Sem novidades aqui, mercado olha para queda dos juros lá fora

Regina Pitoscia

22 de julho de 2019 | 00h26

Neste período de recesso parlamentar e sem novidades por aqui, o mercado financeiro está apenas marcando o passo e tem as expectativas divididas entre a retomada da votação da reforma previdenciária, em agosto, e as medidas econômicas que o governo deve anunciar para tentar destravar a economia. Os movimentos têm sido mais para ajustes e balizados pelas expectativas com o cenário externo, onde se fortalece, de acordo com os analistas, a perspectiva de redução das taxas de juro, como parte dos estímulos para reanimar a economia dos países desenvolvidos.

O avanço da reforma previdenciária aqui é visto como importante sinalização de que o País retomou a trilha da solvência, deixando de lado o risco de quebra, uma percepção que poderia voltar a atrair o capital estrangeiro para investimentos produtivos, animando a economia real, e financeiros, como a compra de ações na bolsa de valores.

Medidas de estímulo ao crescimento também podem indicar pistas sobre os rumos da economia no curto prazo e segmentos com perspectivas mais favoráveis para quem investe em bolsa de valores. A expectativa de liberação do Fundo de Garantia de Tempo de Serviço (FGTS) para saque dos trabalhadores já anima o setor de comércio varejista, que torce para que os recursos liberados do fundo sejam carreados para o consumo.

Este também seria o objetivo do governo com a medida, embora economistas vejam outros destinos, provavelmente até mais prioritários, como o pagamento de dívida. Ou até uma aplicação financeira, para quem não está com dinheiro carimbado, em opção mais rentável que o baixo rendimento de 3% que o dinheiro do fundo rende por ano.

Enquanto aguarda também divulgação das regras de liberação dos recursos do FGTS, prevista para os próximos dias, o mercado financeiro segue trabalhando em ambiente morno, atento às possíveis novidades mais relevantes sobre a reforma previdenciária.

“A diminuição de notícias vindas de Brasília, com o recesso parlamentar, pôs o mercado em compasso de espera, com foco no exterior e também no rumo dos juros, lá fora e aqui”, afirma Felipe Silveira, analista de Investimentos da Coinvalores.

O possível corte dos juros no exterior animaria por tabela os mercados domésticos de ações e dólar porque poderia atrair mais capital estrangeiro para aplicação no País. Um fluxo que tenderia a estimular a valorização da bolsa de valores e deprimir as cotações do dólar, pelo aumento de oferta de moeda americana vinda do exterior.

Uma redução dos juros nos principais países desenvolvidos, onde a rentabilidade já beira zero e pode ser até negativa, encorajaria investidores estrangeiros a migrar para o mercado doméstico, sobretudo para a compra de ações, agora que a reforma previdenciária está bem encaminhada no Congresso e a tributária poderia seguir igual caminho.

Por essas e por outras, a expectativa continua favorável para a bolsa de valores, avalia Silveira, para quem o principal risco para os mercados no curto prazo é externo, os ruídos provocados pelo embate comercial entre EUA e China.

Para o analista da Coinvalores, embora a perspectiva seja positiva, a trajetória da bolsa de valores dependerá em boa medida dos sinais de melhora nos resultados dos dados de empresas que indiquem o início de recuperação da atividade econômica.

O gerente de Tesouraria do Travelex Bank, Felipe Pellegrini, também projeta um cenário positivo para os mercados neste segundo semestre, com o avanço de reformas previdenciária e tributária no Congresso, eventos que, além de animar o mercado de ações, poderiam trazer a cotação do dólar para patamares ainda mais baixos.

Os mercados passam por correções, com os investidores ocupados em promover ajustes, à luz de uma perspectiva em que não falta confiança sobre a aprovação da reforma previdenciária no Congresso. A votação em segundo turno na Câmara está prevista para 6 de agosto e em seguida o projeto segue para o Senado, também para votação em duas rodadas.

A paradinha no mercado financeiro é vista pelos especialistas como uma oportunidade para que investidores avaliem a diversificação de suas posições, em busca de rentabilidade mais atraente que a da renda fixa, em um momento que ganha força a defesa de parte dos economistas e analistas sobre a necessidade de corte da taxa básica de juros, a Selic.

O debate deve esquentar nesta semana, que antecede à da reunião do Copom (Comitê de Política Monetária) marcada para os dias 30 e 31 de julho. Um dos que acreditam na redução da Selic, Silveira diz que uma reação positiva dos mercados ao provável corte deve ser menor que a negativa em caso de eventual manutenção da taxa em 6,50% ao ano.

A Bolsa de Valores de São Paulo, a B3, fechou o pregão de sexta-feira com baixa de 1,21%, em 103.451,93 pontos, acumulando queda de 0,44% na semana. A valorização acumulada no ano está em 17,71%.

O dólar foi cotado por R$ 3,75 no fechamento de sexta, com valorização de 0,16% na semana. No ano, a moeda americana acumula desvalorização de 3,35%, até o momento.

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