O que saber antes de aplicar em Títulos do Tesouro

Regina Pitoscia

19 Setembro 2018 | 00h14

Com Tom Morooka

O mercado financeiro está convencido, para não dizer convicto, de que o Banco Central manterá a taxa básica de juros, a Selic, em 6,50% ao ano hoje, no fim da reunião de dois dias do Comitê de Política Monetária (Copom), que teve início ontem e será encerrada nesta quarta-feira.

Juros e inflação

A previsão de estabilidade da Selic, mantida desde maio, vai além desta reunião de setembro. Pelos dados do boletim semanal Focus, analistas e economistas do mercado financeiro estimam que a Selic termine 2018 acomodada em 6,50%. Projeção que se repete há 17 semanas seguidas.

Os mais otimistas apostam até que a Selic nesse nível poderá avançar por 2019 dentro. A principal dúvida está no comportamento da inflação. De acordo ainda com o último boletim Focus, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), medida da inflação oficial, projetado para este ano está em 4,09% e, para 2019, ligeiramente acima, em 4,11%.

Alimenta dúvidas sobre a trajetória da inflação a disparada das cotações do dólar, que, pressionado pela insegurança eleitoral e incertezas externas, mudou de patamar e roda próximo de R$ 4,20. Em geral, a valorização da moeda americana gera efeitos nocivos sobre o comportamento de preços, por encarecer os produtos importados, uma alta que se espraia, de resto, sobre os demais.

A expectativa de juros mais elevados, ainda que os dados do Focus apontem para a estabilidade da Selic por bom tempo, está refletida na alta dos juros futuros, que rodam no compasso do avanço do dólar.

O movimento dos juros futuros e do dólar expressa a preocupação do mercado financeiro com a agenda econômica do candidato que sairá vitorioso das urnas em outubro. A dúvida é se ela contempla reformas econômicas que estabilizem o crescimento da dívida pública.

A dívida pública

Da trajetória da dívida pública depende também a tendência da taxa de juros, que sempre foi e continua elevada por causa do desequilíbrio e desarranjo das contas públicas. Quanto maior o temor com a evolução da dívida e o eventual sentimento de não ter de volta o que emprestou ao governo, maior tende a ser a propensão dos investidores em exigir juros elevados nos títulos públicos para financiar o déficit público.

O governo financia sua dívida com a oferta de títulos no mercado financeiro. Quem empresta dinheiro ao Tesouro Nacional, que tem no Banco Central seu principal agente, não são apenas os bancos. São também empresas e investidores pessoas físicas. Enfim, todos que aplicam em títulos públicos, seja por meio dos fundos de investimento, seja pela compra direta de papeis pela internet, pelo Tesouro Direto.

Plataforma de aplicação

O Tesouro Direto é uma plataforma que oferece títulos do governo para investimento. Foi um canal que o Tesouro Nacional criou para pulverizar a oferta, antes limitada à colocação de papeis por meio de leilões no mercado, a que os investidores tinham acesso por meio de fundos. Existe um leque de opções: títulos prefixados, títulos pós-fixados indexados à inflação e, ainda, à taxa Selic.

Após a criação da plataforma, até os nomes dos títulos públicos ofertados para a compra direta de pessoas físicas mudaram, na versão pela internet: a LTN (Letra do Tesouro Nacional), com taxa de juro prefixada, virou Tesouro Prefixado; a NTN-F (Nota do Tesouro Nacional da série F), com juro prefixado pago semestralmente, virou Tesouro Prefixado com juros semestrais; Letra Financeira do Tesouro (LFT), com juro atrelado à taxa Selic, virou Tesouro Selic; a NTN-B Principal (Nota do Tesouro Nacional da série B Principal), com correção monetária pelo IPCA mais juro real pago no vencimento, virou Tesouro IPCA Principal; e NTN-B, com correção monetária pelo IPCA e juro real pago semestralmente,  virou Tesouro IPCA com juros semestrais.

Pré e pós-fixados

Os títulos da vitrine do Tesouro Direto atendem a variados objetivos, de acordo com as expectativas e necessidades do investidor.

Quem aposta em tendência de alta dos juros sente vantagem em escolher o Tesouro Selic, título que remunera com juro pós-fixado atrelado à variação da taxa Selic, que o Copom calibra em suas reuniões.

Quem aposta em trajetória inversa, de queda dos juros, tem como opção o Tesouro Prefixado, em que o investidor trava uma taxa de juro prefixada elevada para atravessar um cenário de juro em baixa mais à frente.

Quem desconfia da inflação e quer proteção do dinheiro contra os efeitos corrosivos da alta de preços faz escolha supostamente mais vantajosa pelo Tesouro IPCA, título público que mescla o rendimento com juro real prefixado, que se conhece no momento da compra, e correção monetária, equivalente à variação do IPCA, acumulada no período.

Riscos

Conhecidas as características de cada um deles, é preciso saber que esses títulos se valorizam ou desvalorizam de acordo com as expectativas e os movimentos do mercado financeiro e podem influenciar, no fim das contas, o rendimento do investidor. A exceção é o Tesouro Selic, que pode render mais ou menos conforme a calibragem que o Copom fizer, para cima ou para baixo, na Selic, independentemente de seu valor.

Os papeis com juros prefixados, como o Tesouro Prefixado e o Tesouro IPCA, embutem risco de desvalorização. São títulos que acenam com rendimento predeterminado, definido com base nas expectativas em relação ao que poderá ocorrer na economia, e podem desvalorizar-se com uma reviravolta nesse cenário para negativo.

Tome-se por exemplo um título prefixado comprado com taxa de 10% ao ano e algum tempo depois, com a mudança nas expectativas de inflação, o governo passa a bancar 12% ao ano no mesmo papel. Se já existe papel igual com taxa maior, o comprado por 10% passa a valer menos.

Nenhum investidor vai querer um título que remunera com 10% e, por isso, quem antecipar a venda do papel, porque vê seu título desvalorizar, receberá um valor menor que o previsto inicialmente. Se esperar pelo vencimento, embolsará o valor aplicado e a taxa de juro prevista.

A relação inversa também poderá ocorrer. Caso a taxa prefixada recue para 8% ao ano, pela melhora das expectativas após a compra do papel, haverá valorização e o investidor receberá um valor com ágio se realizar lucro com a venda antecipada do título.

O Tesouro IPCA 2024, vencimento em 15 de agosto de 2024, foi oferecido no Tesouro Direto ontem com taxa de juro de 5,76% ao ano mais correção monetária pelo IPCA – garantia de reposição da inflação mais juro real.

O Tesouro Prefixado 2021, vencimento em 1º de janeiro de 2021, foi ofertado com juro de 9,73% ao ano – o rendimento inclui correção monetária e juro real, que o investidor só obterá se a inflação anual for inferior a 9,73%, porque haverá ainda desconto de imposto de renda.

O Tesouro Selic rende o equivalente ao juro básico. Como tem o rendimento pós-fixado, o papel será beneficiado por eventual elevação da taxa Selic pelo caminho, até o vencimento. O título de prazo mais curto oferecido no Tesouro Direto ontem foi o de 1º de março de 2023.

Prazos

Uma das características dos títulos públicos são os vencimentos mais longos, bem acima do de papeis privados, como os CDB. E, ainda que sejam considerados papeis seguros, apesar da crise fiscal, porque são garantidos pelo Tesouro Nacional, a indicação de especialistas em investimentos recai nos títulos públicos de vencimentos mais próximos.

O motivo é que as taxas de juro podem variar bastante durante a trajetória dos títulos até o vencimento. Especialmente nos prefixados, por causa de falta de clareza do cenário econômico em horizonte mais longo. As taxas que rodam no momento têm como referência uma Selic de 6,50%, mas, para os especialistas, não se pode descartar uma reviravolta no cenário que coloque a taxa básica em alta e, com ela, os demais juros.