Semana curta para um mercado de mau humor

Regina Pitoscia

15 de abril de 2019 | 00h41

O mercado financeiro avança pela terceira semana de abril às voltas com nova onda de instabilidade. A trégua nos embates entre governo e Congresso para a votação da reforma da Previdência Social e, por consequência, o clima de relativa calmaria nos mercados duraram pouco.

Os investidores reagiram negativamente às manobras de grupos de parlamentares, vistas como falta de articulação política do governo, para que a votação do relatório da reforma da Previdência Social na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), da Câmara, prevista para o dia 17, fosse transferida para outra data. Adiamento que poderia atrasar todo o cronograma de debates e votação das propostas de mudanças na aposentadoria no plenário da Câmara.

Pior que isso, desta vez esses sinais de desentendimento nas articulações políticas entre Executivo e Legislativo, que aumentam as preocupações com a aprovação das propostas nas mudanças na aposentadoria, vieram acompanhados por um ruído maior e mais estrondoso, provocado por uma iniciativa do presidente Jair Bolsonaro que desagradou em cheio aos investidores e ao mercado financeiro em geral.

Foi a decisão do presidente de suspender o reajuste do óleo diesel nas refinarias, definido na última quinta-feira pela Petrobrás. Uma iniciativa que, na memória de investidores, faz relembrar as intervenções da ex-presidente Dilma Rousseff, que, combinadas com a má gestão petita, arruinou as finanças da estatal de petróleo. As ações da Petrobrás despencaram em fortes quedas na sexta-feira.

A decisão pegou mal e o mercado de ações e de dólar reagiram. A Bolsa de Valores de São Paulo ou B3 recuou 1,98% na sexta-feira, puxada pelo tombo das ações de Petrobrás, e acumulou desvalorização de 4,36% na semana. A queda no mês, até agora, está em 2,66%.

Em trajetória oposta, o dólar avançou 0,83% na sexta-feira, após subir 0,86% na quinta, e encerrou a semana com valorização de 0,41%. No balanço do mês, a moeda americana acumula queda de 0,66%.

Em ambiente de mau humor doméstico, o dia só não foi pior para os mercados de ações e de dólar, principalmente, no fechamento da semana por causa de expectativas positivas com o cenário externo, que serviram para amortecer o impacto desfavorável dos mercados locais.

A perspectiva, é que o sentimento de cautela e preocupação continue respingando sobre os negócios na retomada dos negócios do mercado nesta próxima semana, de quatro dias úteis e possivelmente de movimentação política esvaziada em Brasília, por causa das celebrações de Semana Santa.

A decisão de suspender o reajuste do diesel deve ter desdobramentos e mais ruído nos mercados, porque, teria sido adotada pelo temor de nova greve dos caminhoneiros. A solução para a tabela de fretes para o setor, que expirou no fim de dezembro, é vista como um dos grandes desafios do governo, que tem pela frente ainda a definição da regra de reajuste do salário mínimo, outro ponto que atrai muita atenção dos investidores, pelo impacto fiscal que provoca nas contas públicas.

Ainda assim, os investidores não devem baixar a guarda, redobrando a cautela e reagindo a fatos pontuais e notícias relacionadas à reforma previdenciária. Nesse clima de desconforto, não estão previstas fortes alterações na trajetória da bolsa de valores, embora a intervenção na política de preços da Petrobrás, uma das principais empresas com ações negociadas na bolsa de valores, possa causar algum estremecimento na lua de mel do governo com o mercado.

As incertezas político-econômicas que levam à queda do mercado de ações pode dar fôlego ao dólar, considerado refúgio e proteção para o dinheiro em momento de insegurança para os investidores mais ressabiados e ariscos diante de supostas crises.

Um dos fatores que podem servir de freio a uma possível maior mobilidade da moeda americana é a melhora do cenário externo para as condições de países como o Brasil. O risco de uma elevação dos juros nos países mais desenvolvidos, incluídos os Estados Unidos, parece afastada, diante a apatia do crescimento dessas economias.

O raciocínio é que um crescimento menor nesses países, que seria desfavorável aos mercados, poderia ser compensado pela política de manutenção de juros baixos e até mesmo negativos, como ocorre no Japão, em uma tentativa para estimular a retomada do crescimento.

Com um cenário internacional menos preocupante do ponto de vista de atração de capitais, por causa da possível estabilidade dos juros externos, investidores e mercado financeiro domésticos devem acompanhar e reagir mais atenta e prontamente a novidades e fatos relacionados à reforma previdenciária.