Por que a inflação foi negativa em agosto e os reflexos para o bolso

Regina Pitoscia

07 Setembro 2018 | 03h01

A inflação oficial de agosto surpreendeu positivamente e veio bastante abaixo das projeções do mercado financeiro. O IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) apontou uma variação negativa de preços de 0,09% em relação a julho, quando o índice ficou em 0,33%.

O dado divulgado pelo IBGE indica, portanto, que, em vez de inflação, o mês passado registrou uma deflação. Com a inflação negativa em agosto, pela primeira vez desde junho de 2017, quando houve deflação de 0,23%, a variação do IPCA acumulada no ano recuou para 2,85% e nos últimos 12 meses, até agosto, para 4,19%.

Especialistas em acompanhamento de preços veem a deflação como divisor de águas que sinaliza o fim do efeito da paralisação dos caminhoneiros sobre os preços de bens e serviços. Ocorrida entre o fim de maio e o começo de junho, a greve estrangulou a oferta de produtos que redundou em uma inflação de 1,26% em junho.

A deflação em agosto é boa notícia para o consumidor, ainda que o impacto sentido no bolso de muitos tenha sido uma variação de preços que destoa de uma inflação negativa. Afinal, cada um sente sua inflação no bolso de acordo com seu padrão de consumo.

O IPCA, considerado a inflação oficial, reflete uma variação média de preços calculada pelo IBGE entre famílias com rendimento de um a 40 salários mínimos de dez regiões metropolitanas do País, além das cidades de Brasília, Goiânia, Campo Grande, Rio Branco, São Luís e Aracaju.

A deflação, após o forte repique inflacionário do meio de ano, é positiva e até bem-vinda. O que não chega a ser alentador é o que está no reverso dela. Se parte disso traduz algo que vai apenas além do fim do efeito da greve dos caminhoneiros, parte retrata a economia fraca, quase parada, e o consumidor sem dinheiro que compra menos, o que impossibilita o repasse de custos aos preços.

O próprio IBGE reconhece essa relação entre atividade e consumo fraco com inflação baixa. Para o gerente da pesquisa do instituto, Fernando Gonçalves, “há um problema de demanda no mercado interno e as famílias ainda estão endividadas, o desemprego se mantém alto, há um grande número de desalentados, então há receio e cautela em gastar”.

É esse cenário econômico que mantém a perspectiva de inflação bem-comportada para o curto e médio prazo, de acordo com as projeções de analistas e economistas do mercado financeiro estampadas no boletim semanal Focus. Os dados da última sondagem estimam um crescimento de 1,44% para este ano e de 2,50% para 2019. A inflação estimada para este ano está em 4,16% e para 2019, em 4,11%.

Dólar é risco

Cessada a influência do movimento dos caminhoneiros no comportamento dos preços, a principal dúvida em relação à inflação está agora no dólar. Para alguns analistas, a trajetória do IPCA pode não ser tão tranquila, como se previa anteriormente, por causa da escalada ensaiada pela moeda norte americana.

A aceleração do dólar, que leva à desvalorização do real na mesma proporção, em geral costuma provocar alta de preços, principalmente dos produtos importados, que depois se espraiam sobre os demais.

A expectativa é que, entre os primeiros preços a subir, estejam o de alimentos, combustíveis e da carne suína e de aves, principalmente, pelo aumento dos preços da ração à base de milho e soja.

A dúvida questão seria saber se a escalada do dólar veio para ficar por mais tempo ou se é um comportamento pontual que tenderia a perder fôlego à medida que forem diminuindo as incertezas eleitorais. A previsão é que quanto mais tempo o dólar permanecer em níveis elevados, acima de R$ 4, mais nocivo poderia ser o efeito dessa alta sobre a inflação.

Os economistas do mercado financeiro continuam reforçando as apostas em torno de um dólar mais caro, mas abaixo de R$ 4. Para o fim deste ano, os dados do último boletim semanal Focus apontam para uma cotação de R$ 3,80 e para o fim de 2019, R$ 3,75.

Outro fator adicional de pressão sobre a inflação, ainda que não ligada à valorização do dólar, são as seguidas rodadas de reajuste das tarifas de energia elétrica pelos quatro cantos do País. Todas rodando com bandeira tarifária vermelha, a que cobra o reajuste mais elevado.

Renda fixa no azul

A inflação negativa de agosto deixa pelo menos o investidor no mercado de renda fixa mais confortável. Depois das perdas em junho e em alguns casos também em julho, deflação tinge de azul o rendimento total ou nominal das aplicações remuneradas por taxas de juro atreladas à taxa básica, Selic.

Fundos DI e de renda fixa, além de caderneta de poupança, renderam líquido em torno de 0,35% a 0,45%, em média, no mês passado, o que torna o rendimento nominal também o real.

Com a deflação em agosto, a maioria dessas aplicações de renda fixa passou a rodar com rendimento positivo, acima da inflação, no ano. Em oito meses do ano, a caderneta acumula rendimento de 3,08%, ligeiramente acima da inflação de 2,85% no período.