Dólar é só um dos problemas

Rolf Kuntz

20 de outubro de 2010 | 08h55

Enquanto o governo tenta conter a inundação de moeda estrangeira, as contas externas continuam piorando. A nova alta do imposto sobre o capital especulativo poderá, durante algum tempo, frear a valorização do real. Mas será insuficiente para mudar a tendência do comércio. Até a terceira semana de outubro, a receita de exportação, US$ 154,1 bilhões, foi 28,9% maior que a de um ano antes. A despesa com importações, US$ 139,9 bilhões, foi 44,2% superior à de igual período de 2009. O saldo comercial, US$ 14,2 bilhões, foi 36,9% menor. Este é, neste momento, o ponto importante para a saúde da economia, isto é, para o crescimento da produção e para a criação de empregos a médio prazo. O grande influxo de capitais tem barateado o dólar, encarecendo o produto nacional em comparação com o estrangeiro, e seu impacto negativo está concentrado no comércio exterior. Não há sinal de formação de bolha no mercado de ações ou em qualquer outro.

O impacto inicial da elevação do IOF, o Imposto sobre Operações Financeiras, correspondeu à intenção do ministro da Fazenda, Guido Mantega. Às 11 horas da manhã, ontem, o dólar havia batido em R$ 1,70, com valorização de 2,16%. No fechamento, estava em R$ 1,68, na BM&F, ainda com alta de 1,06%. Durante o dia, um novo fator, a elevação de juros na China, complicou os cálculos do mercado. Falta saber se esse aumento afetará o crescimento chinês, os preços das matérias-primas e, talvez, a cotação do yuan.

As expectativas também poderão ser afetadas se o Comitê de Política Monetária (Copom) cortar os juros básicos na reunião de hoje. A maioria dos analistas continuava, ontem, prevendo a manutenção da taxa de 10,75%. Raros economistas admitiam a hipótese de um corte de pelo menos 0,25 ponto. Diante dos novos dados de inflação, seria difícil apostar numa redução da taxa básica. Em São Paulo, os preços ao consumidor subiram 0,96% na segunda quadrissemana de outubro, informou a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas da USP (Fipe). Na segunda quadrissemana de setembro haviam aumentado 0,21%. O IGP-10 (coletado até o dia 10 de outubro) variou 1,51%, segundo a Fundação Getúlio Vargas. A tendência de alta não é só dos preços de alimentos. Além disso, o câmbio tem amortecido a inflação, como comentou na segunda-feira o coordenador da pesquisa de preços da FGV, Salomão Quadros.

O efeito benigno do câmbio sobre os preços é parte do nó. A Fazenda tem concentrado a atenção no excesso de dólares, como se o único motivo importante de preocupação fosse a valorização do real, com seus efeitos indesejáveis nas contas externas. Mas o desajuste cambial é parte de um quadro muito mais complexo.

O descompasso entre importações e exportações explica-se apenas parcialmente pela valorização do real e, portanto, pela mudança da relação entre preços internos e externos. Outro fator é o aumento da demanda interna, principalmente de consumo. A demanda tem sido alimentada pela expansão do emprego, do bolo de rendimentos e do crédito, mas isso também não é tudo.

O gasto do governo continua crescendo bem mais velozmente que o Produto Interno Bruto (PIB). O déficit nominal, 3,4% do PIB nos 12 meses até agosto, é muito menor que os buracos fiscais do mundo desenvolvido, mas não deixa de ser déficit. O resultado só não é pior graças aos dividendos pagos ao Tesouro por algumas estatais.

Um quinto dos bens consumidos no terceiro trimestre veio do exterior, segundo pesquisa da consultoria LCA. No começo do ano passado, essa parcela correspondia a 14,3% do consumo. Parte dessa variação é explicável pelo câmbio. Sem a contribuição dos importados, a inflação seria maior e o Banco Central manteria juros mais elevados. Se o governo apenas contiver a depreciação do dólar, atenuará parcialmente o problema. Se o dólar subir e a demanda interna continuar aquecida, a inflação ganhará impulso. Há maneiras mais eficientes e mais indolores de arrumar esse quadro.

Se o governo tiver disposição para uma política mais equilibrada e mais ampla, conterá a expansão do gasto público, preservando, é claro, as ações econômica e socialmente mais produtivas. Mas terá de cuidar seriamente das condições de competitividade, para impulsionar as exportações e manter em expansão a corrente de comércio. Todas as demais soluções serão menos eficientes e menos duradouras e terão custos mais altos.

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