Quando a bolsa chegará em 100 mil pontos? E o dólar, como fica?

Regina Pitoscia

29 de abril de 2019 | 01h47

(*) Com Tom Morooka

A passagem do texto da reforma da Previdência Social na primeira comissão da Câmara, a de Constituição e Justiça (CCJ), a caminho da seguinte, a Comissão Especial, deixou os investidores mais confiantes na aprovação de mudanças nas regras de aposentadoria. Mas nem por isso a Bolsa de Valores, a B3, que fechou um pouco acima de 96 mil pontos na última sexta-feira, encontrou força suficiente para voltar a alcançar a marca dos 100 mil pontos.

O mercado parece seguir otimista, mas a expectativa é que o Ibovespa (Índice Bovespa, o principal índice da B3, que reflete o comportamento das 67 ações mais negociadas) caminhe com firmeza para a marca de 100 mil pontos apenas à medida que a proposta de reforma avançar pelo Congresso, sem sinais de grande comprometimento na economia prevista, após a esperada desidratação a que deverá ser submetida ao longo de sua tramitação.

“A bolsa de valores está a caminho dos 100 mil pontos e não deve demorar para chegar lá e, à medida que notícias positivas relacionadas à reforma forem aparecendo, buscar patamares acima desse nível”, avalia Mauriciano Cavalcante, diretor da Ourominas.

A expectativa, segundo o executivo, é que, se tudo correr bem, isso venha a acontecer aí por volta do início do segundo semestre, quando acredita que a reforma esteja avançando na Câmara e atraindo aos poucos compradores para a formação de carteira e não apenas para giro à procura de lucro rápido.

O prazo previsto para debates do texto da reforma pela Comissão Especial da Câmara é de 40 sessões. A primeira sessão está marcada para 7 de maio e, supondo-se que a ideia de promover três sessões semanais para esse fim seja seguida, a votação do texto ficaria para julho ou agosto.

Até lá, porém, a perspectiva é que o mercado de ações continue atravessando intensas turbulências, com fortes solavancos das cotações e o Ibovespa zanzando em torno de 95 mil pontos, movidos por notícias positivas ou negativas que possam influenciar a tramitação do projeto na Câmara.

Apesar da confiança e perspectivas positivas, investidores e mercado não ignoram as dificuldades para o avanço das propostas em um ambiente de acirrado embate político na Câmara e depois no Senado, com medição de forças entre os defensores e os adversários da reforma.

O comportamento da bolsa de valores nos últimos dias, quando operou em queda, deixou claro que o mercado doméstico de ações está sendo guiado também por fatos do cenário externo.  Principalmente por expectativas em relação à trajetória dos juros americanos. Uma alta das taxas de juro nos EUA costuma deprimir a bolsa, porque o capital migra para o exterior, para os papeis do Tesouro americano, e sobram menos recursos para a compra de ações aqui.

Na avaliação de analistas, a bolsa de valores deve sofrer correções para baixo, podendo atingir até a casa de 92 mil/90 mil pontos, antes de seguir rumo aos 100 mil pontos. Se isso de fato acontecer, a dica seria adiar a compra de ações, para a formação de portfólio, quando as cotações estiverem baixas e o mercado com sinais de prontidão para surfar na onda da provável aprovação da reforma.

Um tempo de espera que o investidor poderia aproveitar para avaliar setores de empresas com ações mais atraentes para a compra. Analistas têm notado recentemente uma migração de investidores de papeis de empresas de consumo e varejo para outras, como as que acenam com distribuição de bons dividendos. A atratividade das ações de companhias do segmento de consumo estaria sendo ofuscada pelas dificuldades da economia de retomar o crescimento.

Ações que continuam atraindo investidores, recomendadas por muitos especialistas, são também as de bancos, um dos segmentos mais rentáveis em uma economia que não dá sinais de reação mais vigorosa.

No mês, a B3 apresenta uma discreta valorização de 0,86%, e no ano, mesmo com todos os tropeços, uma alta de 9,49%.

Dólar em rota de queda?

Após encostar em R$ 4 por duas vezes ao longo de abril, o dólar inverteu a trajetória de alta. Para analistas, a expectativa de que a proposta de reforma da Previdência Social passa a caminhar no Congresso põe o dólar em rota de queda, em vez de tentar romper de vez o patamar de R$ 4.

“Em um primeiro momento, a tendência é que a moeda americana busque um nível de preço ao redor de R$ 3,90 e pode chegar a R$ 3,80, porque investidores e mercados estão confiantes em que a reforma vai passar”, afirma Cavalcante.

De acordo com ele, esse pode ser apenas o primeiro estágio de correção para baixo da moeda americana, que poderia começar a transitar em intervalos de preços menores à medida que ficar mais clara a perspectiva de aprovação de mudanças na Previdência, mas sem grandes perdas para a economia inicialmente prevista pelo governo com a reforma.

A projeção de um dólar com preço mais baixo é compartilhada por Felipe Pellegrini, gerente de Tesouraria do Travelex Bank, que acredita em dólar rodando no intervalo entre R$ 3,85 e R$ 3,80, se não surgirem imprevistos que alterem o andamento da reforma da Previdência no Congresso.

Pellegrini não vê riscos de que ruídos na política, alimentados pela troca de provocações entre os participantes da cúpula do governo, venham a causar instabilidade no mercado financeiro e botar pressão sobre o dólar. “Os investidores estão focados apenas na reforma previdenciária e cresce a confiança sobre sua aprovação, ainda que no segundo semestre.”