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Dan Kawa: Separar o ruído do sinal é a única forma de investir corretamente daqui para a frente

Por que ações estão em queda e ouro e dólar, em alta?

Regina Pitoscia

26 de agosto de 2019 | 00h33

Com Tom Morooka

Bolsa de valores, dólar, juros futuros. Decididamente, todos os principais segmentos do mercado financeiro passaram a movimentar-se guiados quase que exclusivamente por fatores e eventos internacionais.

Foi o que ficou cristalizado no comportamento dos diversos mercados na semana que passou e tende a ser repetido daqui para a frente. Reforma da Previdência Social, visto como fato sacramentado, saiu do centro de expectativas de investidores, que passaram a acompanhar o debate sobre reforma tributária, ainda com formato inacabado, porque não incorporou as propostas do governo.

Neste cenário doméstico de poucas novidades, pelo menos as que poderiam influenciar diretamente a decisão dos aplicadores, o mercado lançou o olhar basicamente para eventos e fatos no exterior, alguns novos, outros nem tanto, acrescentados de novos capítulos.

O pano de fundo do cenário de incertezas continua o mesmo. Preocupação com o risco de que a economia global caminhe para uma recessão, temor agravado pelo aumento de tensão na disputa comercial entre Estados Unidos e China e, adicionalmente para o Brasil, a possibilidade de vitória da chapa peronista na corrida eleitoral argentina contra o atual presidente Mauricio Macri, em 27 de outubro. Uma derrota de Macri teria o potencial de azedar as relações entre o Brasil e o vizinho do Sul, terceiro parceiro comercial mais importante do País.

As preocupações com o cenário de incertezas desenhado lá fora, principalmente, têm levado o investidor a vender ações e buscar proteção em outros mercados, como o de dólar e ouro, que têm sustentado fortes valorizações nos últimos dias.

O efeito da saída dos investidores de suas posições em ações tem sido a perda de sustentação da Bolsa de Valores de São Paulo, a B3, cujo principal índice, o Ibovespa, recuou 2,34% na última sexta-feira, para 97.677 pontos, em reação negativa ao acirramento de tensão na relação entre EUA e China.

À decisão do governo chinês de impor tarifas sobre a importação de US$ 75 bilhões de produtos americanos o presidente americano Donald Trump declarou que responderá com tarifas retaliatórias, além de pedir às empresas que deixem o país asiático.

Não há apostas na recuperação da bolsa de valores que leve o Ibovespa muito acima da linha de 100 mil pontos, por enquanto. A expectativa é que o principal índice da B3 permaneça marcando passo em torno de 98 mil/100 mil pontos, porque falta motivação e estímulo ao investidor para a retomada de compra de ações.

Existe mais apetite para venda do que para a compra, principalmente de quem estreou em bolsa, para diversificar os investimentos, e não está aguentando o tranco. As vendas, nesse caso, devem ser evitadas, porque quem se desfaz de ações desvalorizadas está materializando e colocando o prejuízo no bolso, alertam. A recomendação é ter sangue-frio e esperar a retomada de valorização. Isso porque ao manter os papeis em carteira, o investidor conta com a possibilidade de novas valorizações.

A Bolsa de Valores de São Paulo, a B3, fechou a semana com desvalorização de 2,14%, que sobe para 4,07% no mês, até agora.

Dupla verde-amarela

Ao mesmo tempo, a temperatura elevada no cenário internacional tem provocado uma forte valorização de dólar e ouro, dois ativos considerados refúgio do investidor em momentos de incerteza política ou econômica.

Impulsionado pelo aumento das tensões, o dólar comercial rompeu a linha de R$ 4,10, pressionado pela demanda de investidores que buscam proteção para seu patrimônio. Na sexta-feira a cotação de fechamento ficou em R$ 4,12 na venda, acumulando valorização de 3% na semana, mesmo com as vendas de dólar pelo Banco Central no mercado à vista desde quarta-feira.

A alta do dólar contribui para a valorização do ouro, que tem obtido tração também com a força das próprias pernas, refletindo o avanço no exterior. A cotação da onça-troy (31,104 gramas) de ouro superou US$ 1.500 recentemente. Valor que, convertido em reais, equivale a mais de R$ 6,1 mil, maior cotação em mais de 20 anos no País.

Dados da BMF&Bovespa indicam que o ouro negociado em contrato padrão de 250 gramas na bolsa de valores acumula valorização acima de 40% neste ano, dos quais mais de 24% nos últimos 30 dias. Um desempenho que coloca o ouro na posição de investimento mais rentável do ano até o momento.  Supera de longe a valorização de cerca de 12% acumulada pela bolsa e de 3% pelas aplicações de renda fixa no período.

O diretor de Câmbio da Ourominas, Mauriciano Cavalcante, explica que, após oscilar sem clara tendência nos primeiros meses do ano, o ouro engatou uma alta em junho, movimento que persiste até agora, influenciado por disputas e tensões geopolíticas que geraram temor crescente entre investidores de que a economia global esteja rumando para uma possível recessão.

“O ouro é uma reserva de valor durável que não se sujeita às flutuações inflacionárias do dinheiro em papel-moeda e tampouco às fortes oscilações do mercado de ações, o que o torna uma das melhores opções de investimento em momentos de instabilidade política ou econômica”, avalia Cavalcante.

O investidor doméstico pode aplicar em ouro por meio da compra de metal físico em lojas credenciadas, da aquisição de contratos em bolsa de valores ou, ainda, de fundos de investimento lastreados em ouro, nas corretoras, com aplicação mínima a partir de R$ 500. Para maior segurança, a compra de ouro, de diversos tamanhos e pesos, deve ser feita em empresas autorizadas pelo Banco Central e CVM (Comissão de Valores Mobiliários).

A possibilidade de que os preços do ouro continuem subindo nos próximos meses é grande. “Os problemas são complexos e não serão resolvidos de uma hora para outra, mas o mercado não acredita que os altos preços se manterão na virada do ano. Por isso, a recomendação é de cautela nos investimentos”, alerta o diretor.

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