Risco de inflação mais alta na renda fixa, e instabilidade na renda variável

Regina Pitoscia

08 de abril de 2019 | 00h54

Nesta quarta-feira, o IBGE deve divulgar a inflação oficial de março, e a expectativa é a de que ela venha a superar os 0,54%, apontados pelo IPCA-15, que é um prévia da inflação do mês cheio. Esse índice mediu a variação média de preços entre 14 de fevereiro e 15 de março.

O destaque foi a forte elevação dos preços de alimentos consumidos em casa, que tiveram a oferta afetada pela quebra de produção devido ao clima desfavorável – chuva e calor intensos nos primeiros meses do ano. Itens importantes nas mesas das famílias lideraram as altas, como o feijão-carioca, que subiu em média 41,44%, a batata-inglesa, 25,59%, e o tomate, 16,73%.

As previsões do mercado financeiro para a inflação de março indicam para algo entre 0,58% e 0,60%. Caso se confirmem, fica claro que o investidor em renda fixa terá recebido rendimento negativo em suas aplicações no mês passado: enquanto a caderneta proporcionou uma remuneração de 0,37%, fundos e papeis de renda fixa pagaram algo entre 0,40% e 0,50%, mas antes do desconto do imposto de renda. Em outras palavras, o dinheiro aplicado no porto seguro da renda fixa não terá recebido a recomposição nos mesmos níveis da inflação.

Embora a aceleração da inflação seja vista como pontual, por refletir o encarecimento temporário de alguns produtos afetados pelo choque de oferta, a perspectiva é a de que a alta continue sendo diluída nos próximos meses, quando os preços voltariam ao canal anterior, mais comportados. Isso permite dizer que há novos riscos de perdas na renda fixa também em abril.

Mas o investidor não tem muito para onde correr, já que a renda variável, como ações e dólar, tem se mostrado e deve seguir um caldeirão de instabilidade com os embates políticos.

Debate esquenta

O debate sobre mudanças nas regras da Previdência Social deve esquentar cada vez mais à medida que se aproxima o dia 17, data prevista para a votação do relatório da reforma na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara. Para que seja aprovado e siga para a tramitação no plenário, o relatório precisa do sim de 34 deputados.

A votação na CCJ, para que ocorra a chamada admissibilidade, é a porta de entrada do projeto para que possa seguir adiante na Câmara. Um resultado positivo reforçaria, para investidores e mercado financeiro, a perspectiva de aprovação das propostas para reformulação na Previdência.

Até sua aprovação, contudo, o projeto de reforma da aposentadoria deve atravessar uma trajetória de dificuldades, como ficou claro na tensa reunião da CCJ na Câmara, na última quarta-feira, de que participou o ministro da Economia, Paulo Guedes, para explicar o projeto aos parlamentares.

O evento, permeado por bate-bocas e desentendimentos entre o ministro e alguns deputados, provocou estresse nos mercados e deixou os investidores preocupados, em um primeiro momento. O clima de tensão foi distendido e os ânimos dos investidores serenados com a iniciativa do presidente Bolsonaro de dialogar com alguns partidos políticos em busca de apoio para a aprovação da reforma.

O comportamento dos mercados de ações e de dólar, com alternância de altas e baixas na semana que passou, traduziu com fidelidade esse ambiente de instabilidade. A Bolsa de Valores de São Paulo começou a semana hesitante, em reação a incertezas em relação à reforma, e chegou à sexta-feira mais otimista e confiante, depois que o presidente Bolsonaro se engajou no esforço de sua aprovação. O Índice Bovespa fechou a semana com valorização de 1,78%, que corresponde também ao resultado acumulado no mês.

Essas mesmas razões levaram os preços do dólar a cair. A moeda norte-americana ficou cotada no fechamento dos negócios da sexta-feira em R$ 3,87, o que representa uma queda de 1,07% na semana e no mês.

Esse tem sido e deve continuar sendo o tom dos mercados, sem definição de uma trajetória clara, enquanto a reforma estiver em tramitação no Congresso. Principalmente, porque o processo, que está em sua fase inicial, deverá ainda enfrentar percalços e resistências pelo caminho.