Reforma da Previdência novamente no centro das atenções do mercado

Regina Pitoscia

10 de junho de 2019 | 00h05

(*) Com Tom Morooka

Após um clima de certo banho-maria, existem motivos para que o debate em torno da reforma da Previdência Social no Congresso retorne com mais interesse e destaque ao centro das atenções do mercado financeiro.

A temporada de votação de medidas provisórias mais importantes pelos deputados parece ter ficado para trás, o que, por si só, puxa para o primeiro plano das expectativas dos investidores o debate sobre as propostas de mudança nas regras de aposentadoria.

O processo de tramitação do projeto, que caminha gradualmente para a reta final na Câmara, esquenta de vez, com a apreciação de emendas que serão incorporadas ao relatório que posteriormente será submetido à votação pelo plenário. Para muitos, é a etapa em que será travado grande embate entre a ala de deputados que apoiam e defendem a reforma e os parlamentares que resistem a mudanças nas aposentadorias.

Outro conflito político atualmente em curso, que pode repercutir também no mercado financeiro, é o existente entre defensores da inclusão dos regimes previdenciários dos Estados na proposta geral de reforma em discussão no Congresso e os que defendem a ideia de que eventuais mudanças nas regras de aposentadoria estadual e municipal seriam de alçada de decisão das assembleias legislativas de cada Estado.

A avaliação de especialistas e economistas é que sem a participação de Estados a reforma previdenciária viraria meia-sola, capenga, que, além de encolher a economia prevista com as alterações, manteria os déficits previdenciários estaduais como estão, criando rombos cada vez maiores.

É nesse cenário com pano de fundo que carrega ainda muitas incertezas que o mercado financeiro deve mover-se e os investidores tomar suas decisões. Um ambiente de negócios de muita cautela, expressa no vaivém dos vários segmentos de mercado na primeira semana de junho, sem definição de nenhuma tendência.

Entre idas e vindas, oscilando em estreito intervalo, o Índice Bovespa (Ibovespa, principal indicador do comportamento das ações na B3) acumula discreta valorização de 0,82% em junho, até a última sexta-feira.

Em outro segmento representativo da renda variável, o dólar comercial acumula desvalorização de 1,17% no mês. A moeda americana fechou a sexta-feira cotada por R$ 3,88, sem que os especialistas apostem em uma reação dos preços, por enquanto.

Parte dessa fraqueza dos mercados é atribuída ao cenário externo, onde a atenção dos investidores se divide em duas frentes. A primeira continua sendo a interminável disputa comercial entre Estados Unidos e China, sem grandes novidades nas negociações que indiquem avanço ou retrocesso em busca de um acordo entre as duas principais economias do mundo.

Outra são as novas preocupações com os sinais de desaceleração das principais economias desenvolvidas, algo que sempre alimenta a expectativa de adoção de novos estímulos fiscais ou monetários, como a redução dos juros, para tentar dar fôlego à atividade que está empacada e corre o risco de andar para trás.

Estímulos como a redução de juros e ampliação de oferta de moeda para tentar aquecer a economia nos países centrais costumam repercutir positivamente em mercados emergentes, como o brasileiro.

Segundo especialistas, a perspectiva existe, mas os investidores tendem a se manter cautelosos e sem baixar a guarda por aqui, sem grandes iniciativas ou decisões de investimento, enquanto o cenário político e econômico doméstico permanecer indefinido.

A semana que começa, que antecede à da reunião do Copom (Comitê de Política Monetária), do Banco Central, que vai deliberar sobre a taxa Selic deve reavivar e esquentar as apostas sobre possível redução da taxa básica, de 6,50% ao ano. Especialmente depois da forte desaceleração da inflação em maio e da sinalização de que ela poderá tornar-se negativa, processo conhecido como deflação, no mês corrente.

Marcha à ré da inflação

Uma inflação mais baixa já era esperada para maio, mas a evolução de 0,13% ainda surpreendeu. Esse resultado, bastante abaixo do IPCA de 0,57% medido em abril, aponta para novas surpresas positivas para a inflação de junho, consequência de uma série de combinações favoráveis a um comportamento positivo dos preços.

Existe previsão até de que a inflação passe por uma inversão de trajetória e se torne uma deflação, caracterizada pela variação negativa de preços, graças à combinação inesperada de volta da bandeira verde na conta de energia elétrica (que permanecerá sem reajuste adicional neste mês), redução dos preços de combustíveis e queda dos preços de alimentos.

São fatores que projetam um cenário positivo para os preços em junho e para os próximos meses, porque têm forte participação na inflação. A energia elétrica não terá custo adicional para o consumidor, como se previa, porque o volume de chuvas tem superado as expectativas e garantido o nível dos reservatórios para a geração de energia em junho, um mês tipicamente de seca.

O combustível ficou mais barato pela queda das cotações do petróleo no exterior e desvalorização do dólar, dois componentes que influenciam a formação dos preços da gasolina e do óleo diesel. E o custo dos alimentos também passou por redução, como consequência de melhor distribuição de chuva, em geral mais escassa nesta época do ano, sobre áreas plantadas.

 

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