Sabe o que é blockchain? É bom saber, porque ele vai mudar sua vida

Regina Pitoscia

21 Maio 2018 | 01h19

Quer queira, quer não, a revolução no mundo dos negócios vem sendo ditada pelo avanço da tecnologia. Uma delas que está na crista da onda, a blockchain, promete transformar as operações nos mais diferentes setores da economia, com efeitos práticos e concretos não só nas corporações, nos governos, mas também na vida de comunidades ou de qualquer pessoa.

Na semana passada, o tema mereceu atenção especial e foi abordado por especialistas das mais diversas áreas na 3ª edição do Fórum Blockchain, em São Paulo. A tecnologia, já usada por algumas empresas, ainda engatinha por aqui, mas tem potencial para simplificar, agilizar, desintermediar e baratear transações tanto no setor financeiro, como no agrícola, de saúde e por aí vai. Sua aplicação não tem limite.

O diretor de Tecnologia da consultoria Sempre IT, Thiago Azevedo, um dos palestrantes do seminário, explica que os blockchains podem ser usados ​​para gravar promessas, negociações, transações ou simplesmente itens que desejamos preservar. “Dentro de uma rede, o blockchain permite que os participantes mantenham uma cópia do sistema comum de registro. Nada pode ser apagado ou editado”.

Operações com moedas

O termo blockchain começou a se tornar mais popular em função das negociações com criptomoedas, notadamente a Bitcoin. É por meio desse sistema que são realizadas as operações com as criptomoedas, incluindo o registro de todos os dados, como a criação de cada Bitcoin, quem é seu dono, quem vendeu, quem comprou, essa troca, mas nada de nomes, apenas códigos.

A negociação de moedas é apenas uma das utilizações do blockchain. Azevedo ressalta que há distinções. Nem todas as operações que se utilizam do blockchain exigem criptomoedas para funcionar. Além disso, as transações com essas moedas são feitas “em redes completamente sem confiança e cadeias sem permissão. Por isso, crescem os debates sobre os papeis que essas plataformas devem desempenhar na sociedade e quem deve governá-las”.

Já a maioria dos aplicativos blockchain corporativos, esclarece o diretor, depende de relações de confiança entre os participantes. Eles se conhecem e têm como objetivo compartilhar dados com o maior grau de segurança possível. Para ele, o aspecto de segurança aliado ao de agilidade e maior transparência explicam em boa parte o crescente interesse do setor financeiro pelas tecnologias de blockchain.

Segurança

Os registros dentro de uma tecnologia blockchain são imutáveis, porque precisam ver validados por vários supercomputadores, em bloco, uma operação vinculada à outra, e por meio de códigos. Modelo que elimina a possibilidade de ataques de hackers ao mesmo tempo que proporciona veracidade e perenidade às informações contidas nos registros.

O tema é tratado também em ambiente acadêmico. A coordenadora de cursos de Big Data da Fundação e Instituto de Administração (FIA) da USP, Alessandra Montini, explica que os diferencias que tornam a tecnologia mais segura estão na combinação da criptografia (códigos) com o sistema de fechamento e validação das operações uma a uma e, em seguida, em bloco, um atrelado ao outro. Segundo ela, a blockchain tem se mostrado inviolável, mas como toda tecnologia nova precisa ainda amadurecer em relação a eventuais travas de softers.

No dia a dia

De efeito imediato, que o uso do blockchain pode trazer na vida de qualquer consumidor, basta imaginar uma simples transferência de dinheiro. Hoje ela é feita por meio de TED ou DOC, a custos que vão de R$ 8,65 a 18,70, dependendo do canal usado e do banco em questão. Com o uso do blockchain, a operação pode vir a custar centavos e ainda assim enfrentará a concorrência de serviços de pagamento a custo zero já existentes hoje.

Em uma transferência internacional, além dos custos, o processo envolve vários estágios com banco local e banco central do país de quem emite o dinheiro e depois banco central e banco local de quem recebe esse dinheiro. A vantagem não é apenas na redução de despesas com o banco, mas na simplificação e agilidade de todo o processo. “É porque o blockchain elimina fases, estágios, intermediários e reduz os custos para que o dinheiro chegue ao seu destino”, ressalta Montini.

Para outro participante do Fórum, Keiji Sakai, diretor da R3, empresa responsável pelo desenvolvimento de projeto que une Bradesco, Itaú e a Bolsa de Valores, a B3, no compartilhamento de dados de clientes pelo sistema blockchain, “os bancos terão de rever seus modelos de negócios”. Não só para atender às novas demandas dos clientes, mas para a redução dos próprios custos. Segundo o diretor, dentro de uma despesa estimada em tecnologia, em nível global, de US$ 215 bilhões, é possível conseguir uma redução de US$ 35 bilhões com o uso do blockchain.

Mas além do setor financeiro, o sistema pode facilitar a vida de qualquer pessoa que precisa, por exemplo, de serviços de cartório para autenticar documentos ou reconhecer assinaturas. Quando os dados estiverem dentro do blockchain não haverá mais necessidade de validação de um cartório em qualquer operação, com eliminação de custos, de tempo, de burocracia.

Gustavo Cunha, sócio-diretor da Finlab, empresa de planejamento financeiro, lembrou que já há uma empresa operando no País, a Originalmy, que armazena os dados em blockchain, e oferece serviços de prova legal de identidade e assinatura, a custos irrisórios. Vários serviços como esse devem surgir a partir dessa tecnologia.

Cunha ressalta a importância da tecnologia no setor de saúde. Ter dados como tipo de sanguíneo, cirurgias realizadas, medicamentos a que tem alergias, enfim seu histórico médico, registros no sistema vai permitir que o paciente seja tendido em qualquer canto do mundo com muita precisão e segurança.

Cases apresentados no Fórum mostraram a versatilidade da tecnologia. O BNDES começa a usar blockchain para dar mais transparência aos projetos financiados pelo banco, incluindo dados não apenas dos clientes como também de seus fornecedores, em toda a cadeia de operação.

Ao mesmo tempo, um projeto de inclusão social desenvolvido pela prefeitura de Santa Cruz da Esperança, no interior de São Paulo, terá a administração inserida em blockchain. Esse projeto tem como objetivo a motivação dos moradores para ações de recicláveis, e consiste na compra e venda de materiais, com o uso de moeda própria, a “Moeda Verde, que é aceita no comércio local. Todas as transações terão agora registro dentro da nova tecnologia, incrementando as ações que alcançam também a criançada nas escolas, e têm gerado resultados promissores não apenas no aspecto financeiro, mas ambiental e da saúde. Houve redução de volume nos aterros sanitários e de criadouros de mosquitos que transmitem doenças.

Como se vê, vamos ainda ouvir falar muito sobre blockchain nesse mundo de rápidas transformações tecnológicas.