Riscos e oportunidades nas aplicações em criptomoedas (I)

Regina Pitoscia

07 Novembro 2018 | 00h47

Nenhum aplicador que tem recursos ancorados em aplicações mais conservadoras e tradicionais, como caderneta, títulos e fundos de renda fixa, ou em renda variável, como fundos multimercados, ações e dólar, deve abandonar suas posições para investir nas chamadas criptomoedas, como o Bitcoin, atraídos pelos bons resultados desse segmento.

A tentação é grande. Dependendo da modalidade de aplicação, esses ganhos giram em torno de 40% neste ano até novembro. Evidentemente que resultados diferenciados como esse são obtidos à custa de risco maior comparado com o que se corre, por exemplo, para obter retorno entre 3% e 4%, sem sair do conforto, na renda fixa, em igual período.

Nem tanto ao céu nem tanto à terra. A proposta é pensar nessas criptomoedas como opção para diversificar a carteira de investimentos e tentar beliscar essa remuneração mais gorda com apenas uma parcela do dinheiro. Uma estratégia criteriosa que não venha comprometer a estabilidade financeira em caso de perdas.

Todo cuidado é pouco porque o risco de que isso venha a ocorrer é real, tamanho os solavancos das cotações. É preciso ter sangue-frio para suportar os movimentos de sobe e desce que lembram o de uma montanha-russa. Mas vale a pena conhecer o funcionamento desse mercado.

Diego Velasques, presidente da Juno-Capital, uma gestora patrimonial em criptomoedas, conta que em 2017 um Bitcoin chegou a valer aproximadamente 20 mil dólares (R$ 77 mil). No início deste ano seu valor já tinha escorregado para algo próximo de 13.300 dólares (R$ 43 mil) – ontem valia 6.420 dólares (cerca de R$ 24 mil). Portanto, só neste ano a desvalorização está em 52%.

Evidentemente quem comprou a moeda e ficou com ela por esse período amargou fortes perdas. Mas adquirir e permanecer com ela em sua carteira não é a única opção para aplicar em criptomoedas. É possível obter ganhos com a variação de preços: comprar quando a cotação cai e vender nos movimentos de alta. É esse tipo de operação, feita por especialistas no assunto, que vem proporcionado retornos interessantes ao aplicador.

A Juno-Capital aceita aplicações a partir de R$ 10 mil em uma cesta de criptomoedas, um produto batizado de Juno-Rapt. A rentabilidade acumulada por ele, que reflete as operações feitas com essas moedas, estava em 46,52% desde janeiro até ontem, dia 6 de novembro. Pela corretora E-juno com R$ 5,00 é possível comprar uma fração de Bitcoin ou de outra criptomoeda. “Fixamos um valor bem baixo para aplicação inicial como fator didático, justamente para o investidor ir conhecendo e se acostumando com esse mercado”, explica Velasques.

Pelas análises gráficas do comportamento da moeda, o executivo espera por oscilações mais bruscas a partir deste mês. Ele explica que há algum tempo os preços estão zanzando no mesmo patamar à espera de algum fator, de alta ou de baixa, que venha a desencadear uma reação mais forte das cotações para cima ou para baixo. Independentemente das oscilações, na opinião de Velasques, é inegável o avanço desse mercado, por isso ele é indicado para quem acredita nas transformações tecnológicas e aposta nessas moedas como meio de pagamento no futuro.

Assim como a Juno, há várias instituições financeiras estruturando aplicações com base na variação de preços das criptomoedas. O Grupo Bitcoin Banco tem sede em Curitiba e acaba de abrir sua agência física em São Paulo. A empresa aposta no contato pessoal para a conquista do cliente, esclarece o diretor comercial, Jaime Schier, e em produtos diferenciados para o público.

O banco oferece aplicações em Bitcoin com compensações para o investidor que permanecer por um período maior com a moeda, por 90, 180 dias ou um ano. A partir de 90 dias há uma compensação equivalente a 3% do valor depositado. Por 180 dias a compensação será de 6% e assim sucessivamente.

Em outra modalidade, o aplicador poderá optar por usar 50% dos recursos empregados nas moedas para operar com a compra e venda de Bitcoin. É uma forma de permitir que o investidor conheça e opere nesse mercado. Se com as operações houver ganhos, será possível resgatá-los de imediato, antes do prazo final da aplicação, seja ele de 90 ou 180 dias ou 1 ano. No entanto, se houver perdas, o aplicador terá de fazer um depósito extra para recompor a aplicação em seu valor inicial.

O Banco oferece um terceiro tipo de produto que recebeu o nome de “Le rêve” (o sonho, em francês). Nele, o aplicador especifica algum bem que tem a intenção de comprar, algo que seja equivalente a 10% do valor de seu depósito em Bitcoin, feito por um período de um ano. No prazo de um mês a instituição providencia a compra e a entrega desse bem, sendo que o acerto será feito somente no resgate da aplicação. Trata-se, na prática, de uma antecipação de recursos, para que o investidor receba o brinde que necessita ou deseja, de imediato, sem a necessidade de se descapitalizar com a compra do bem em questão.

Não é exigido valor mínimo para a compra de moeda no Bitcoin Banco, uma facilidade para que os investidores possam se familiarizar com esse tipo de aplicação, identificando o seu grau de apetite ao risco, esclarece o diretor. Também no Bitcoin Banco, a rentabilidade líquida dos produtos está em torno de 40% nos últimos 12 meses.

Cabe lembrar que, também nesse segmento, resultados passados não servem como garantia de que eles se repitam daqui para frente. Por isso, o rendimento não deve ser o único fator a ser considerado. O ideal é ir entrando aos poucos para entender e sentir o mercado e se conscientizar de seus riscos para depois destinar uma parcela mais expressiva do patrimônio.

Os ganhos com criptomoedas são tributados pelo Imposto de Renda, por uma alíquota de 15% sobre o que exceder R$ 35 mil. O recolhimento deve ser feito pelo Carnê-Leão até o último dia útil do mês seguinte ao que foi obtido o rendimento e ser lançado também na declaração anual.