Por que o mercado deve passar por maior instabilidade esta semana

Regina Pitoscia

11 de novembro de 2019 | 00h29

(*) Com Tom Morooka

Pressão de baixa sobre a bolsa de valores e de alta sobre o dólar em ambiente de muita instabilidade no cenário dos mercados nesta semana. Foi com esse sentimento que os investidores encerraram uma sexta-feira de muito nervosismo, cristalizado na forte desvalorização da bolsa de valores e disparada das cotações do dólar. E a renúncia do presidente da Bolívia, Evo Morales, neste domingo, só vem colocar um pouco mais de fervura no caldeirão.

O mau humor de investidores que se seguiu ao mega leilão do pré-sal – considerado malsucedido pelo mercado porque não atraiu participantes estrangeiros e, portanto, não trouxe dólares ao País – foi agravado com a decisão do Supremo Tribunal Federal, tomada na quinta-feira, que retirou a legalidade da prisão em segunda instância, abrindo caminho para a saída do ex-presidente Lula, da prisão da Polícia Federal em Curitiba.

A liberdade que traz Lula de volta à cena política como principal protagonista alimenta um sentimento de insegurança política, econômica e jurídica no investidor, tanto doméstico quanto externo, avalia Mauricio Cavalcante, diretor de Câmbio da Ourominas.

Um dos efeitos desse sentimento negativo sobre o mercado de ações seria fator de alimentação da resistência do investidor estrangeiro em retomar a compra de ações na Bolsa de Valores de São Paulo, a B3. E o aumento de instabilidade política, social e econômica na América do Sul, com crises no Chile, Venezuela e Equador, tensão no Brasil, mudança política na Argentina, e agora turbulências na Bolívia tende a afugentar ainda mais o capital internacional da região.

A volta do investidor externo ao mercado interno de ações é considerada condição necessária para uma valorização mais vigorosa da bolsa de valores, cuja trajetória de alta, até o momento, tem sido sustentada pelas compras de investidores pessoa física do mercado local, como diversificação e opção aos baixos juros da renda fixa.

Boa parte desses investidores novatos em bolsa seria submetida à prova de fogo da onda de turbulências, que devem varrer os mercados, e a dúvida de especialistas é se resistirão aos prováveis solavancos e acentuada volatilidade do mercado.

Apesar das dúvidas, a recomendação de especialistas é que mesmo os estreantes resistam às vendas precipitadas e permaneçam no mercado. Primeiro, para não embolsar eventuais perdas contábeis que só se materializam em prejuízos quando ocorrem vendas das ações e saída do mercado. Segundo porque, fora da bolsa de valores, não há para onde correr senão para a renda fixa, de onde muitos dos investidores migraram para as ações, justamente pelo rendimento minguado.

Por esse motivo, não se prevê uma forte pressão vendedora no mercado de ações, que, de todo modo, poderia desviar-se da trajetória gradual de valorização sustentada em período mais recente.

A Bolsa de Valores de São Paulo, a B3, fechou sexta-feira com desvalorização de 1,78%, em 107.628 pontos, após encerrar o dia anterior em 109.580 pontos. A queda na semana foi de 0,52%.

Dólar

O retorno da volatilidade ao mercado financeiro, com o aumento de incertezas econômicas e políticas, aqui e em países vizinhos, tende a dar gás ao dólar, que já vinha reagindo com altas à frustração de expectativas com o leilão do pré-sal no meio da semana.

A perspectiva, de acordo com o diretor de Câmbio da Ourominas, é que o dólar siga em trajetória de alta rumo a R$ 4,20 e passe a flertar com patamares mais elevados. Até porque há outras pressões de alta sobre o câmbio.

Tradicionalmente, nesta época do ano aumenta a procura por dólares pelas empresas que enviam lucros e dividendos, apurados em seus balanços, para suas matrizes no exterior. E a redução do ingresso de dólares trazidos pelos investidores que aplicam recursos no mercado financeiro doméstico é outro fator de alta. O interesse por aplicação em títulos de renda fixa no País e, portanto, o fluxo de capitais tende a diminuir com a redução da Selic.

Com os juros locais nas mínimas históricas – a taxa básica de juros, referência para a remuneração da renda fixa, está em 5% ao ano e pode fixar menor –, a diferença entre as taxas domésticas e externas se estreita. A perda de atratividade dada pela diferença de juros levaria o investidor a procurar opções mais rentáveis em outros mercados globais.

Uma possível retomada do fluxo de capital estrangeiro para a bolsa de valores, que poderia derrubar a cotação do dólar para níveis mais baixos pelo aumento de oferta, parece agora mais distante e não passa de uma espera que permanece no terreno da torcida.

 

 

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