Como o Einstein está mudando a saúde

Como o Einstein está mudando a saúde

'Investir em transformação digital é passar para a inteligência do computador as tarefas tediosas e repetitivas que não precisam ser feitas por um profissional de saúde', diz presidente do hospital

Ana Carolina Sacoman

18 de fevereiro de 2020 | 06h00

Sidney Klajner, presidente do Hospital Albert Einstein, em evento no Estadão Foto: Felipe Rau/Estadão

 

As lições do Einstein:

 

  • Deixar tarefas tediosas e repetitivas para a inteligência artificial
  • Construir modelo de inovação exclusivo para a sua organização
  • Dar recursos tecnológicos para o paciente se informar e dialogar com o médico
  • Criar plataformas tecnológicas que atendam também idosos
  • Focar em medicina cada vez mais personalizada e voltada à prevenção
  • Criar ambiente para atrair e reter startups de saúde que resolvam gargalos da organização
  • Estimular o empreendedorismo interno

 

A medicina do futuro é mais preventiva e personalizada, usa inteligência artificial e processamento de big data. Investe em tecnologia de ponta e em soluções desenhadas por startups e adota plataformas para atrair o paciente jovem sem afastar o idoso. Esse grande quebra-cabeça montado pelo Hospital Albert Einstein em seu processo de transformação digital não vem “pronto de fábrica” e deve ser desenhado individualmente, dentro de cada organização. “Não existe em saúde o lema ‘one size fits all’”, diz o presidente do hospital, Sidney Klajner. Cirurgião do aparelho digestivo, ele falou ao blog sobre esses e outros desafios, como o de atrair os médicos para o processo de mudança:

 

Como o Einstein vem usando a tecnologia a seu favor?

Investimos pesado de forma pioneira na plataforma robótica como, por exemplo, na sala híbrida, que permite fazer cirurgia cardíaca com robô e hemodinâmica no mesmo ambiente. Com isso, é possível que o paciente seja submetido a uma revascularização do miocárdio por um robô e tenha, ao mesmo tempo, um stent colocado em outra artéria. Essa sala é inovadora no Hemisfério Sul. Essa busca pela tecnologia é uma marca do Einstein desde a década de 80. A primeira ressonância magnética do Brasil foi comprada pelo Einstein (em 1986), e a segunda também. Sempre se falou que não haveria um novo equipamento de tecnologia que o Einstein não buscasse ter. Também buscamos ter um ambiente que atraísse startups que pudessem resolver os nossos gargalos (e trabalhassem) junto com as cabeças que estão aqui, para que essas pessoas pudessem fazer protótipos, ter mentoria de gestores e de profissionais de saúde experientes, tudo em larga escala. Paralelamente a isso, o aumento do volume de dados gerados com saúde – e por isso a necessidade de se investir em prontuários eletrônicos – fez com que a gente passasse também a investir em transformação digital. Quer dizer, passar para a inteligência do computador as tarefas tediosas e repetitivas que não precisam ser feitas por um profissional de saúde.

 

A busca pela inovação e pela transformação digital vem a partir de demandas detectadas ou são movimentos para se antecipar a uma onda de mudanças?

(A busca) Tem muito a ver com cultura da organização. Os problemas que encontramos ou as dificuldades na prática do dia a dia fazem a gente pensar um pouco fora da caixinha, com interação entre profissionais, com cabeças privilegiadas que a gente tem aqui dentro e que veem na inovação uma forma de resolver essas dificuldades. Não foi algo imposto. Na diretoria a gente entende que é uma oportunidade gigante criar um ambiente propício para o empreendedorismo, para essas soluções ficarem aqui, serem testadas aqui e para atrair pessoas de fora. Às vezes você tem boas ideias fora, mas não tem o ambiente propício para o desenvolvimento dessas ideias nem para a validação delas em saúde e aqui a gente tem esse ambiente.

 

O incentivo ao empreendedorismo interno e as parcerias com startups andam juntos?

No momento em que a gente cria ambiente propício para o desenvolvimento de uma startup, criamos um fenômeno de atração. Nos últimos 4 anos, o Einstein chegou a receber 1,3 mil startups que vieram mostrar as suas ideias. Muitas das que estão incubadas conosco, algumas delas até com pequenos investimentos feitos por nós mesmos, emergiram de profissionais daqui de dentro. Uma delas veio do pessoal do laboratório, que desenvolveu plataforma de inteligência artificial para lidar com sequenciamento genético. A partir daí, surgiu um equipamento que permite fazer sequenciamento ao mesmo tempo em que a inteligência artificial fornece diagnósticos. Assim também surgiu a startup de um profissional do setor de imagem que via na calibração manual das ressonâncias uma perda de tempo e criou inteligência para gerar mais exames por máquina. Essa cultura acaba passando para a própria faculdade. Hoje tem startup incubada aqui que veio de alunos que estavam no segundo ano de Medicina e viram uma oportunidade de desenvolver uma solução para ensino. Elas (startups internas e externas) não concorrem. Hoje temos aqui 33 startups, todas voltadas à saúde, e a maioria veio de fora.

 

Quais foram as dificuldades do processo de transformação digital? Muitos executivos apontam a cultura interna como um obstáculo. Foi assim também para vocês?

A grande dificuldade da implementação do processo de transformação vai acabar esbarrando no corporativismo e na visão um pouco mais tradicional do médico e do enfermeiro, que têm a formação mais pautada em modelos pedagógicos. Nossa formação, na maioria das vezes, é feita com base em um modelo de 100 anos de existência. Então é muito difícil o convencimento dos nossos médicos de uma faixa etária um pouco maior, porque é difícil falar em transformação digital sem que haja sensação de perda do trabalho. A grande dificuldade, e existem dados que comprovam isso, especialmente nos Estados Unidos, é que a gente consegue ver processos de inteligência artificial otimizando atividades principalmente na parte gerencial e de gestão e eficiência, mas que não dizem respeito à assistência médica – onde é um pouco mais lento. Essa dificuldade (de difundir a necessidade de transformação entre o corpo médico) existe. Para o profissional que está lá para resolver um problema na internação ou gestão de leitos é muito mais fácil, até porque tem paralelo na indústria.  

 

Como quebrar resistências?

Primeiro, explicamos o que estamos fazendo. Segundo, criamos um curso modular (que aconteceu em 2019), com uma sessão por mês, para trazer médicos para contar o que está acontecendo em gestão de saúde, em termos de mercado, de marketing, judicialização da saúde, de conflitos de interesses, inovação e big data. Dois desses módulos giraram em torno de inovação como uma parte educativa. É preciso muita interação para mostrar os benefícios que a gente pode ter. 

 

Nesse processo o senhor trouxe ideias de fora?

Benchmark sempre acabamos fazendo. Tive oportunidade de visitar o Monte Sinai, em Nova York, que está bem avançado. Antes de começar plataforma de inovação, fizemos benchmark em hospitais na área de Boston para ver como estavam fazendo essa parte de big data, geração de dados. Fui a uma feira de inovação em Israel, mas não existe um modelo que a gente copie – há um monte de insights que a gente traz. Isso não está na prateleira, tem de ser construído dentro da organização, até como mote da mudança cultural. 

A transformação digital não está pronta, na prateleira. Tem de ser construída

 

Os aplicativos são parte importante do processo de inovação do Einstein. Vocês têm feedback do uso pelos pacientes?

Por meio do Meu Einstein o paciente tem acesso ao resultado dos exames, pode comparar com o que é normal e tem condições de compartilhar isso com seu médico. Um ano depois de lançado, fizemos uma pesquisa de satisfação que mostrou alto grau de melhoria do engajamento do paciente com a própria saúde, algo que pode ajudar a resolver os gargalos de desperdício em saúde. É empoderar o paciente para ele saber o que pode fazer por si. Além disso, o aplicativo também aumentou a qualidade da relação médico-paciente no momento em que ele compartilha os resultados (dos exames) e há uma interação com o médico. Foram duas grandes vantagens do uso do aplicativo. 

 

Como não espantar uma população idosa, que é cada vez maior, com essas inovações?

Não existe em saúde, na verdade em nada na vida, o lema ‘one size fits all’ (um tamanho serve a tudo). A gente procura cada vez mais experiências únicas para nós mesmos. Quando você usa um serviço em que é tratado como todo mundo, não sente que é uma boa experiência. Assim como não existe o ‘one size fits all’ também não existe falar de todos os jovens e todos os idosos. A gente deve ter plataformas de contato que vão contemplar quem não gosta de aplicativo e quem quer tudo por aplicativo. Existe uma pesquisa feita entre organizações de saúde de Canadá, Estados Unidos e Austrália que mostrou o que importava para o paciente. Em uma faixa etária mais jovem o mais importante na relação com o médico era a capacidade de interagir por smartphone, por meio da tecnologia. Quando você pega paciente mais velho, o que importa é o toque, o contato, a conversa. Então, aqui no hospital a gente deve ter formas de contato que agradem mais a um e a outro. Por exemplo, cada vez mais está se usando as smart TVs para abordagem de idosos. Sem que ela precise fazer qualquer coisa, o médico aparece na casa dela via smart TV para saber se tomou remédio ou não, enquanto com o paciente mais jovem você pode usar o smartwatch para fazer uma averiguação de saúde. A gente também tem a inclusão dos pacientes nos nossos conselhos consultivos e um desses conselhos é o de idosos. Então, conseguimos saber deles a percepção de como devemos fazer a inovação a favor dele. É um desafio.

 

Como será o Einstein do futuro?

Vejo cada vez mais o paciente com condição de interagir com o hospital por meio do uso da tecnologia, de devices, aplicativos e canais de comunicação. O hospital central, do Morumbi, que é de alta complexidade, com atendimento das condições que exigem alta complexidade, e as unidades que estão sendo montadas para a atenção primária cuidando do paciente com doença crônica, com manejo das suas condições de saúde, prevenção de urgências, de internações. A gente entende que todo desperdício em saúde hoje tem a ver com a falta de coordenação. Se isso de fato estiver certo, a gente vai ter cada vez menos necessidade de leitos se o paciente puder ser tratado em ambientes ambulatoriais. Então, é descentralizar. O Einstein do futuro é um hospital que tem processos pautados por tecnologia e inteligência, tratando alta complexidade, obviamente com trabalho em equipe, cada um com sua expertise médica, e a baixa e média complexidade sendo tratadas de forma descentralizada.

 

E o que esperar do futuro da medicina?

Espero que a gente possa cada vez mais usar recursos, principalmente na evolução e no desenvolvimento de medicina personalizada, no sequenciamento genético, para ter um cuidado customizado por doença e por paciente. Em oncologia, por exemplo, no tratamento de quimioterapia, que é uma droga para todo tipo de tumor, sabemos que tem paciente para o qual (esse tratamento) funciona e paciente que não funciona. Então, vejo no futuro, cada vez mais por meio de sequenciamento genético, a possibilidade de saber de antemão que determinada droga funciona melhor para essa genética do que para outra e assim o médico conseguindo adaptar o tratamento. Além disso, acho que a medicina do futuro vai ser muito mais preventiva, também com a evolução do sequenciamento genético. Se a gente descobre de modo precoce um tipo de câncer, além de o resultado do tratamento ser muito melhor, o custo chega a ser um décimo de quando achamos em estágio muito avançado. Vejo no futuro cada vez mais a oportunidade de detecção precoce e prevenção e a possibilidade de atuar de forma mais eficaz e personalizada para cada paciente.

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