O que trouxe ânimo ao mercado de ações

Regina Pitoscia

24 de junho de 2019 | 00h30

(*) Com Tom Morooka

O mercado financeiro ganhou novo alento na semana que passou. Fora a perspectiva de redução da taxa Selic, sinalizada pelo Banco Central após a reunião do Copom, e o otimismo com o avanço da reforma previdenciária na Câmara, os investidores reagiram positivamente à perspectiva de redução das taxas de juro no exterior, em novo ciclo de flexibilização monetária acenada pelos bancos centrais das principais economias.

A conjugação de novidades positivas, na avaliação de analistas de mercado, deve favorecer a Bolsa de Valores de São Paulo, a B3. O Ibovespa (Índice Bovespa, índice que reflete a variação de 66 principais ações da bolsa de valores), que vinha flertando os 100 mil pontos, desta vez rompeu essa linha simbólica, pela primeira vez na história, no fechamento de quarta-feira e consolidou o novo patamar na sexta.

A redução dos juros é tradicionalmente um fator de estímulo à valorização das ações, porque encoraja o aplicador a deixar o conforto da renda fixa e correr mais risco na renda variável, como a bolsa de valores, em troca de uma rentabilidade mais atraente. É uma estratégia de diversificação que, desta vez, tenderia a ganhar força, com a atração para a bolsa tanto de investidores conservadores domésticos quanto de estrangeiros.

Parte dessa migração para a renda variável já ocorreu, na esteira do ciclo de cortes da taxa Selic, que escorregou de 14,25% ao ano para os atuais 6,50%, mas os investidores puxaram o freio de mão do processo com o aumento de instabilidade no mercado diante de incertezas ligadas principalmente à aprovação de mudanças na aposentadoria no estágio inicial de tramitação da proposta na Câmara.

O andamento da reforma, que deve rumar em breve da Comissão Especial para debates no plenário, tem trazido mais confiança ao mercado, além da expectativa também de que o texto poderá ser votado em primeiro turno na Câmara antes do início do recesso parlamentar.

Sinais convincentes de que a reforma caminha para aprovação carregando em seu bojo uma economia suficiente para colocar as contas públicas no caminho do ajuste fiscal serão o gatilho para o Banco Central retomar os cortes adicionais na taxa Selic.

A boa nova esperada do exterior para reforçar o otimismo com os fatos domésticos veio com a perspectiva de que o Fed (Federal Reserve, o banco central americano) e bancos centrais de países da Europa e do Japão promovam cortes nas taxas de juro para dar sustentação ao crescimento econômico.

As políticas de estímulo à economia com flexibilização monetária redundam quase sempre em aumento de liquidez ou de dinheiro em circulação na economia que passa a procurar aplicações rentáveis no mercado local ou fora do país.

Com taxas de juro próximas de zero e até negativa em alguns países desenvolvidos, o investidor lá de fora se sente tentado a buscar opções mais rentáveis em outros mercados. É nisso que aposta o investidor doméstico, que parte desses recursos aportem por aqui para a compra de ações.

A expectativa é que a participação do capital internacional na compra de ações, ainda que prevista apenas quando a reforma previdenciária estiver aprovada, coloque a bolsa de valores, cedo ou tarde, em novo patamar de valorização.

Analistas mais cautelosos alertam, porém, que a perspectiva é positiva, mas por enquanto não passa de torcida dos investidores, apoiados em um possível cenário mais favorável que se desenha para o mercado financeiro.

A Bolsa de Valores de São Paulo, a B3, fechou a sexta-feira, no pregão seguinte ao do feriado de Corpus Christi, com alta de 1,70%, que esticou a valorização acumulada na semana para 4,05% e no mês para 5,13%.

Na contramão do mercado de ações, o outro ativo considerado de renda variável, o dólar, recuou 0,68% na sexta, para R$ 3,82, e acumulou desvalorização de 1,93% na semana e de 2,55% no mês, até agora.

 

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.