‘Você pode se sentir ameaçado ou pode ver uma oportunidade na tecnologia’

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‘Você pode se sentir ameaçado ou pode ver uma oportunidade na tecnologia’

Profissionais que querem ‘virar a chavinha’ devem estar abertos a novas e mais eficientes formas de trabalhar, diz o diretor de Recrutamento da Robert Half, Caio Arnaes

Ana Carolina Sacoman

06 de fevereiro de 2020 | 05h00

Caio Arnaes, diretor de Recrutamento da Robert Half Foto: João Neto

Quem se adaptar terá espaço no mercado de trabalho. O mantra, ainda que não seja nem um pouco novo, não perdeu a atualidade. Empresas e profissionais que passam por processos de transformação digital têm de estar abertos ao risco e dispostos a inovar – em outras palavras, a dançar conforme a música da tecnologia que muda processos seculares em (quase) um piscar de olhos.

É o que mostra pesquisa feita com 387 recrutadores de todo o País pela empresa de recrutamento Robert Half. Quase metade deles aponta dificuldades para encontrar mão de obra qualificada, cenário que, acreditam, não deve mudar antes de 2024. O quadro piora bastante para as vagas na área de tecnologia. Quem tem a formação adequada parte para o exterior em busca de salário e, principalmente, novos conhecimentos.

“O principal ponto daqueles profissionais que estão conseguindo se adaptar às transformações digitais é uma abertura para nova maneira de fazer as mesmas coisas de uma forma mais eficiente, em menos tempo e com menos erros”, afirma o diretor de Recrutamento da Robert Half, Caio Arnaes, em entrevista ao Revoluções Digitais. Veja na entrevista abaixo outras capacidades procuradas por empresas e necessárias para que o profissional consiga “virar a chavinha”:

Quais são os ‘mandamentos’ para os profissionais que querem se adaptar às transformações digitais, independentemente da área de atuação?

O principal ponto daqueles que estão conseguindo se adaptar melhor é uma abertura para nova maneira de fazer as mesmas coisas, de forma mais eficiente, em menos tempo e com menos erros. A transformação digital vem trazendo uma releitura de todos os processos em todas as áreas das empresas, para bolar produtos e serviços novos olhando para a quantidade de informações que a gente tem hoje dentro das empresas. Temos inovação para todos os lados, mas a única coisa que vejo em comum é que os profissionais têm de estar abertos a repensar os seus processos, a sua atividade, em como fazer mais, melhor e mais rápido.

E os ‘mandamentos’ para as empresas?

As empresas têm de estar abertas ao erro, entender que nessa tentativa de fazer de uma maneira melhor nem sempre você acerta – ou quase nunca acerta de primeira. Entender que existe o risco de errar. E, quando o erro acontecer, não pode ter punição, e sim ter aprendizado em cima disso. Claro que não pode errar 70 vezes seguidas, a ideia não é essa, mas, a cada erro que comete, vem o aprendizado. Hoje existe uma cultura de caça às bruxas e de punir o erro. Tem de mudar um pouco isso, pensar em como aprender com o erro e evoluir dali em diante. É uma mudança da empresa, que tem de estar aberta a esse risco.

O profissional que vê a tecnologia como ameaça, e não como aliada, tem salvação? É possível mudar essa cultura?

Acho que isso é muito individual, depende como você encara as coisas. Você pode se sentir ameaçado ou ver uma oportunidade. A tecnologia pode trazer dados para você fazer uma reportagem melhor ou pensar, “nossa, os computadores estão escrevendo matérias sozinhos, não sei o que vou fazer da minha vida”. Sempre existe essa ambiguidade.

Pelo relatório, as trocas de profissionais estão sendo bem altas, em torno de 60% em processos de transformação digital. Isso assusta quem está passando por isso ou entrando nesse processo. É natural?

É natural, assim como foi há muito tempo, quando havia os soldadores na linha de montagem de uma montadora. Hoje isso é 90% robotizado, você não tem a profissão de soldador – ou eles são muito poucos. O profissional que era soldador hoje está fazendo outras atividades dentro da indústria ou fundou a sua própria serralheria, por exemplo. Vai acontecer a mesma coisa, mas dentro da área mais administrativa. A maior parte das substituições que estamos vendo é em posições extremamente repetitivas, que vão ficar mais baratas, rápidas, confiáveis. E essas pessoas vão ter de achar outras coisas para fazer. O mercado está se transformando, alguns vão pegar essa onda e vão ser o especialista financeiro que cuida do sistema, por exemplo. Muitos vão fazer outras coisas. O mercado de trabalho sempre escolhe bons profissionais, independentemente da área.

O senhor diria que essa alta taxa de dispensas é mais uma adaptação do mercado de trabalho do que falta de adaptação das pessoas?

Aqueles que se adaptarem terão espaço. Os que tiverem dificuldade vão trabalhar em outras atividades.

Quais as principais habilidades que serão exigidas dos profissionais do futuro?

Adaptabilidade, alta capacidade de comunicação, empreendedorismo e empatia. Não são habilidades técnicas, são comportamentais. Mas a grande verdade é que, se você tem habilidades comportamentais, você consegue desenvolver as técnicas, resolver o problema do cliente ou seu problema interno. São grandes habilidades que o mercado vai precisar. Olhando para a parte mais técnica, para os profissionais que estão ingressando no mercado de trabalho agora ou nos próximos anos, seria bem interessante entender um pouco como funcionam os softwares, como funciona CRM, sistemas de integração da internet das coisas, como funciona o blockchain, que é uma aposta grande. Essas tecnologias vieram e não vão sair, assim como o celular, que apareceu 10, 15 anos atrás e hoje a gente não consegue imaginar uma vida sem. É interessante ter esses conhecimentos, independentemente da área. Primeiro, para ajudar na tomada de decisão e, segundo, para imaginar maneiras melhores de como aquilo pode resolver os problemas do seu dia a dia.

Qual o panorama no mercado internacional em comparação com o Brasil?

A gente tem visto uma quantidade interessante de profissionais brasileiros recebendo propostas para trabalhar fora do Brasil, principalmente na Europa e nos EUA. Temos perdido esses talentos. Ou o profissional se muda para a Europa ou, estando no Brasil, só presta serviço para fora, principalmente os da linha de frente de programação. O que mais temos visto são convites para Estados Unidos, Alemanha, Holanda e agora também Portugal.

Nem sempre a questão é salário.

Sem dúvida, mas os salários estão atraentes.

O Guia Salarial 2020 está na 12.º edição. O que mudou nesse tempo?

Conseguimos ver que a área de tecnologia acabou se descolando um pouco do mercado. Estamos saindo de alguns anos de crise. Em outras áreas, como financeira, vendas e marketing e engenharia, os salários ou estão andando de lado ou, em alguns casos, até andando um pouco para trás, o que não vimos na área de tecnologia, que vem sempre subindo, na contramão da economia.

É correto dizer que em áreas como tecnologia não falta emprego mas, ao contrário, falta mão de obra?

Sim. A gente tem visto no mercado uma demanda muito grande por profissionais de tecnologia, principalmente em algumas áreas como desenvolvedor, programador. Essas são profissões superdemandadas do mercado e a demanda vem muito mais forte que a nossa capacidade de formar profissionais nesta área.

Pelo relatório da Robert Half, metade dos entrevistados acha que esta situação ainda vai piorar até 2024. Qual a solução até lá?

Investir em educação. Sei que parece chover no molhado, mas o Brasil precisa de linhas de investimento nessa área. Na parte empresarial, para resolver isso talvez o empresário precise trazer profissionais um pouco mais juniores e ajudá-los no desenvolvimento da própria carreira, gerando oportunidades para que ele aprenda fazendo e se desenvolva dentro da empresa. Na verdade, é a melhor maneira de trabalhar a retenção desses profissionais. Quando ele sente que está se desenvolvendo dentro daquela oportunidade, não é um salário 5%, 10% maior que vai seduzi-lo para sair. Muitos desses profissionais optam por continuar em empresas que estão na vanguarda da tecnologia.

Como as empresas podem fazer o processo de transformação digital em um cenário pós-crise econômica ? Há margem para tentativa e erro?

Empresas que estão passando por dificuldade econômica têm de se preparar melhor financeiramente para isso. Se a empresa quer se reinventar e trabalhar de uma maneira nova, ela tem de estar aberta. Agora, se é hora de ela fazer isso, financeiramente falando, é outra análise que cada empresa tem de fazer. Para dar essa guinada, ela precisa estar bem financeiramente, senão o risco é muito alto. A empresa não pode colocar isso quando já está com as finanças comprometidas. Você precisa ter fôlego. Se não tem fôlego financeiro para assumir esse risco, talvez começar com processo de transformação menor, de menor risco, seja a solução.

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