Tensão política na reta final das eleições exige mais cautela do investidor

Regina Pitoscia

22 de outubro de 2018 | 00h21

(*) Com Tom Morooka

A semana que começa é a última antes do segundo turno da eleição presidencial que definirá o nome de quem governará o País a partir de 1º de janeiro. Uma semana em que os dois candidatos concorrentes – Jair Bolsonaro, do PSL, e Fernando Haddad, do PT – deverão queimar os últimos cartuchos da corrida eleitoral para tentar chegar lá e colocar a faixa presidencial na virada do ano.

O candidato Jair Bolsonaro tentará ampliar a vantagem que tem sobre o petista e consolidar sua condição de favorito, enquanto Fernando Haddad tentará reduzir a desvantagem em relação ao presidenciável do PSL e chegar ao segundo turno ainda com alguma chance de vitória.

A expectativa é de que o acirramento da disputa eleitoral nesta reta final aumente a tensão política e o clima de instabilidade no mercado financeiro. Ainda que os investidores estejam convencidos da vitória de Bolsonaro, dada a ampla diferença que mantém à frente de Haddad, apontada pelos dados de todas as pesquisas eleitorais.

É nesse ambiente de aposta na eleição do candidato considerado mais comprometido com a agenda de reformas econômicas defendidas pelos investidores que o mercado financeiro tem tocado seus negócios. Animada, a Bolsa de Valores de São Paulo tem colecionado vistosas valorizações e o dólar amargado pesadas baixas.

A previsão de especialistas é que esse tom otimista com o possível novo governo por Bolsonaro pode manter o mercado de ações em trajetória de alta nos próximos meses e o dólar em queda, em um clima que analistas consideram como período de lua-de-mel entre o provável presidente vitorioso e o mercado financeiro.

Uma convivência amistosa que, de todo modo, não estaria longe de possíveis abalos. Eventuais ruídos, com reflexos negativos nos mercados, poderiam ocorrer nesse período, seja como reação a alguma proposta econômica ou a indicação de algum nome para a equipe econômica pelo presidente eleito que venha a desagradar aos investidores.

Com efeito, já criaram mal-estar e o humor do mercado financeiro azedou na última quinta-feira – tendo como reflexo a forte queda da bolsa de valores e a firme alta do dólar – as dúvidas sobre a permanência ou não de Ilan Goldfajn como piloto do Banco Central (BC) no novo governo.

O atual presidente do BC é respeitado pelo mercado financeiro porque quebrou a espiral de alta da inflação em 2016 e em sua esteira derrubou a taxa básica de juros, a Selic, para o nível mais baixo da história – a inflação oficial, medida pelo IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), recuou de 10,67%, em 2015, para 2,94%, em 2017 e está estimada em torno da meta central de 4,50% para este ano.

Turbulências como esta, associadas à possível saída de Ilan do BC, e outras não serão novidades nesta fase de transição de governo e pelo menos até a posse do presidente eleito, mas de forma geral os investidores apostam na manutenção do bom humor nos mercados que tenderia a favorecer o investimento em ações.

Nicolas Takeo, analista da Corretora Socopa, estima que a bolsa de valores tem espaço para novas altas, porque, apesar da recente onda de valorização, as ações estão baratas, no cenário econômico otimista projetado pelo mercado com a posse de novo governo.

A bolsa de valores poderia subir até com mais vigor, “mas é preciso saber quais serão as medidas das reformas econômicas a ser propostas pelo novo presidente”.

De acordo com o analista da Socopa, no nível em que está a bolsa de valores estaria refletindo uma possibilidade de vitória de 80% a 85% de um candidato de uma chapa da direita.

Nesse cenário que favoreceria o mercado de ações Takeo vê atratividade em ações de empresas do varejo, de forma geral, ligadas ao setor de consumo. Empresas com bons fundamentos também seriam beneficiadas pela recuperação da economia. Pão de Açúcar (supermercado) e Ambev (bebidas) estariam entre as atraentes.

Os fatores domésticos, ligados à disputa presidencial e às expectativas com os nomes de possíveis indicações para a equipe econômica e as propostas de reformas, são importantes, mas o investidor não deve esquecer da influência do cenário externo sobre a bolsa de valores, lembra o analista da Socopa.

Fontes de incerteza externas, como a perspectiva de avanço mais forte dos juros americanos e o acirramento da disputa comercial entre EUA e China, também devem continuar influenciando o comportamento do mercado de ações.