O que está por trás e até onde vai esse fôlego do dólar

Regina Pitoscia

08 Junho 2018 | 01h14

(*) Com Tom Morooka

O dólar continua em sua escalada de alta. O mercado tem ignorado a intervenção reforçada do Banco Central, que desde 21 de maio ampliou a oferta de contratos que equivalem à oferta da moeda, pelos chamados swaps cambiais.

Esses contratos garantem ao comprador (investidor ou empresário) o recebimento, em data futura, de dólares em papel-moeda ou o valor equivalente em reais corrigido pela variação cambial. Essas características, de proteção contra variações bruscas do dólar, tenderiam a inibir a procura por dólares no mercado à vista por quem teme uma disparada do dólar.

As ações do BC, contudo, não têm surtido o efeito desejado pela autoridade monetária. As cotações do dólar não param de subir. Após avançar 6,65% em maio, o dólar comercial acumula valorização de 5% até ontem, dia 7, portando em apenas cinco dias úteis de junho.

As cotações do dólar comercial, moeda de pagamento em negócios de comércio exterior (importação e exportação), são referência para a formação de preço do dólar-turismo, usado pelos que viajam ao exterior. A cotação do dólar turismo anda acima da do comercial e já supera R$ 4 –sai entre R$ 4,20 e R$ 4,30 para quem compra a moeda nas corretoras.

A trajetória do dólar reflete um cenário de incertezas externas e domésticas. Um quadro que combina instabilidade no mercado internacional, pela elevação dos juros americanos e acirramento da disputa comercial entre os EUA e demais países, principalmente a China, e crise político-econômica internamente.

O dólar, como se sabe, deu uma arrancada e ganhou maior mobilidade com a alta dos juros americanos, que atrai capitais do Brasil e de outros países para aplicação nos EUA, e o agravamento de expectativas política e econômica domésticas, com as trapalhadas e sinais de fraqueza do governo Temer.

Entre uma taxa de juro subindo, nos papeis americanos, e o juro baixo aqui, um país atolado no rombo fiscal que abandonou a ideia de reformas econômicas, sobretudo a previdenciária, e com horizonte cheio de incertezas, o investidor tem preferido migrar seu dinheiro para os EUA, cujo efeito por aqui é a valorização do dólar e consequente depreciação do real.

Pressão reforçada

A saída de investidores estrangeiros, em busca de ganhos atraentes em ambientes mais seguros, é apenas um dos fatores que empurram o dólar. Há outros, que aumentam a pressão à medida que a cotação da moeda americana sobe.

A disparada do dólar encoraja e estimula a saída de capitais, realimentando a valorização da moeda, porque, quanto mais o real se desvaloriza, menos dólares o investidor recebe, na conversão da moeda nacional para a americana, para sair do País. É um processo que pode até neutralizar os ganhos obtidos com a aplicação e levar ao que se chama ‘efeito manada’, em quem todos correm para tentar sair antes e não agravar as perdas.

Outro fator que ajuda puxar para cima as cotações em um momento desses é a resistência das empresas exportadoras em fechar contratos de câmbio ou trazer dólares de vendas externas para o País, à espera de preços mais altos para dólar. Quanto mais valorizado estiver a moeda americana, mais reais o exportador receberá ao internalizar o dinheiro obtido nas transações internacionais. Uma expectativa que reduz o ingresso de divisas e, por tabela, a oferta, dando um gás adicional às cotações, em momento de aumento de procura pela moeda americana.

Pode subir mais?

Em pouco mais de quatro meses, desde fevereiro até o início de junho, o dólar comercial avançou 23,50% – saiu de R$ 3,18, no fim de janeiro, para R$ 3,93 no fechamento de quinta-feira.

Apesar dessa valorização, analistas e especialistas veem espaço para novas valorizações, movidas pelo combustível da insegurança em relação à disputa presidencial. Uma pressão que já atua sobre o mercado financeiro, especialmente na bolsa de valores e dólar, e pode ser reforçada à medida que crescem as incertezas político-eleitorais.

Por enquanto, ela vem da falta de candidatos mais confiáveis, do ponto de vista do mercado financeiro, entre os favoritos que aparecem nos primeiros lugares nas pesquisas de opinião.

O sentimento é que a perspectiva de vitória de um candidato não alinhado com as ideias de reformas econômicas e de ajuste fiscal, de forma a conter o buraco crescente das contas públicas, atice ainda mais o ânimo do investidor, que correria para o dólar em busca de proteção e refúgio.

Com o agravamento do pessimismo e a rápida deterioração de expectativas, e olhando o cenário político-eleitoral à frente, alguns analistas comentam, em tom de brincadeira, que em vez de um tempo longo de juros baixos nas mínimas históricas o País poderá ter uma temporada de dólar valorizado, dependendo do candidato presidencial eleito e de seu programa econômico.

Para esses especialistas, o dólar está alto, mas pode ficar mais caro ainda, dependendo dos resultados das eleições presidenciais de outubro.