A balança e os erros da política econômica de Dilma

Raquel Landim

02 de abril de 2013 | 20h21

O desempenho da balança comercial neste primeiro trimestre é assustador. O superávit de US$ 2,4 bilhões apurado de janeiro a março de 2012 se transformou num déficit de US$ 5,15 bilhões no mesmo período neste ano.  As exportações registraram uma queda de 3,1% no trimestre, enquanto as importações tiveram uma alta significativa, 11,6%. Não é um começo de ano promissor.

É óbvio que existem atenuantes já que o primeiro trimestre é sazonalmente mais fraco para as exportações, que se recuperam quando começa a safra agrícola. Os preços das commodities pararam de subir, mas ainda estão em patamares muito altos, o que ajuda  o Brasil. Já vi inúmeras vezes os economistas começarem o ano prevendo resultados catastróficos para a balança, que chega em dezembro ainda com um superávit significativo.

Mas pode ser que dessa vez seja diferente. O mais preocupante é que uma análise cuidadosa dos números mostra que as deficiências da competitividade brasileira e os erros da política econômica do governo Dilma Rousseff ao tentar corrigir o problema estão estampados na balança comercial.

As exportações de produtos básicos caíram 3,9% no trimestre. Este número vai reagir significativamente na hora que entrar a safra recorde prevista e o agronegócio deve novamente salvar as contas externas, mas não com toda a pujança que poderia. Os gargalos nos portos, que não tem estrutura para embarcar toda a soja produzida pelo eficiente agricultor do Centro-Oeste, vão impedir uma contribuição ainda mais positiva.

As vendas externas de produtos manufaturados estão em queda de 3,6% de janeiro a março. Para espanto dos técnicos do governo, a desvalorização do real não surtiu efeito. A mudança no câmbio foi provocada com barreiras à entrada de recursos e muita intervenção do Banco Central comprando reservas, medidas que tem um custo alto para o País.  A questão é que a demanda externa ainda está muito fraca e, principalmente, que o câmbio não vai resolver o problema de competitividade do Brasil.

Conforme estudo que será divulgado amanhã pela Fiesp, em um evento que reúne empresários brasileiros e paraguaios, é 30% mais barato produzir tecidos no Paraguai que no Brasil. O cálculo considera as diferenças nos custos de energia, impostos e mão de obra. É natural que setores como têxteis e calçados migrem para economias com salários mais baixos. Só que esses setores  não estão sendo substituídos por produtos de alta tecnologia ou por serviços sofisticados na pauta de exportação brasileira.

Do lado das importações, o que mais pesa na balança é um aumento de 35,6% nas compras de combustíveis. Esse número é provocado por dois erros graves do governo. 1) Os incentivos tributários para a compra de carros, que foram renovados novamente na semana passada, congestionaram as ruas do País e impulsionaram a demanda por combustíveis. 2) O congelamento do preço da gasolina corroeu a capacidade de investimento da Petrobrás, que tem que importar cada vez mais.

As importações de combustíveis são ainda mais significativas do que os números mostram. Tatiana Prazeres, secretária de Comércio Exterior, afirmou na coletiva de imprensa que ainda faltam US$ 1,8 bilhão de registros de importação de combustíveis a serem enviados pela Petrobrás. No ano passado, o saldo da balança atingiu US$ 19,4 bilhões, mas esse número estava inflado por conta de uma instrução da Receita, que permitiu a Petrobrás enviar com atraso os registros, conforme mostrou reportagem do Estado na época.

As importações de bens intermediários, principal item da pauta de compras externas do País, estão crescendo 9% de janeiro a março, abaixo da média geral. Esse item guarda uma relação direta com a produção industrial, que está muito fraca. Se a indústria reagir, como espera o governo e seria ótimo para o Brasil, as compras externas de bens intermediários vão subir. Qual será o tamanho do prejuízo para a balança?

Os dados também mostram que as medidas protecionistas do governo surtiram efeito, mas não resolveram o problema. As compras externas de bens de consumo avançaram 7% no trimestre, também abaixo da média geral. As importações de automóveis caíram espetaculares 28,6% por conta das barreiras implementadas pelo novo regime automotivo, o Inovar Auto. Sem entrar nos méritos do novo regime para o desenvolvimento da indústria, o fato é que os consumidores brasileiros viram os preços dos carros importados subirem. E o resultado da balança não melhorou.

“A balança está reagindo, março já foi um pouco melhor e nós esperamos que a partir de agora melhore mais ainda o saldo”, disse Fernando Pimentel, ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, hoje em Brasília. “Vamos trabalhar para repetir o ano passado. Não sabemos se é possível, porque a situação internacional não está boa, a reação das commodities também está mais lenta do que a gente esperava, mas não tem nada que nos preocupe muito, não”.

Pode ser que o ministro esteja certo e os economistas errados, como, repito,  já vi acontecer em outros anos. Também é dever de ofício do ministro ser otimista. Mas há motivos, sim, para preocupação.

 

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