A absurda proposta de um estoque global de alimentos

Raquel Landim

24 de janeiro de 2011 | 18h20

O presidente da França, Nicolas Sarkozy, está patrocinando uma proposta polêmica. Ele quer evitar a especulação  e  a volatilidade dos preços agrícolas criando um estoque mundial de alimentos, uma espécie de “Conab global”. O mandatário francês decidiu utilizar sua presidência temporária do G-20 para defender o plano. O G-20 é um grupo que reúne os países ricos e os grandes emergentes e se tornou o fórum internacional mais relevante depois da eclosão da crise econômica mundial.

Apesar das boas intenções, a ideia é completamente absurda. A exemplo do petróleo, os alimentos são negociados nas bolsas de Chicago e Nova York, com cotações que se alteram minuto a minuto obedecendo a mais velha regra da economia: oferta e demanda. Neste caso, o vetor estrutural do aumento de preços é a demanda da Ásia, onde milhões de pessoas estão saindo da miséria e comendo mais. 

André Nassar, diretor-executivo do Instituto de Estudos do Comércio e Negociaçõe Internacionais (Icone), entidade financiada por grandes exportadores agrícolas brasileiros, explicou ao blog que seria complicado coordenar esse tipo de sistema. Cada país teria uma cota nos estoques de alimentos? Como garantir que cada um cumpriria sua parte? Ele alerta ainda que o tiro pode sair pela culatra: sem aumentar a produção, a formação de estoques globais de alimentos vai elevar a demanda e puxar ainda mais os preços.

O Brasil tem muito a perder nessa história. Graças à profissionalização dos agricultores e às pesquisas da Embrapa, o País é hoje o terceiro maior exportador agrícola, superado apenas pela União Europeia e pelos Estados Unidos. Os bons preços dos produtos agrícolas são responsáveis pelos resultados positivos da balança comercial. Segundo relata o colega Jamil Chade, correspondente do Estado em Genebra, a diplomacia brasileira enxerga a iniciativa como uma “tentativa perigosa de intervir nos mercados globais”, que pode “congelar a expansão da produção agrícola brasileira”.

A alta dos preços dos alimentos é um problema grave, sem dúvida, que provoca fome nos países pobres e gera uma inflação global. Os dilemas que vivemos hoje já estavam evidentes em 2008 e apenas saíram dos holofotes com a crise. Também é verdade que, graças aos baixos juros pagos pelos países ricos hoje, as matérias-primas se tornaram um porto seguro para os investidores e uma oportunidade de lucro para os especuladores.

O Brasil está disposto a negociar uma solução para os países mais pobres do mundo, incentivando a produção agrícola e a formação de estoques de alimentos especificamente nesses países. É uma postura humanitária, politicamente correta e que condiz com a posição do País como líder dos emergentes. E que está longe de assinar embaixo da proposta francesa. 

Em reportagem publicada pelo colega Assis Moreira, do Valor, uma fonte da diplomacia brasileira fez um questionamento interessante: “por que quando os preços estão baixos ninguém fala nisso?”. A proposta de um estoque global de alimentos vai contra tudo que foi discutido nos últimos 10 anos na Rodada Doha, da Organização Mundial de Comércio (OMC). O objetivo da “Rodada do Desenvolvimento” era exatamente reduzir o protecionismo nos mercados agrícolas, para permitir o crescimento da produção nos países pobres.

No debate proposto por Sarkozy, o Brasil, felizmente, tem um aliado de peso. Segundo maior exportador agrícola global, os Estados Unidos não encamparam a idéia e defendem que a formação de estoques de alimentos é uma decisão soberana de cada governo. Não ouvi ou li até agora nada sobre o que a China pensa dessa questão. Bem ao seu estilo, os diplomatas chineses estão quietos. A China é uma das maiores prejudicadas pela alta dos preços dos alimentos. E uma das neuroses do governo chinês é garantir o abastecimento de matérias-primas.

A proposta de Sarkozy mostra que o mundo não sabe lidar com um problema estrutural, que é o aumento da demanda da Ásia, fruto de um processo natural e muito bem-vindo de desenvolvimento dessa região. E a situação vai “piorar”, porque milhões de chineses e indianos vão sair da miséria nos próximos anos. É essencial que os governantes abandonem idéias sem sentido e busquem uma solução concreta para a questão.

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