Fleury quer ter maior marketplace de saúde do País

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Fleury quer ter maior marketplace de saúde do País

Carlos Marinelli, CEO do grupo, conta como pandemia acelerou o lançamento de produtos e serviços

Ricardo Grinbaum e Ana Carolina Sacoman

21 de setembro de 2020 | 06h00

A liberação da telemedicina no Brasil, em março, efeito direto da pandemia provocada pelo novo coronavírus, criou demandas urgentes no setor da saúde. Healthtechs ganharam fôlego, novas empresas surgiram em velocidade recorde e as tradicionais correram para colocar seus projetos para rodar. No Grupo Fleury, a medida foi o que impulsionou a criação da Saúde iD, empresa de tecnologia que estava em desenvolvimento havia dois anos e que nasce com uma ambição: se transformar no primeiro e maior marketplace da saúde do País. 

A ideia é que, por um aplicativo, o paciente possa gerenciar seu prontuário médico, além de agendar consultas – presenciais ou a distância – e ter acesso a resultados de exames, entre outros serviços. “Pela primeira vez, o paciente será o dono de todas as suas informações de saúde e as terá integradas em um único local, o que significa que não precisará mais contar seu histórico a cada médico que visitar”, afirma o CEO do grupo, Carlos Marinelli, em entrevista por e-mail ao Revoluções Digitais

Na mesma plataforma, em um segundo momento, devem passar a ser oferecidos serviços e produtos de acordo com as necessidades de cada paciente. “O marketplace vai oferecer desde venda e entrega de medicamentos a kits de alimentação saudável, bens de consumo e ofertas para adoção de hábitos saudáveis”, diz Marinelli.

Por enquanto, o serviço está disponível para os 4 milhões de clientes da SantéCorp, startup comprada pelo grupo há dois anos, e para os 3 milhões de clientes ativos do próprio Fleury, mas a ideia é que até o fim do ano chegue ao consumidor final. 

Veja abaixo os principais trechos da entrevista:

 

Carlos Marinelli, CEO do Grupo Fleury: ‘Fizemos 4 anos em 4 meses’   Foto: Divulgação

 

Como a pandemia influenciou no seu processo de transformação digital?

Quem assistiu o nosso Investor Day (encontro anual com investidores e analistas) de dezembro de 2019 sabe que palavras como plataforma, ecossistema, app e tantas outras que explodiram nos últimos meses fazem parte do nosso repertório já há algum tempo. Temos falado de transformação digital na saúde muito antes de pensar que telemedicina seria uma modalidade tão essencial como se provou nos últimos meses. Desde março, adotamos uma postura arrojada e empreendedora como jamais tivemos em nossos 94 anos de história – ou, como falamos por aqui, fizemos 4 anos em 4 meses.

Ao longo de décadas, desenvolvemos uma relação de absoluta confiança com os atores do setor de saúde: pacientes, médicos, hospitais, operadoras e empresas que oferecem serviços de saúde para seus funcionários. Estamos em uma posição privilegiada, que não apenas nos permite ter acesso aos principais elos da cadeia, mas nos dá legitimidade para criar soluções inovadoras, que tragam qualidade e eficiência para o setor.

A pandemia acelerou o lançamento de produtos e serviços e fez com que começássemos a abrir novos canais de atendimento, como o drive-thru. Nós, que já há algum tempo deixamos de ser exclusivamente uma empresa de medicina diagnóstica, intensificamos esse processo de diversificação.

 

Quais mudanças feitas ou pensadas agora permanecerão no pós-pandemia?

Todos os serviços digitais que começaram a ser oferecidos por nós logo que a pandemia se instalou apresentaram crescimento. Hoje, por exemplo, quase 40% dos agendamentos são feitos por WhatsApp e 45% do público elegível já faz check-in digital antes de passar por exames. O serviço de atendimento domiciliar passou a contar com novos exames como ultrassonografia e cresceu quase 70%. Focamos também no atendimento domiciliar, já que muitas pessoas preferiam realizar seus exames em casa, em vez de ir a uma unidade física. Hoje fazemos até exames de imagem na casa dos pacientes. A resposta tem sido excelente.

No campo da telemedicina, o avanço é exponencial. Surge um mundo mais conveniente e menos físico. Em três meses, foram realizadas quase 30 mil consultas no ambiente da SantéCorp (empresa de gestão de saúde corporativa e coordenação de cuidados adquirida pelo Grupo Fleury há quase dois anos) e do Cuidar Digital, solução que conecta médicos e pacientes. Durante anos, a telemedicina foi debatida, mas esbarrava em questões regulatórias. Num país de dimensões continentais como o Brasil, com tremendas dificuldades de deslocamento, especialmente nas grandes cidades, por que não usar as tecnologias disponíveis e assim aproximar médicos de pacientes? Claro que é preciso tomar todos os cuidados, como o desenvolvimento de protocolos próprios e uso de prontuário eletrônico, mas não há como negar que a telemedicina garante aos pacientes e aos médicos mais acesso e possibilidade de acompanhamento da saúde. Esse é um caminho sem volta.

Há um claro caminho para que a saúde ganhe caráter de portabilidade com informações clínicas organizadas, facilitando com um cuidado melhor a cada paciente e um uso mais otimizado dos recursos disponíveis para um sistema efetivamente mais sustentável economicamente.

 

O senhor pode falar mais sobre a Saúde iD, lançada em setembro?

A Saúde iD é uma empresa de tecnologia, baseada em ciência de dados, que foi criada pelo Grupo Fleury para reinventar o acesso à saúde no Brasil e dar sustentabilidade ao sistema. Nossa ambição com esse lançamento é grande: ter o primeiro e maior marketplace de saúde do Brasil.

Investimos R$ 50 milhões nessa plataforma aberta, para integrar produtos e serviços de saúde, de modo a garantir mais qualidade e eficiência a toda a jornada do paciente. Pela primeira vez, o paciente será o dono de todas as suas informações de saúde e as terá integradas em um único local e não precisará mais contar seu histórico a cada médico que visitar ou exame que realizar.

A empresa já nasce com 7 milhões de vidas – 4 milhões vindos da SantéCorp e os outros 3 milhões do próprio Fleury.

 

Como vai funcionar o marketplace? 

Por um aplicativo o paciente pode agendar e realizar teleconsultas, consultas presenciais, marcar e acessar resultados de exames diagnósticos, consultar seu prontuário eletrônico, gerenciar seus problemas de saúde (doenças crônicas). Como a Saúde iD é uma plataforma aberta a empresas e startups que atuam na área da saúde, nosso objetivo é reunir no mesmo local tudo que existe de melhor em produtos e serviços. Em breve, o marketplace vai oferecer desde venda e entrega de medicamentos a kits de alimentação saudável, bens de consumo e ofertas para adoção de hábitos saudáveis.

Para operadoras e empresas que contratam serviços de saúde para seus colaboradores, a plataforma vai resultar no uso mais racional dos recursos, tornando-se uma ferramenta poderosa para ajudar a diminuir a curva de reajuste de inflação médica.

 

Como vai funcionar para o consumidor final? Há previsão de quando isso vai acontecer?

A Saúde iD terá três fases de expansão. A primeira, em modelo B2B, já está disponível para operadoras de saúde e empresas que oferecem benefícios de saúde para seus funcionários. Até o final do ano a plataforma estará disponível também no B2C. Assim, os consumidores finais poderão acessar diretamente todos os produtos e serviços, por meio de um app no celular.

Conforme os clientes forem utilizando o aplicativo será possível, graças ao uso de health analytics, fazer ofertas personalizadas para cada um.

 

Como investir em transformação digital enquanto, para muitas empresas, os recursos evaporaram de um dia para o outro?

Se você analisar a nossa história, notará que sempre estivemos conectados aos processos de transformação, seja na medicina ou na tecnologia. Desafiar-se na direção da fronteira do conhecimento tem nos permitido essa competitividade ao longo de nossos 94 anos de história. Em 1997, por exemplo, fomos a primeira empresa do mundo a colocar resultados de exames na internet. Recebemos muitas críticas na ocasião, de pessoas que viam riscos ao disponibilizarmos os resultados na rede. Para nós, era justamente o contrário: a saúde do indivíduo é algo tão valioso que os dados deveriam ser acessados por ele e por seus médicos rapidamente. Hoje, essa facilidade tornou-se um requisito básico para qualquer empresa do setor. Agora, há mais de dois anos, aceleramos nosso processo de construção de soluções digitais com a criação do Fleury Lab, que criou muitos dos ativos que agora estão presentes na vida de milhões de pessoas, como os nossos serviços de telemedicina.

Esse contexto mostra que a transformação não pode ser um ato episódico ou errático. Tem de ser parte da sua cultura de inovação. Uma empresa que não pensava dessa forma antes da pandemia terá realmente dificuldade de se mover nesse novo cenário.

 

É o momento para testar novas ideias?

Sem dúvida, o momento é dos mais propícios. Nossa cultura de inovação possibilitou que acelerássemos nosso processo de transformação para atender ao rápido processo de mudança de comportamento das pessoas em relação à saúde e à tecnologia. Isso nos levou a testar novas ideias, como oferta de serviços de telemedicina, ampliação de nosso portfólio de atendimento domiciliar com serviços de ultrassonografia e criação de serviço de realização de exames no modelo drive-thru. Vou dar um outro exemplo de serviço que lançamos durante a pandemia e que tem trazido resultados surpreendentes: o Cuidado Integrado para Empresas. Notamos que muitas companhias precisavam de uma orientação confiável e baseada em ciência para que pudessem aos poucos retomar suas atividades, garantindo a segurança de colaboradores e clientes. Criamos, então, essa solução, que inclui não apenas testagem, mas também consultoria sobre os protocolos de segurança e saúde mais indicados. Em apenas dois meses, esse serviço saiu do zero para mais de 300 contratos com empresas que, juntas, empregam 400 mil pessoas.

 

Qual conselho o senhor dá para quem está passando pelo dilema de ter de fazer a transformação digital no meio da pandemia?

A transformação digital não é uma escolha. É inexorável. No nosso caso era evidente que ficar confortavelmente passivos em nossos 23 trimestres consecutivos de crescimento não era uma opção. Com coragem e ousadia, decidimos investir em uma estrutura própria para apoiar essa jornada digital e de novos negócios. Fizemos isso do “jeito Fleury de ser”: mantendo o cliente no centro de todas as nossas decisões e preservando o retorno para o acionista com a manutenção de resultados que continuam sendo o benchmark do mercado. Ou seja, o olhar permanente às necessidades do cliente deve ser o fio condutor de uma empresa a qualquer momento.

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