Por que houve mudança de humor nos mercados

Regina Pitoscia

11 de março de 2019 | 00h07

O risco de quem aplica na renda variável, principalmente em ações, cresceu, após a nova onda de instabilidade nos mercados que veio do exterior. A valorização do dólar perante as demais moedas, diante da desistência do Banco Central Europeu (BCE) de elevar os juros, por causa da fraqueza da economia na Europa, levou a uma alta geral do dólar, com pressão sobre a moeda americana também no mercado doméstico e com respingos na bolsa de valores.

A animação que, embora de forma mais diluída nos últimos dias, vinha dando fôlego à bolsa de valores foi substituída momentaneamente pelo sentimento de cautela, em um momento que a reforma da Previdência Social ainda apenas engatinha, em ritmo de banho-maria, no Congresso.

A mudança nas regras previdenciárias, com a economia nos gastos previdenciários estimada ao redor de R$ 1 trilhão em dez anos, continua sendo a principal aposta dos investidores para o reequilíbrio das contas públicas e o ajuste fiscal, considerados necessários, ainda que não suficientes, para a volta do investimento e a retomada da atividade econômica, com geração de emprego e renda.

A expectativa é que a partir desta semana, após o período de folga do carnaval, comecem a ser desenhados os contornos e o rumo que poderá tomar a proposta da nova Previdência. O olhar dos mercados estará voltado às negociações do governo com o Congresso, já que o principal interesse está em saber que base de sustentação política haverá para a sua aprovação.

O momento de espera redobra o nível de atenção, principalmente na bolsa de valores. O investidor não tem vendido ações, a despeito das incertezas externas e domésticas, mas tampouco parece estimulado a novas compras, enquanto o cenário não estiver mais bem definido.

Senão por outros motivos, porque dessa definição dependeria também a disposição do investidor estrangeiro de voltar ao País como comprador de ações. Tradicionalmente, a compra de papeis pelo capital estrangeiro tem sido o principal impulsionador de alta na bolsa de valores.

O sentimento de receio dos aplicadores foi traduzido em quase paradeira do Ibovespa (Índice Bovespa, principal índice da Bolsa de Valores de São Paulo), que pouco variou neste início de mês, encurtado pelos dias de carnaval. Desde o início do mês até a última sexta-feira, a Bolsa de São Paulo acumula ligeira desvalorização de 0,23%.

Em contraste ao ritmo de marcha lenta que permeia o mercado de ações, o dólar andou mais solto e acumulou valorização de 3,20% no mesmo período, fechando a sexta-feira cotado por R$ 3,87 na venda.

A alta do dólar no exterior puxa as cotações por aqui porque atrai os investidores para aplicação no mercado americano com rentabilidade mais atraente. A saída de capital externo pela venda de papeis se espraia também pela bolsa de valores, reduzindo a oferta da moeda americana, movimento que pressiona para cima as cotações do dólar.

Essas oscilações, contudo, foram vistas como pontuais, já que a principal fonte de pressão sobre o dólar estaria ligada a expectativas positivas ou negativas em relação ao andamento da reforma previdenciária.

Se prevalecer o sentimento de otimismo em relação a uma mudança bem-sucedida nas regras da aposentadoria, a aposta dos especialistas aponta para uma retomada de uma valorização mais firme da bolsa de valores e queda do dólar, para níveis abaixo de R$ 3,80 e até de R$ 3,70.

Na falta de novidades por aqui, os investidores ficariam mais sensíveis a eventos externos, como a perspectiva de nova rodada de valorização da moeda americana.

Juros estáveis

Definido mesmo está apenas o rumo dos juros, que seguem marcando passo acompanhando a estabilidade taxa básica, Selic, que permanece em 6,50% ao ano até 20 de março. Nesse dia, o Copom (Comitê de Política Monetária), do Banco Central, define novo nível para os juros, que deve confirmar estabilidade da Selic.

Ainda assim, as aplicações de renda fixa, remuneradas por taxas de juro, continuam sendo a principal indicação de especialistas para o investidor de perfil conservador, que prefere a segurança à possibilidade de uma rentabilidade mais atraente, embora com risco maior, em opções de renda variável.

A torcida, nesse segmento de renda fixa, é que a inflação se mantenha comportada e fique abaixo do rendimento, de tal forma que assegure margem de ganho real ao aplicador. Uma preocupação que pode fazer sentido, diante da recente disparada dos preços de alguns alimentos, sobretudo os in natura, como verduras e legumes, que tiveram a oferta reduzida pelo excesso de calor e chuva.

 

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