização das ações, mas também forjou, nos últimos dias, um ambiente em que os investidores parecem um pouco mais confiantes com os bons ventos que aparentemente passam a soprar sobre a economia.

Começa pelo esperado desfecho da reforma previdenciária, que deverá ter a votação concluída pelo Senado em outubro, e outros sinais positivos que passaram a compor o cenário otimista dos investidores no fim de setembro. São eles: juros baixos que, pelos fundamentos que sustentam a redução da Selic, devem permanecer baixos por longo tempo; indícios de recuperação da economia, com a geração de empregos em agosto acima das previsões, e reaproximação da equipe econômica com o Congresso.

É com esse sentimento que o mercado abre o novo mês, amanhã, terça-feira, deixando para trás um mês que sofreu, como nos anteriores, forte influência de fatores externos. Movimento que deve continuar permeando os negócios em outubro.

O principal fator de incerteza no exterior continua sendo as preocupações com os desdobramentos da disputa comercial entre EUA e China. Um confronto em que as expectativas dos investidores se movem de acordo com as declarações, ora do presidente americano Donald Trump, ora de líderes chineses, que no fim das contas não redundam em ações concretas para a solução do embate comercial.

A queda-de-braço comercial entre as duas potências econômicas globais cria um temor maior no mercado, o de que eventual acirramento nessa medição de forças pavimente um caminho que empurraria a economia global para uma recessão, com efeitos danosos sobre todos os países, principalmente para os em desenvolvimento, como o Brasil.

Uma pitada adicional de insegurança no quadro internacional é o agravamento de dificuldades políticas do presidente americano Donald Trump, acusado de ações que se materializaram em processo de impeachment que pode criar mal-estar nos mercados, lá fora e aqui.

A questão é saber se a bolsa de valores se deixará levar mais por fatores domésticos, vistos como positivos, ou continuará reagindo a eventos e expectativas vindos lá de fora, como tem ocorrido com mais frequência.

Um movimento que tende a dar suporte à bolsa de valores, preveem gestores do mercado, é o esperado aumento da migração de recursos aplicados em renda fixa para o mercado de ações. A tendência seria que investidores desapontados com o achatamento dos juros procurem opções mais interessantes na renda variável, como ações.

A perspectiva de redução da Selic às taxas mínimas cada vez mais baixas, além de favorecer a procura e impulsionar o mercado de ações, anima os negócios na bolsa de valores porque juro baixo tende a devolver tração para a reativação da economia, movimentando uma cadeia favorável à volta do investimento, aumento de produção de empresas, emprego.

Um aumento mais acentuado na procura por ações, no processo de diversificação e investimentos, deve ser encorajado quando a atividade econômica passar a exibir dados mais alentadores e convincentes de crescimento, acreditam especialistas. Até lá, o mercado deverá persistir evoluindo em marcha lenta de alta, alternando pregões de alta e baixa, como reação a fatores pontuais do dia a dia.

Essa perspectiva reforça a opinião de que a diversificação de investimento é importante e necessária, à luz das taxas de juro nas mínimas históricas, mas a bolsa de valores não pode ser vista como opção de ganho rápido. O retorno do investimento em ações, seja pela compra direta, seja por meio de fundos, é algo que deve ser esperado em períodos mais longos de tempo. Quem apostar e entrar na bolsa agora poderá estar trilhando um caminho que tende a alcançar bons resultados.

Dólar

O dólar chega o fim do mês acumulando discreta valorização de 0,25%, cotado por R$ 4,15 na última sexta-feira, mas a tendência para outubro divide opiniões de analistas. Especialmente de quem acredita que o estreitamento da diferença entre os juros domésticos, referenciados na Selic mais baixa, e o juro básico nos EUA pode aumentar a pressão sobre a cotação do dólar.

Isso porque, nessa situação algumas operações que costumam atrair o capital estrangeiro (carry trade) ficam desinteressantes. Menos ingresso de capitais significa menos oferta de dólares para atender a demanda do mercado, portanto mais pressão de alta sobre as cotações. A nova aposta de especialistas é que o nível de R$ 4,15 seria o suporte para os preços no mês que começa.

Renda fixa

O IPCA-15 de 0,09% em setembro, calculado e divulgado pelo IBGE na última terça-feira, aponta que os preços médios de uma cesta de produtos que o instituto pesquisa seguem contidos e bem-comportados. Principalmente os de alimentos, cuja deflação ou variação negativa foi um dos principais freios da inflação na primeira quinzena de setembro.

O resultado do IPCA-15 (Índice de Preços ao Consumidor Amplo-15), abaixo da maioria das estimativas, já anima apostas de que a inflação oficial de setembro, calculada pelo IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), poderá ficar ligeiramente positiva, mas próxima de zero.

Com isso, a perspectiva é a de que embora com juros achatados, as aplicações em renda fixa proporcionem ganho real ao investidor em setembro. Por mais que não guarde grande folga em relação à inflação, esse ganho seria suficiente para preservar o poder aquisitivo do dinheiro aplicado. Um desafio que passará a ser preocupação daqui para a frente, porque com rendimento nominal baixo uma inflação acima do ponto de curva previsto poderá levar a margem positiva escoar pelo ralo.

 

 

 

 

 

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