Ranking de março: dólar no topo, bolsa na lanterna e renda fixa negativa

Regina Pitoscia

29 de março de 2019 | 01h07

Março, especialmente os últimos dias do mês, foi de certo modo um marco divisor de mudança de expectativas do mercado financeiro. Momento de transição do humor dos investidores, do otimismo a um sentimento, no mínimo, de cuidado redobrado, refletido no sobe e desce de bolsa e dólar, com a reavaliação de riscos para a economia, diante da sensação de aparente paralisia da reforma previdenciária na Câmara.

Um momento também em que os mercados passaram a reagir de forma mais intensa, positiva ou negativamente, a fatos e notícias pontuais do dia a dia, sem indicação clara de uma tendência. Como ocorreu nesta quinta-feira, quando os segmentos de ações e de dólar inverteram abruptamente a trajetória ao longo do dia.

A Bolsa de Valores de São Paulo, que levou um tombo e caiu 3,57% na véspera, compensou parcialmente essa perda, com valorização de 2,70% no dia. O dólar comercial ensaiou dar continuidade à arrancada do dia anterior, quando avançou 2,27% e embicou acima de R$ 4, mas não se sustentou à sinalização vinda de Brasília de que governo e Câmara retomaram entendimentos para pôr a reforma previdenciária em marcha.

A proposta de mudanças na aposentadoria é e continuará sendo o centro de atenções dos investidores. A eleição de Bolsonaro criou uma expectativa positiva para a agenda econômica, com a proposta de reforma da Previdência, mas as turbulências na gestão do governo, agravadas pela crise política, elevaram o nível de cautela nos mercados.

É neste clima de sentimento difuso, ao mesmo tempo de expectativas positivas e preocupações com o andamento da reforma previdenciária, que o mercado financeiro encerra março, em ambiente até de certa tensão.

O dólar comercial acumulou valorização de 4,38% no mês, até ontem, liderando a rentabilidade dos investimentos em março, e a Bolsa Valores de São Paulo, uma queda de 1,25%, na última posição do ranking.

Tornando evidente o receio com a mobilização e capacidade do governo de passar a reforma previdenciária no Congresso, investidores na bolsa de valores estão ajustando para baixo os preços das ações, até então infladas pelo otimismo com as diretrizes econômicas do novo governo. Um movimento que em geral combina com outro, o de aproveitar a oportunidade criada por momentos de baixa para operações rápidas de recompra de ações.

O mesmo motivo que encoraja vendas de ações e deprime as cotações estimula a valorização do dólar, pelo aumento de procura por um mercado considerado refúgio e proteção diante de um cenário de incertezas, derivado de uma sucessão de eventos na área política que poderiam prejudicar o andamento da reforma e da economia.

Faz sentido a preocupação dos investidores e a reação negativa dos mercados à percepção das dificuldades para que a proposta siga adiante no Congresso. Sua aprovação é vista como condição necessária para que o País retome o crescimento e evite um aumento descontrolado dos gastos públicos, colocando em risco a capacidade de pagamento da dívida pública pelo Tesouro. Os detentores dos títulos da dívida do governo são os investidores, agentes financeiros e econômicos em geral.

Diante das incertezas provocadas pelos desencontros e ruídos políticos em Brasília, os investidores na bolsa que vinham surfando na onda altista – o Ibovespa (Índice Bovespa, principal índice da Bolsa de Valores de São Paulo) embicou acima de 100 mil pontos no dia 18 de março – não têm hesitado em vender as ações valorizadas para colocar o lucro no bolso. Especialistas acreditam que parte desses recursos, de investidores que não querem baixar a guarda, esteja migrando para o dólar em busca de proteção nos momentos de maior estresse.

Enquanto as turbulências sacudiam os mercados de ações e de dólar, o segmento de renda fixa seguiu a mesma toada, de rendimento baixo, dos últimos meses, desde que a taxa básica de juros, a Selic, foi acomodada pelo Banco Central em 6,50% ao ano há quase um ano

O dado negativo é o que aponta para uma aceleração da inflação em março que pode ter atropelado o ganho real de aplicações tradicionais como a caderneta e os fundos de investimento, de renda fixa e DI. O IPCA-15 (Índice de Preços ao Consumidor Amplo-15), considerado uma prévia de inflação, calculado pelo IBGE em março, ficou em 0,54%.

Uma inflação oficial em torno desse patamar tingiria de vermelho o rendimento das aplicações de renda fixa, que, com rentabilidade líquida média em torno de 0,40% (a caderneta rende 0,37% ao mês), ficariam devendo ganho real ou garantia de poder aquisitivo ao aplicador.

 

 

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