Por que o cuidado deve ser redobrado com o 13º do aposentado

Regina Pitoscia

04 de dezembro de 2019 | 00h05

A segunda parcela do abono do aposentado está sendo paga agora, até o próximo dia 6, junto com o benefício de novembro. Mais do que simples cálculos e orientações que até são padrão para uma boa administração do dinheiro, a situação específica dos idosos requer outro tipo de atenção.

O assédio é grande sobre esses recursos extras, seja pelos gastos e a proximidade das festas de fim de ano, seja pela necessidade de socorrer financeiramente seus familiares, seja para pagar suas próprias dívidas. Motivos parecem não faltar para que de repente o aposentado nem veja a cor desse dinheiro.

O professor de Gestão Financeira da Faculdade Anhanguera, Marco Cordeiro, elenca algumas condições específicas inerentes a essa faixa etária que justificam um cuidado maior com as finanças. A começar pelo fato de que no País nunca se teve a cultura da educação financeira, o que faz com que a geração atual de aposentados chegue a essa fase da vida sem saber como lidar bem com suas finanças.

“Não se falava em dinheiro, não fomos preparados para pensar no futuro, guardar dinheiro, nem ter a preocupação de fazer um planejamento financeiro. Não é por acaso que muitos chegam endividados à idade mais avançada”, explica ele.

Além da falta de orientação para o trato com o dinheiro, há que se considerar aspectos emocionais e de comportamento dos mais velhos que tendem a complicar ainda mais a sua situação financeira.

“Os idosos contam com um nível alto de carência, de solidão, tornam-se mais vulneráveis e muitos têm depressão.” Nessas condições, segundo o professor, o aposentado se sente incapaz e tem vergonha até mesmo de entrar numa agência, falar com o gerente, muito mais para renegociar uma dívida, acertar alguma conta, pedir um desconto em uma compra.

Mais fragilizado, o aposentado também se torna presa fácil dos bancos. “É impressionante o número de ligações que o aposentado recebe diariamente com oferta de crédito consignado. É pelo menos duas por dia ou 60 e 70 em um mês”, constata o gestor. A investida é agressiva e o aposentado acaba aceitando o empréstimo sem sequer analisar condições como taxa de juros e prazo. Ele lembra que há também situações absurdas, em que o segurado nem foi avisado da concessão do benefício pelo INSS, mas já é contatado por instituições financeiras com a oferta de crédito.

Mesmo os que já têm consignado recebem propostas de diferentes bancos para renegociação com redução de juros, prazo maior, ou um troco de volta. Para o professor, tudo é muito complicado para que o segurado tome uma decisão adequada sozinho, sem orientação de quem entenda um pouco mais de crédito. Por isso, na sua opinião, uma boa parcela de responsabilidade no endividamento do aposentado pode ser atribuída aos bancos.

Não bastasse toda essa vulnerabilidade, os idosos são assediados dentro da própria família. Sem firmeza para negar, não são raras as vezes em que o aposentado acaba levantando o crédito consignado para atender um filho, um neto, e depois fica com a renda comprometida por meses a fio e por um dinheiro que nem foi usado por ele. Marco ressalta que há casos em que o benefício do aposentado é a única renda dentro de uma casa. “É uma avó sustentando, às vezes, a filha e um neto”.

A virada

Mas é possível reverter essa situação e sanear as finanças. “Às vezes é uma coisa tão simples, apenas um toque de alguém próximo pode fazer a diferença”, afirma o especialista. Tudo começa com um bom planejamento, orienta ele, com o levantamento de todas as despesas e a separação do que pode ser gasto, ou do quanto é necessário para viver.

Vale a pena também considerar a possibilidade de desfazer-se de algum bem, como um carro, um apartamento na praia, para convertê-lo em renda, de modo a liquidar os compromissos e ter uma folga financeira. “O que não pode é partir do princípio que não vai dar, não pode começar derrotado. Sempre é possível melhorar a situação financeira”.

Nesse momento em que chega o 13º, para os que estão endividados, o professor ressalta que o mais indicado é livrar-se das dívidas, especialmente as de juros mais elevados. É hora de procurar o credor, de renegociar. Já quem se encontra em uma situação mais confortável, tem o orçamento equilibrado e decidiu partir para as compras, deve saber o que vai adquirir, pesquisar preços e condições e ter bem claro se o que vai comprar será útil e bem aproveitado. Fazer uma reserva financeira para os momentos de aperto também é recomendado por ele. “Dinheiro pode não trazer felicidade, mas a falta dele nos rouba a paz”.

Cordeiro propõe uma guinada de vida e não apenas em relação ao dinheiro. E sim no sentido de aproveitar melhor a vida com momentos de lazer, procurando atividades físicas e participando de programas sociais.

Valor do abono

Por lei, o abono anual dos segurados do INSS deve ser equivalente ao benefício integral de dezembro. A primeira parte foi paga entre agosto e setembro, e agora a diferença da gratificação natalina será repassada aos segurados.

Quem ganha pelo piso, por exemplo, deve ter recebido a primeira parcela de R$ 499 em agosto e está recebendo, de 25 de novembro a 6 de dezembro, a segunda parcela de mesmo valor. A quantia está sendo creditada junto com o benefício de novembro (R$ 998), o que resulta num pagamento total de R$ 1.497.

O mesmo critério será usado para o cálculo do valor a ser pago a quem ganha mais de um salário mínimo. A primeira parcela de 50% do benefício foi paga em setembro e a segunda parcela está sendo paga agora, no início de dezembro.

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