Perspectiva é de mais instabilidade para o mercado financeiro

Regina Pitoscia

19 de agosto de 2019 | 00h07

Com Tom Morooka

O investidor pode ir contando com mais turbulências no mercado financeiro, traduzidas em vaivéns principalmente de ações e dólar, como ocorreu na semana que passou. O temor de possível recessão global, sinalizada por dados que indicam recuo da economia alemã e desaceleração da atividade na China, agitaram os mercados, internacionais e doméstico. Uma ameaça que, se materializada, poderia pôr a economia dos principais países em desordem, com efeitos negativos respingando também a economia dos países em desenvolvimentos, os emergentes, incluída a brasileira.

O risco de que a economia mundial ande para trás é mais uma incerteza, senão a principal, que se junta a outros temores, como os desdobramentos do duelo comercial travado entre Estados Unidos e China. Alguns analistas já apontam essa disputa, uma novela aparentemente sem fim, em que novos capítulos se sucedem com tuítes do presidente Donald Trump ou declarações do governo chinês, como uma das causas do fantasma de recessão pelo mundo.

O mau humor dos mercados reflete também a perspectiva de uma reviravolta na política argentina, após a vitória do candidato presidencial de linha peronista Alberto Fernández, em dupla com a vice Cristina Kirchner, nas prévias eleitorais do último domingo. Investidores temem que um cavalo-de-pau na economia no país vizinho se Fernández sair vitorioso nas eleições marcadas para 27 de outubro.

Outro foco de preocupação, que também pode contribuir como freio na economia mundial, é o aumento de tensão político-militar entre China e Hong Kong, uma ilha capitalista que deixou de ser colônia do Reino Unido e passou ao controle do governo chinês em 1997.

Fatos e expectativas em penca não faltam para agitar o mercado financeiro. São tantas as fontes de pressão que ninguém arrisca palpites sobre a possível tendência dos mercados. A quase certeza é que todos passarão por forte volatilidade até que o cenário internacional fique mais claro, seja para o bem, seja para o mal.

Bolsa de valores

O mercado de ações é um dos que mais reagiram negativamente ao cenário de tensão global, apesar do avanço da reforma previdenciária no Senado. O Ibovespa (Índice Bovespa, principal da Bolsa de Valores de São Paulo, a B3) recuou abaixo de 100 mil pontos, quase dois meses após o rompimento dessa emblemática linha.

O comportamento reflete o receio de que uma recessão nas principais economias mundiais venha a reduzir o fluxo de capitais externos para o País, incluído o mercado de ações, que sente falta há tempos da participação do investidor estrangeiro nos pregões da bolsa de valores.

Algumas ações, emitidas por empresas que dependem diretamente de mercados no exterior, também já sofrem, como as de Petrobras e Vale, as carro-chefe do mercado. A estatal, por causa da queda das cotações do petróleo, e a mineradora, pelo recuo do preço do minério – com a economia global travada, o País tende a exportar menos esses produtos.

Uma das estratégias apontadas por especialistas, para quem quer permanecer com essas ações para não jogar fora oportunidades nem   amargar perdas com vendas precipitadas, é reduzir a presença dos papeis dessas empresas em carteira. No caso de mineradoras, a recomendação se estende ainda às ações da CSN e Gerdau. A dica vale também para as ações de companhias endividadas em dólar, que correm o risco de ter o crescimento do custo em reais.

Dólar

A moeda reagiu com alta à perspectiva de agravamento da crise mundial, com a cotação rompendo o patamar de R$ 4, mas foi contida pelo anúncio de que o Banco Central (BC) passará a vender dólares à vista nos próximos dias.

A oferta à vista, para atender a demanda por dólar e suprir a redução do fluxo de capitais para o País, substitui os contratos de swap cambial, ofertados como proteção contra as variações das moedas.

A decisão do BC neutralizou o ímpeto altista e acomodou a moeda americana abaixo de R$ 4, porque atende a necessidade de quem precisa de dólar papel para cumprir com os compromissos. E também porque o BC tem munição suficiente para atender à demanda, mais de US$ 375 bilhões empilhados na conta de reservas internacionais.

Juros

A alta do dólar quase sempre leva a tensões sobre seus efeitos negativos sobre a inflação e, por consequência, possível elevação das taxas de juro para conter eventual avanço de preços na economia.

Essa perspectiva, por enquanto, não está no radar do mercado financeiro, cujos analistas continuam apostando em novos cortes na Selic, que recuou para 6% ao na última reunião do Copom, em 31 de julho.

Os juros na renda fixa passaram por severo regime após o tombo da taxa Selic, mas quem quiser insistir em aplicar nesse segmento, ainda que com rentabilidade mais baixa, como proteção ao capital contra as incertezas crescentes, especialistas indicam os títulos públicos com juros prefixados. Ou para quem pode deixar o dinheiro aplicado por prazos mais espichados, há títulos de renda fixa pagando mais que 6% ao ano, encontrados na plataforma Yubb (www.yubb.com.br).

Papeis como Tesouro IPCA e Tesouro Prefixado ofertados para investidores pessoa física na plataforma do Tesouro Direto. O Tesouro IPCA, versão da NTN-B no Tesouro Direto, rende juro real prefixado e correção monetária pelo IPCA; o Tesouro Prefixado, versão da LTN, remunera com taxa de juro prefixada.

Ambos são títulos com vencimento de longo prazo. Significa que o investidor precisa deixar o dinheiro aplicado por vários anos, com perspectiva de rendimento relativamente baixo, em troca de conforto, longe de sobressaltos previstos na renda variável.

 

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