"be water"

Coluna Leandro Miranda: como se moldar à nova economia após a covid-19?

Por que os fundos DI pagaram rendimento negativo

Regina Pitoscia

15 de abril de 2020 | 00h50

Alguns fundos DI surpreenderam negativamente o investidor que mantém o dinheiro ancorado nessa modalidade de aplicação que, ao lado da caderneta de poupança, é considerada a de menor risco do segmento de renda fixa. Em março, uma parte dos fundos DI rendeu bruto bastante abaixo de 0,31%, que seria a fatia mensal da Selic de 3,75% ao ano, e outra parcela, até negativamente.

Em geral, o rendimento do fundo DI fica alinhado com a Selic, porque é essa taxa básica de juro que remunera quem investe em LFT (Letra Financeira do Tesouro) ou em Tesouro Selic – dois nomes distintos para o mesmo título da dívida pública federal emitido pelo Tesouro Nacional.

A LFT, como é conhecido esse papel que os gestores compram para formar a carteira dos fundos DI, rende a Selic, o mesmo juro de referência do Tesouro Selic, nome pelo qual a LFT é ofertada para pessoas físicas para aplicações individuais pela internet na plataforma do Tesouro Direto.

Quem investe em Tesouro Selic pela internet recebe como rendimento bruto a taxa Selic. Já a rentabilidade de quem aplica em fundos DI poderá destoar da Selic, como ocorreu em março, ainda que a base da carteira desse fundo seja formada pela LFT.

O motivo é que na carteira de alguns desses fundos a LFT convive com outros títulos de crédito privado, como debêntures, com taxas de juro prefixadas que podem causar perdas em momentos de instabilidade no mercado financeiro. Com os seguidos cortes que trouxeram a Selic a mínimas históricas, gestores de fundos DI viram na colocação desses títulos em carteira a chance de turbinar a rentabilidade.

Debêntures incentivadas, indexadas a um porcentual acima do CDI, portanto acima da Selic, passaram a ocupar o espaço que podiam, obedecidos os limites legais, nas carteiras dos fundos DI.

Classificados como Renda Fixa Referenciado, de acordo com as regras definidas pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), os fundos DI devem ter em carteira pelo menos 95% de títulos atrelados à Selic e ao CDI, dos quais 80%, no mínimo,  papeis da dívida pública federal e ativos financeiros de renda fixa considerados de baixo risco de crédito. Nessa cesta cabem debêntures, títulos bancários, como CDB (Certificado de Depósito Bancário), LCI (Letra de Crédito Imobiliário), LCA (Letra de Crédito Agrícola) ou, ainda, cotas de fundos que investem nesses ativos.

Foram os fundos DI que tinham um espaço importante da carteira ocupado por títulos de crédito privados, principalmente debêntures incentivadas com isenção de imposto de renda, que tiveram as maiores perdas em março. As debêntures passaram por acentuado deságio nas negociações no mercado secundário, na esteira da escalada dos juros futuros, diante da forte onda vendedora e pouco interesse pela compra.

Fenômeno semelhante, de inusitado e raro prejuízo em fundos DI, ocorreu em 2002, durante a turbulência política que levou à primeira vitória presidencial do petista Luís Inácio da Silva. O dólar disparou, atiçado pelas incertezas político-econômicas, e os juros futuros foram às alturas, desencadeando pressão vendedora de títulos no mercado secundário.

Alta dos juros futuros em relação aos juros correntes no mercado à vista, onde são negociados secundariamente esses títulos, ou à taxa original de emissão leva à desvalorização dos papeis em circulação, incluídos os que fazem parte da carteira dos fundos de investimento, como o DI.

O investidor que sair do fundo em uma hora dessas vai embolsar um volume de recursos menor, por causa da desvalorização do título, até porque o comprador vai exigir um deságio maior ou uma taxa de rentabilidade mais elevada – a taxa sobe quando o papel se desvaloriza.

O interesse por títulos de crédito privado, com taxa mais atraente que a dos títulos públicos, faz parte da estratégia de proporcionar melhor rendimento nestes tempos de vacas magras na renda fixa, mas aumenta o risco para o investidor, como ocorreu em março – alguns fundos DI com carteira mista tiveram rendimento negativo superior a 1%.

Para evitar surpresas dessa ordem, o investidor precisa conhecer os títulos que formarão a carteira do fundo, se com estoque preponderantemente de LFT ou mesclado com outros, de emissão privada, como debêntures.

O risco é menor para quem aplica individualmente pela internet, com a compra de Tesouro Selic na plataforma do Tesouro Direto, já que a rentabilidade acompanhará a variação, para cima ou para baixo, da Selic.

Outro cuidado para quem aplica em fundos DI, lembram especialistas da área de fundos, é com a taxa de administração, um custo que pode levar boa fatia do rendimento do investidor. De acordo com esses profissionais, as perdas de março refletem não apenas a presença de títulos privados na carteira, mas também as altas taxas de administração cobradas pelos gestores, principalmente em um momento de rentabilidade no chão, com a Selic no piso histórico de 3,75% ao ano.

O mais indicado, como forma também de minimizar o risco de perdas, é escolher um fundo que não cobre nenhuma taxa.

As grandes perdas ocorreram em março, em meio ao pânico que deixou o mercado momentaneamente sem referência de taxas de juro, principalmente futuras. Passada a fase de maior turbulência, está em curso um processo de reacomodação de taxas e a perspectiva é que se alinhem gradualmente à Selic, a referência de juro à vista. A menos que um fato novo em relação à pandemia agrave as expectativas.

O mais indicado na falta de maior clareza de cenário, para especialistas, seria a escolha por um fundo DI com a carteira formada basicamente por LFT, sem títulos de crédito privado ou públicos com juros prefixados, que podem acenar com ganho mais atraente, mas sensíveis a momentos de turbulência e ao risco, portanto, de perdas com a marcação ao mercado.

 

 

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.