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O que fazer em meio às turbulências dos mercados

Regina Pitoscia

16 de março de 2020 | 01h27

(*) Com Tom Morooka

Um sentimento de desespero permeia o mercado financeiro, com queda livre da bolsa de valores e escalada do dólar. São movimentos que varrem as principais praças financeiras do mundo e se reproduzem por aqui. O pano de fundo por trás do pessimismo que gera esse desconforto nos investidores continua sendo o temor diante das incertezas provocadas pelo coronavírus, que tendem a levar a economia global a uma recessão.

Um fator adicional de mal-estar internamente é o recrudescimento dos conflitos entre o governo e o Congresso, uma disputa que redundou na ampliação, pelos deputados, da base de acesso ao BPC (Benefício de Prestação Continuada), decisão que põe em risco o desmonte do equilíbrio fiscal pavimentado pela aprovação da lei que estabelece teto para os gastos públicos e aprovação da reforma previdenciária. Por enquanto, a mudança está suspensa pela Justiça.

Em ambiente de forte pressão vendedora, em alguns momentos por qualquer preço, o mercado de ações não para de cair. Desde 23 de janeiro, quando encerrou o pregão com recorde nominal de 119.527 pontos, até o fechamento de sexta-feira, em 82.678 pontos – alta de 13,04% no dia, após recuar 14,78% na véspera, para 72.583 pontos -, a Bolsa de Valores de São Paulo acumula desvalorização de 30,83% – da qual 20,63% apenas em março, até agora.

Os mesmos fatores que derrubam a bolsa de valores turbinam a arrancada do dólar. Em boa medida, a escalada reflete a procura da moeda americana pelos investidores preocupados em proteger o patrimônio, em um cenário em que todos estão tensos com o que virá com o coronavírus.

Cotado por R$ 4,81 no fechamento de sexta-feira, o dólar acumula valorização de 7,37% neste mês, até sexta-feira, alta que fica ampliada para 20,25% no ano.

Por causa da insegurança que vem de todos os lados, alimentada por eventos que não acenam ainda com um desfecho mais claro, analistas e especialistas não arriscam palpites sobre a tendência desses mercados. Entendem apenas que os investidores terão de conviver com as turbulências e vaivéns no mercado financeiro por bom tempo.

O sentimento é de pessimismo no curto prazo, porque persistirão os efeitos da exposição ao coronavírus, mas a expectativa do mercado é positiva em perspectiva de médio e longo prazos.

O que fazer?

O ideal é evitar tomar decisões e mudanças precipitadas de aplicação financeira em cenário de forte instabilidade e turbulências no mercado de investimentos, como agora. A perspectiva de perda nessa migração é muito maior que a chance de algum ganho, já que o risco fica mais acentuado em momentos assim.

Mais que uma sugestão, a orientação é do agente de investimentos Eduardo Santalucia, que confessa não ter visto uma derrocada tão rápida da bolsa de valores em seus mais de 50 anos de atuação no mercado financeiro. Impressionado, ele diz não ter assistido em todo esse tempo a um clima de pânico tão generalizado, que vai além do mercado financeiro, espraiando-se para todos os setores de atividade.

Os investidores têm procurado resistir ao pessimismo em relação à pandemia, mas os movimentos bruscos dos mercados de uma direção a outra não parecem guiados por fundamentos ou lógica, analisa Santalucia.

Em um momento desses, a regra de ouro para o investidor, segundo ele, é permanecer quieto onde está e não decidir a toque de caixa. Mudanças de posição, em meio ao intenso vaivém dos mercados, aumentam o risco de perda para quem procura oportunidades para tentar ganhar mais ou perder menos.

Embora aturdido com os bruscos solavancos dos mercados, sobretudo com o mergulho da bolsa de valores, Santalucia se diz despreocupado e afirma que ainda aposta no desempenho das ações na comparação com a renda fixa. “Aconteça o que acontecer nos próximos meses – ele cita quatro meses como tempo estimado para a ação do coronavírus -, a bolsa vai fechar o ano em vantagem sobre os juros.”

Apesar do pânico atual, o agente de investimento afirma que não vê como uma carteira de ações não renda mais que 4,25%, que é quanto vale no momento a taxa básica de juros, a Selic, referência para a rentabilidade das aplicações de renda fixa.

Ainda assim, o ambiente de instabilidade do momento exige cautela e o investidor que tiver recursos deve escolher uma aplicação remunerada pela Selic – um fundo DI, sem ou com baixa taxa de administração, ou Tesouro Selic, em compra pela internet na plataforma do Tesouro Direto.

Um título com juro prefixado, como a NTN-F (Nota do Tesouro Nacional da série F ou sua versão Tesouro Prefixado, na plataforma do Tesouro Direto), é considerado contraindicado, por causa da tendência de alta dos juros no mercado futuro. Juros futuros em alta levam à perda de valor, nas negociações no mercado secundário, de títulos emitidos com taxas de juro mais baixas que o juros futuros, com efeito negativo sobre o rendimento.

Para quem quiser aproveitar uma oportunidade de investir em momento de baixa da bolsa de valores, Santalucia indica a compra gradual de ações em pequenos lotes, e não montar a posição com uma só tacada.

E a Selic?

Na quarta-feira, dia 18, o Copom (Comitê de Política Monetária), anuncia em que nível ficará o juro básico da economia até o dia 29 de abril. A expectativa é de que a Selic, que está em 4,25% ao ano, continue em queda.

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