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Quando nem a renda fixa assegura o ganho no investimento

Regina Pitoscia

17 de abril de 2020 | 02h43

(*) Com Tom Morooka

Para espanto e incredulidade de muitos investidores, os fundos de renda fixa não destoaram, em prejuízo, dos investimentos em renda variável, como a bolsa de valores, no mês de março.

Para quem acredita que risco é palavra fora do vocabulário da renda fixa, em que pela suposta previsibilidade e segurança o investidor recebe no fim o que foi combinado no começo da aplicação, o vermelho que tingiu o resultado dos fundos de renda fixa revela o contrário das evidências que permeiam a crença de quem ancora recursos nesse segmento.

Pelos cálculos do administrador de Investimentos Fabio Colombo, os fundos de renda fixa acumularam, em março, uma rentabilidade negativa bruta média entre 0,30% e 0,15%, algo impensável para muitos em uma aplicação de renda fixa. As perdas em alguns fundos foram além.

O responsável foi o temor com os efeitos da pandemia do coronavírus, traduzido em dúvidas e incertezas que sacudiram os mercados de ações e de dólar, passando pelo de juros, principalmente futuros.

Em ambiente de elevada instabilidade, o investidor prefere a liquidez, ter o dinheiro à mão, seja para bancar gastos, seja para aproveitar oportunidades que enxerga em outros ativos, que considera atraentes.

Momentos assim costumam machucar em alguma medida também o desempenho do segmento de renda fixa. Desta vez, a perda maior ficou com os fundos de renda fixa. Principalmente os que investem em títulos, como as debêntures incentivadas, emitidas por empresas conceituadas e sólidas, vistas como de baixo risco e, portanto, mais líquidas, mais fáceis para negócios de compra e venda. Alvos de forte pressão vendedora, esses fundos não tiveram como fugir à rentabilidade negativa em março.

O aumento de resgates obriga que os gestores desses fundos vendam os títulos em carteira, em negócios no mercado secundário, para fazer caixa e entregar o dinheiro aos cotistas que liquidam a posição no fundo. Ocorre que em cenário de volatilidade, para não dizer de pânico, como ocorreu no mês passado, havia apenas interessados na venda para nenhum comprador para os títulos ofertados. Com bastante oferta e nenhuma demanda, os preços despencaram rapidamente como raio.

Esse amplo descompasso entre as duas pontas (oferta ampla e demanda inexistente) refletiu-se na rápida desvalorização dos papeis e, por tabela, do valor das cotas dos fundos de renda fixa, com perdas, estampadas nos extratos, até para o investidor que permanece no fundo.

Os títulos em carteira desses fundos passam diariamente por atualização, para ajustá-los ao valor corrente no mercado, em um processo conhecido por marcação a mercado. Esse ajuste é feito em papeis públicos como NTN-B (Notas do Tesouro Nacional da série B) ou Tesouro IPCA, no Tesouro Direto, e em debêntures, dentre outros, lotados em fundos de crédito ou fundos de renda fixa. O deságio é tanto maior quanto mais longo for o prazo de vencimento do título em carteira do fundo.

A recomposição do valor desses títulos aos níveis anteriores à crise, em que em alguns fundos chegaram a acumular rentabilidade superior à da Bolsa de Valores de São Paulo, a B3, vai depender do realinhamento dos juros ao desenho de novo cenário econômico, pós-crise pandêmica, que ninguém tem ideia de como e quando vai ocorrer.

Quem é cotista e decidir sair de um fundo desses levará prejuízo, de acordo com especialistas, porque o rendimento será calculado sobre o preço desvalorizado dos títulos, ao contrário do ganho robusto que teria embolsado se liquidasse sua posição antes da crise, na virada do ano.

Lembram ainda que, com o dinheiro na mão, faltam opções no mercado de investimento. A menos que decida por receber como remuneração o CDI de 3,75% ao ano, o mesmo que a Selic. É o que rende o Tesouro Selic, em aplicação pela plataforma do Tesouro Direto, ou uma NTN-B, em sua versão Tesouro IPCA no Tesouro Direto, que remunera com pouco mais.

Para especialistas e profissionais de mercado, a escolha de um investimento em um cenário nebuloso como o de momento vai depender do custo de oportunidades em um mercado de pouca ou nenhuma opção interessante, se limitada à renda fixa. Lembram que em março, por exemplo, quem ficou com o dinheiro dormitando em conta corrente deixou de ganhar algum rendimento, mas evitou perdas que atingiram os fundos de renda fixa.

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