O jornalista que fez o Burger King fechar 89 restaurantes na Alemanha
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O jornalista que fez o Burger King fechar 89 restaurantes na Alemanha

Hans-Günter Wallraff, de 72 anos, conhecido por suas reportagens investigativas, denunciou a falta de higiene e más condições de trabalho na cadeia de franqueados da rede americana

Cley Scholz

26 de novembro de 2014 | 12h11

Günter Wallraff: jornalismo investigativo desde os anos 60

Günter Wallraff: jornalismo investigativo desde os anos 60

SÃO PAULO – O jornalista alemão Hans-Günter Wallraff, de 72 anos, é conhecido por suas reportagens investigativas. A mais recente delas, transmitida pela rede de televisão RTL, denunciou a falta de higiene e más condições de trabalho nos restaurantes da rede Burger King.

Por causa das denúncias, a rede americana de fast food rompeu o contrato com a franqueada Yi-Ko, o que levou ao fechamento esta semana de 89 restaurantes na Alemanha.

Günter Wallraff é conhecido pelo seu método de investigação, baseado na experiência pessoal e geralmente feito com táticas de infiltração sem se identificar como jornalista para verificar pessoalmente os fatos.

Um dos seus livros, lançado no Brasil com o título de ‘Cabeça de Turco’ (Ganz unten), retrata a situação dos turcos na Alemanha, vítimas de todo tipo de preconceito.

Trata-se de um relato na primeira pessoa, das agruras da vida dos estrangeiros que procuram trabalho na Alemanha, como os imigrantes iugoslavos, espanhóis, gregos e, em especial, os turcos.

Wallraff denuncia, baseado na experiência vivida, a situação de marginalização, desprezo e discriminação das minorias étnicas numa sociedade que se julga sensata, soberana, incontestável e imparcial.

A metodologia da reportagem foi a da encarnação do repórter em personagem do seu próprio livro: o jornalista transformou-se no objeto da reportagem.

Para se passar por imigrante, ele usou lentes de contato escuras, treinou um alemão com sotaque estrangeiro e fez muito exercício físico para fortalecer as costas para os trabalhos extenuantes que o aguardavam.

Desde os anos 1960, Günter Wallraff trabalha como jornalista investigativo. Em 1977, ele causou um rebuliço com a sua obra ‘fábrica de mentiras’, onde narrava sua experiência como repórter do jornal sensacionalista Bild.

Loja do Burger King fechada em Frankfurt, após denúncias de falta de higiene e condições de trabalho (Foto: EFE)

Loja do Burger King fechada em Frankfurt, após denúncias de falta de higiene e condições de trabalho (Foto: EFE)

Burger King. Em abril deste ano, após a reportagem mostrar como eram por dentro os restaurantes do Burger King na Alemanha, o Tribunal Regional de Munique confirmou a adoção de uma medida liminar pedida pela rede americana que proíbe a Yi-Ko de utilizar sua logomarca e nomes de seus produtos. A franqueada também foi proibida de usar uniformes da rede.

A Yi-Ko Holding não teve outra saída senão fechar suas filiais. Segundo o NGG, o sindicato alemão dos setores de alimentação, gastronomia e fumo, a maior parte das 89 unidades já fechou as portas.

Uma porta-voz do tribunal afirmou que a empresa recorreu da decisão, devendo haver uma audiência oral a respeito, em data a ser fixada. Proprietários da Yi-Ko são o turco Ergün Yildiz e o russo Alexander Kolobov.

O vice-diretor executivo da Yi-Ko, Dieter Stummel, instruiu todos os gerentes a fechar suas respectivas filiais, obedecendo à liminar expedida pelo Tribunal de Munique.

Ele comentou ao jornal Süddeutsche Zeitung que “uma declaração de falência será inevitável”, caso não haja a possibilidade de reabrir as lanchonetes nos próximos dias.

Após as denúncias do jornalista alemão, o faturamento das franquias caiu até 40%.

O presidente da Burger King na Alemanha, Andreas Bork, declarou ao jornal alemão Die Welt que, após a divulgação das irregularidades, a rede americana tentou fazer acordos com a franqueada para tentar melhorar o serviço, mas alguns dos acordos foram quebrados e o caso foi parar na justiça.

O executivo afirma não ter tomado a decisão de romper com a franqueada antes, por consideração aos funcionários. “Da Yi-Ko dependem 3 mil postos de trabalho. E queremos protegê-los. Algumas pessoas vão certamente interpretar isso como fraqueza. Eu, contudo, vejo ao contrário: tomamos uma decisão clara.”

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