Transformação digital em 10 passos, de acordo com executivos da McKinsey

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Transformação digital em 10 passos, de acordo com executivos da McKinsey

Consultoria tem hoje 40% do trabalho focado em advanced analytics e estratégia digital. Veja algumas dicas

Ana Carolina Sacoman e Ricardo Grinbaum

13 de fevereiro de 2020 | 06h00

Heitor Martins (à esquerda) e Reinaldo Fiorini, executivos da McKinsey Fotos: Divulgação

 

O processo de transformação digital virou um mantra nas empresas, mas nem sempre os executivos se dão conta que o esforço vai muito além de uma mudança tecnológica. É, antes de tudo, uma questão de estratégia empresarial, segundo o managing partner da McKinsey no Brasil, Reinaldo Fiorini. “Não pode se apaixonar pela tecnologia ou pela ferramenta. A tecnologia é um instrumento para atingir um objetivo de negócio. Essa clareza de onde se quer chegar é o fator-chave de sucesso”, afirma.

Na conversa abaixo, Fiorini e Heitor Martins, sócio sênior que lidera a Digital McKinsey na América Latina, apresentam os principais pontos para que o processo seja bem sucedido. Eles dizem que o melhor momento para adotar as mudanças é na bonança, e não dá para deixar para depois. Ficar de fora da transição digital agora é como se uma boa empresa do século 19 deixasse de adotar a energia elétrica. Para os profissionais que se sentem ameaçados, a experiência da McKinsey revela uma oportunidade. “Se der chance, os funcionários podem surpreender.”

A própria McKinsey tem apostado na mudança para o mundo digital. Fundada em 1926, hoje 40% do trabalho da consultoria envolve advanced analytics e estratégia digital. No Brasil, dizem Fiorini e Martins, há uma boa escala empresarial para o processo de transformação. Alguns setores, como o financeiro, o de telecomunicações e o varejo, estão “superavançados”, do mesmo nível ou à frente de outros países. Outros estão um pouco atrás, mas não perdem para a média mundial. A seguir, os pontos mais importantes de um processo de transformação digital na visão dos sócios da McKinsey:

 

1.POR ONDE COMEÇAR

As primeiras perguntas que precisam ser feitas antes de se iniciar o processo de transformação digital são: onde está o valor do negócio, onde está o problema, como as estratégias de analytics e digital vão ajudar a empresa? É importante entender as características do negócio: qual a tendência para a indústria onde atua, como os clientes compram o produto, como é a cadeia de geração de valor. Não se trata apenas de ter uma ferramenta tecnológica para resolver uma questão específica, mas descobrir qual o problema da indústria a ser resolvido, como gerar valor, e aí procurar a solução tecnológica apropriada.

 

2.MELHOR MOMENTO

O melhor momento é quando a empresa está performando bem, quando tem mais capacidade de investimento, mais liberdade de ação, pode experimentar e errar mais. O processo de aprendizado pode ser mais rico. (Não agir quando a empresa vai bem) é como se alguém falasse no século 19: “As empresas que estão indo bem não precisam de energia elétrica”.

 

3.FATOR-CHAVE DE SUCESSO

É importante ter uma visão de negócio, não pode se apaixonar pela tecnologia e pela ferramenta. A tecnologia é um instrumento para atingir um objetivo de negócio. Essa clareza de onde se quer chegar é o fator-chave de sucesso. Outros elementos importantes são: ter uma visão integrada da tecnologia com o modelo de negócios da indústria, evoluir na plataforma tecnológica, promover as transformações culturais. As empresas começaram a fazer uso de analytics e digital para reduzir custos ou melhorar a experiência do cliente, para resolver problemas específicos. Agora estão indo para um cenário de transformação: “Como uso novas ferramentas para mudar o meu modelo de negócio, para ter um novo negócio?”

A clareza de onde se quer chegar é o fator-chave de sucesso

4.ESTRATÉGIA DE MUDANÇA

Muitos caminhos levam a Roma. Digital é um termo muito abrangente, que envolve muitas disciplinas. Há empresas que escolhem processos mais evolutivos, trabalham internamente, incorporando práticas digitais uma a uma. E há outras empresas que falam: “Vou construir um novo negócio digital fora da operação tradicional, depois vou migrar para essa nova plataforma”. Os dois modelos são válidos. E, para virar parte da rotina, duas coisas são fundamentais. Uma é o foco no cliente, que é fonte constante de evolução – quando só olha para dentro, a empresa tende a perder o ritmo de inovação. E a segunda coisa é essa cultura de experimentação, ir continuamente experimentando, errando, corrigindo e avançando.

 

5.O TRABALHO VAI MUDAR

Os perfis profissionais que estão ficando mais valorizados são relacionados a data science, matemática, engenharia de dados, de computação. Isso é um nível da transformação. Outro é a forma de trabalho. O novo ambiente requer mais curiosidade, nível de hierarquia menor, propensão ao teste e erro, trabalho interdisciplinar, mais colaboração e trabalho em equipe, além de mudança na cultura de trabalho. A mudança só terá impacto se as pessoas da linha de frente mudarem a forma como estão trabalhando. Em indústrias mais pesadas, por exemplo, você tem de convencer o engenheiro da ponta, que faz um mesmo processo há 15 anos, a usar uma ferramenta nova, que vai ajudar no processo de decisão. Requer muito esforço e foco na mudança de cultura da empresa.

 

6.NOVA CULTURA E O PAPEL DOS LÍDERES

Você precisa de algumas capacidades novas, que às vezes a empresa tem, mas às vezes precisa trazer de fora, como cientista de dados, arquiteto de dados. Mas também é importante conseguir mudar o talento de dentro da empresa. Há quatro dimensões para prestar atenção. Primeiro, as pessoas precisam entender por que precisam mudar, que isso vai ajudar a empresa a ser mais produtiva. Também é importante criar mecanismos formais para incentivar o uso das novas ferramentas. O terceiro ponto é o treinamento das pessoas, para saberem o que e como fazer. A quarta dimensão é que os profissionais vejam todo mundo fazendo parte do processo: o chefe trabalhando nesse novo método, a liderança valorizando e incorporando isso. É importante ressaltar o papel da liderança. É muito difícil fazer a transformação cultural se as pessoas no topo não mudam comportamentos e não abraçam novos valores. 

 

7.MEDO DE ARRISCAR E CONFIANÇA NOS FUNCIONÁRIOS

O mundo digital tem duas características. Primeiro, é muito mais produtivo. Segundo, é mais divertido, recompensador. Uma vez que você consegue fazer bom experimento digital, começar com bom piloto e com escala adequada, as pessoas imediatamente veem aquilo e tendem a abraçar o processo de transformação. Você tem um processo de conquista das pessoas por contaminação. Sobre o medo de errar, um dos meus clientes fala: “Se a gente não estiver errando, significa que não estamos tentando o suficiente, não estamos inovando e vamos ficar para trás”. A mágica é errar rápido e barato. Você conseguir identificar o erro, aprender com isso e ir para a próxima. Uma segunda perspectiva é que as empresas têm de treinar as pessoas, para elas aprenderem novas maneiras de trabalhar, como usar novas ferramentas. As pessoas subestimam a capacidade dos profissionais de se reinventarem. As empresas têm talentos que são subaproveitados. O sujeito às vezes está em uma posição sem autonomia, em que é pouco desafiado a colocar suas habilidades em prática. Quando se cria ambiente em que ele se sente motivado e que tem espaço para contribuir, que pode pensar na necessidade do cliente, muitas vezes você se surpreende com coisas incríveis. Então, uma parte é capacitação das pessoas e outra é criar elementos e ambiente para que elas possam contribuir, é a mudança no ambiente de trabalho. 

A mágica é errar rápido e barato. Identificar o erro, aprender com isso e ir pra próxima

8.VELOCIDADE DA TRANSFORMAÇÃO

A impressão é que agora a velocidade de transformação talvez seja mais rápida e que, como esses ciclos são menores, o resultado aparece mais rápido, o que gera empolgação e mais energia. Ter aumentado a velocidade também fica mais divertido e mais recompensador para as pessoas envolvidas nesse processo. Alguns anos atrás, toda implementação de plataforma tecnológica era pelo método Waterfall (modelo sequencial de desenvolvimento de software). Você ia lá, falava com os usuários: “Deixa eu tentar entender as necessidades, as especificações, os casos, as exceções. Agora vamos fazer o desenvolvimento dessa plataforma”. Depois de um ano, sai a versão 1. É um processo muito longo, com energia despendida, doloroso, até ver algum resultado. Agora tem método muito mais ágil, vamos fazer a partir de design thinking, time multidisciplinar. Cria um ciclo virtuoso que empolga e engaja mais, gera mais resultados.

 

9.LEGADO DAS EMPRESAS TRADICIONAIS

Quando falamos de legado temos alguns desafios em relação à plataforma tecnológica, que muitas vezes está envelhecida, alguns processos precisam ser revistos, e assim por diante. Mas as empresas estabelecidas têm algo valioso, que as novas não têm: elas têm clientes, têm história, dados que podem ser potencializados, uma marca estabelecida. Esses ativos são valiosíssimos. Temos trabalhado com um cliente aqui no Brasil, uma instituição financeira cujo relacionamento com o cliente e processo de venda até dois anos atrás era feito a partir do ponto de venda físico e call center. Dois anos depois, 40% das vendas são pelo canal digital, pela internet. Uma mudança enorme, possível porque a empresa está aberta a se reinventar, olhar o processo, para as necessidades do cliente, e ao mesmo tempo tem uma marca, conhecimento, entendimento do negócio. É totalmente possível as empresas se adaptarem a essa realidade. E, quando acontece, elas têm vantagem. 

 A capacidade de os profissionais se reinventarem às vezes é subestimada

10.O QUE VEM POR AÍ

As empresas começaram olhando para o digital muito como uma estratégia front-end (interface com o cliente). Pensavam o digital como aplicativo, como canal novo de contato com os clientes. Na medida em que o processo avança, acontecem duas coisas: mudanças profundas no modo de trabalho e vamos ver uma ênfase redobrada na renovação dos sistemas centrais, das plataformas tecnológicas das empresas. Aquele mundo do CIO (Chief Information Officer) vai voltar a ter importância muito grande. Também vamos ver uma onda crescente de advanced analytics, uso mais intenso de dados. A primeira onda foi de digitalização de processos. Essa nova onda é mais baseada em dados e inteligência. 

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