E-mail vazado por hacker revela ofensa de dirigentes da Sony a Angelina Jolie
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E-mail vazado por hacker revela ofensa de dirigentes da Sony a Angelina Jolie

Atriz é chamada de 'menininha mimada de talento mínimo' em troca de e-mails entre Amy Pascal, copresidente da Sony, e o produtor Scott Rudin, do filme Cleópatra

Economia & Negócios

11 Dezembro 2014 | 17h10

Angelina Jolie: troca de mensagens causou mal estar (Foto: AFP)

Angelina Jolie: troca de mensagens causou mal estar (Foto: AFP)

Michael Cieply e Brooks Barnes

THE NEW YORK TIMES

LOS ANGELES – Salários dos principais executivos. Roteiros não publicados. Contratos delicados. Alcunhas usadas pelos astros para se hospedar em hotéis.

Essas são apenas algumas das revelações de um devastador ataque cometido por hackers contra o estúdio de cinema da Sony no mês passado. Mas, em meio a todas as informações vazadas, talvez nada tenha irritado Hollywood – e exposto as maquinações nos níveis superiores da indústria do cinema – mais do que uma humilhante troca de e-mails entre Amy Pascal, copresidente da Sony, e o produtor Scott Rudin a respeito de Angelina Jolie e os planos para um filme biográfico de Steve Jobs.

A Sony ainda corre para lidar com as repercussões negativas dos e-mails incendiários publicados pelo tabloide Gawker, revelando uma desagradável batalha interna envolvendo Jobs, filme biográfico com roteiro de Aaron Sorkin sobre o cofundador da Apple.

Rudin, conhecido pelos recados grossos e pelo mau humor, mostrava-se frustrado ao ver que o diretor preferido por ele para o filme, David Fincher, estava sendo atraído por Angelina Jolie para outro filme da Sony, uma refilmagem de Cleópatra com Angelina no papel principal.

Rudin se referia a Angelina como “menininha mimada de talento mínimo”, pressionando Amy a cancelar Cleópatra.

Em certos momentos Amy tentava acalmar Rudin, cuja empresa é sustentada financeiramente por meio de um acordo com a Sony, escrevendo, “Isso não precisa virar uma loucura”.

Mas, no fim, Jobs foi transferido para a Universal e, de acordo com os e-mails, Rudin disse a Amy que ela tinha “se comportado de maneira abominável, e vai demorar muito até que eu esqueça o que você fez”.

Amy escreveu então a um de seus braços direitos: “Livre-se dele”, aparentemente referindo-se ao acordo com Rudin.

Amy não quis comentar os e-mails. Um porta-voz de Angelina Jolie disse que ela não comentaria o caso.

“Não se trata de e-mails polêmicos sendo publicados no Gawker e no Defamer“, disse Rudin na quarta feira. “Trata-se de um crime cometido, e as pessoas responsáveis devem ser tratadas simplesmente como criminosas.”

Para Michael Lynton, diretor executivo da unidade Sony Entertainment, responsável por música, televisão e filmes, o escândalo provocado por hackers aprisionou ele e a empresa num momento em que eles deveriam estar comemorando.

Alguns na indústria do cinema especulavam que ele planejava subir de posto na hierarquia corporativa, buscando um cargo que ampliasse suas responsabilidades, talvez coincidindo com planos de mudança de Los Angeles para Nova York.

Leia também: Sony pede desculpas por e-mails ofensivos

Por meio de um porta-voz, Lynton não quis comentar tais boatos na quarta feira, mas uma pessoa informada quanto aos planos dele disse que não havia planos para alterar suas responsabilidades corporativas.

Recentemente, Lynton venceu uma batalha contra o investidor ativista Daniel S. Loeb, que buscava melhorias na lucratividade. O estúdio anunciou demissões, reduziu o orçamento, recrutou novos e talentosos executivos, e garantiu o tão necessário financiamento externo para os filmes. No início de novembro, a Sony se mostrou confiante prevendo que a renda teria alta de um terço no decorrer dos três anos seguintes.

Mas agora, Lynton está em vez disso correndo para orientar tanto seus superiores da Sony Corp. japonesa quanto seus funcionários na instalação do estúdio em Culver City, Califórnia, em relação aos danos e aos passos que devem ser adotados para conter o estrago nas próximas semanas e até anos.

Alguns sistemas de computador continuam desligados por medo de nova infecção, e talvez o estúdio precise de dois a três meses para restaurar todos eles.

O estúdio tem seguro contra ao menos parte das perdas. O prejuízo final deve ficar bem abaixo do que as estimativas de mais de US$ 100 milhões sugeridas por pessoas de fora da empresa, de acordo com uma fonte informada quanto à situação do estúdio.

Pessoas informadas a respeito das movimentações de Lynton disseram que ele voltou no meio da semana de uma viagem há muito planejada com destino ao Japão, onde ele debateu estratégias de negócios e o episódio da invasão dos sistemas. Na sexta espera-se que ele fale durante uma rara reunião em massa dos funcionários.

Veterano da produção editorial, Lynton foi nomeado presidente da Sony Pictures em 2003, cargo que ele ainda mantém. Em abril de 2013, o estúdio disse ter renovado o contrato de trabalho dele, sem especificar os termos.

Executivos da Sony dizem que Lynton tem demonstrado um envolvimento discreto e metódico desde o início do ataque – postura que condiz com sua abordagem conhecidamente cerebral para a gestão do estúdio. No estúdio dele, as ordens são para voltar o quanto antes à normalidade.

Nesse espírito, o estúdio rejeitou a ideia de que deveria cancelar o lançamento de The Interview, estrelando Seth Rogen e James Franco, sobre o líder norte-coreano Kim Jong-un, embora os hackers que assumiram a autoria do ataque, Guardians of Peace, citem o filme como uma das razões para o ataque.

Na quarta feira, 10, alguns dos principais executivos da divisão de filmes da Sony insistiram que The Interview seria lançado conforme o planejado, para o Natal, mas reconheceram que medidas adicionais de segurança foram adotadas para a estreia na quinta feira, no centro de Los Angeles.

Especialistas em segurança e policiamento continuam a busca pelos responsáveis pelo ataque, que podem jamais ser localizados.

“É difícil atribuir a responsabilidade a alguém até termos uma análise completa e, ainda assim, o resultado pode ser inconclusivo”, disse Liam O’Murchu, gerente sênior de pesquisa em segurança da Symantec.

Falando numa conferência sobre segurança cibernética na terça feira, Joseph Demarest, diretor assistente da divisão cibernética do FBI, disse apenas que “no momento, não atribuímos o ataque à Coreia do Norte”.

Os ataques contra a Sony foram coordenados a partir de centros de comando e controle em todo o mundo, incluindo computadores de um centro de convenções em Cingapura e sistemas da Universidade Thammasat, na Tailândia, bem como outros no Chipre, Polônia, Itália, Estados Unidos e Bolívia.

Lynton e outros executivos do alto escalão da Sony ainda não comentaram o episódio publicamente, mas memorandos enviados aos funcionários vazaram para a mídia. No domingo – talvez na tentativa de conter relatos segundo os quais a Sony teria sido relapsa com a segurança de seus sistemas de computador – Lynton enviou um boletim a todos os funcionários citando Kevin Mandia, diretor executivo da Mandiant, empresa de segurança online contratada para ajudar a Sony a se recuperar.

“A abrangência desse ataque é diferente da observada em outros aos quais respondemos no passado”, escreveu a Mandiant. “Em resumo, tratou-se de um crime bem panejado e sem precedentes, executado por um grupo organizado, para o qual a SPE” – Sony Pictures Entertainment – “não poderia estar mais bem preparada do que outras empresas”.

Representantes do FBI, que lidera a busca pelos culpados, foram às instalações da Sony em Culver City na quarta feira para conversar com os funcionários a respeito da segurança online. Alguns funcionários da Sony relatam que suas identidades foram roubadas recentemente, com o uso das informações vazadas, para solicitar empréstimos bancários falsos e até comprar bolsas femininas nas lojas de Beverly Hills.

A crise evocou outro episódio ocorrido há 20 anos, quando cerca de 200 páginas de documentos financeiros do estúdio vazaram para a revista Variety. Alan J. Levine, então diretor de operações da Sony, ameaçou processar a publicação se o material fosse divulgado; com isso e algumas negociações nos bastidores, o problema foi superado.

“É difícil imaginar o tamanho do pesadelo que isso pode se tornar”, disse Levine na quarta feira. “Essa pode ser apenas a ponta do iceberg.” / Tradução de Augusto Calil

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