A falsa crise diplomática entre Brasil e EUA

Raquel Landim

24 de setembro de 2012 | 18h12

Os Estados Unidos estão acusando o Brasil de protecionismo. Em um furo de reportagem, o colega Jamil Chade, correspondente do Estadão em Genebra, revelou na semana passada que o representante comercial dos Estados Unidos, Ron Kirk, enviou uma dura carta ao ministro de Relações Exteriores do Brasil, Antonio Patriota.

Alguns trechos do documento:

– “Escrevo para expressar em termos fortes e claros a preocupação dos Estados Unidos com os aumentos de tarifas de importação propostos e programados no Brasil e no Mercosul”.

– “O aumento de tarifas no Brasil vai restringir significativamente o comércio em comparação aos níveis atuais e representa claramente uma medida protecionista.”

– “As ações do Brasil prejudicam seus parceiros comerciais na região e no mundo. Historicamente, esse tipo de ação leva os parceiros a responder da mesma maneira, o que amplifica o impacto negativo”

– “Peço ao Brasil para reconsiderar a implementação de novos aumentos de tarifa e para desistir daqueles que já foram aplicados”.

Kirk se refere aos aumentos de tarifas de importação promovidos pelo governo Dilma Rousseff. No início do mês, o Brasil elevou as alíquotas cobradas de 100 produtos e anunciou que prepara uma lista de mais 100. São poucos itens em um universo de 10 mil posições tarifárias, mas representam produtos importantes, como aço e resinas plásticas, insumos para diferentes cadeias produtivas.

Os termos da carta do alto funcionário dos EUA são considerados agressivos no meio diplomático e causaram indignação no Itamaraty, que respondeu à altura. Patriota apontou dois pontos que mostram que os americanos tem “telhado de vidro”. Primeiro, os EUA estão inudando os mercados com dinheiro barato para reanimar sua economia. Parte desses recursos migra para o Brasil e valoriza o câmbio. Segundo, os americanos subsidiam pesadamente sua agricultura.

Os dois lados tem razão em reclamar, mas é preciso questionar porque decidiram “subir o tom” agora. Também há muitos motivos para acreditar que não vão passar disso – um exemplo típico de “cão que ladra não morde”. A avaliação dos especialistas é que essa troca de cartas não deve ter consequências práticas. “É uma falsa crise diplomática”, disse um experimentado lobista ao blog.

Os Estados Unidos entraram na fase final da campanha presidencial. O democrata Barack Obama, que tenta a reeleição, é acusado pelo republicano Mitt Romney de ser tolerante com a concorrência externa. Para responder às críticas, o governo americano abriu processos contra China e Argentina na OMC e agora enviou essa carta agressiva ao Brasil. A medida brasileira é protecionista, mas não há base para questionamentos na OMC, porque o País elevou a maior parte das tarifas para 25%, abaixo do teto consolidado de 35%.

O Itamaraty também não atravessa um bom momento junto ao Planalto. Nos bastidores, é frequentemente criticado por sua postura conciliadora. A presidente Dilma já deixou claro a interlocutores que não tem paciência para o jogo de cena dos itamaratecas e que prefere uma diplomacia de resultados. Se o Brasil realmente quisesse reagir às críticas, bastaria aplicar os mais de US$ 800 milhões de retaliação contra os EUA a que tem direito por ter vencido o painel do algodão.

Como já mencionamos em post anterior, a Lei Agrícola (Farm Bill) americana expira no fim do mês. Seria a oportunidade perfeita para o Brasil rasgar o acordo que postergou a retaliação. Um experimentado negociador brasileiro disse ao blog que “dificilmente vai ser rompido um processo que já dura dois anos por causa de uma troca de cartas”. Para seguir em frente com a retaliação, o Brasil teria que desagradar sua indústria, que não quer ver subir os custos dos insumos que compra dos EUA.

Brasil e Estados Unidos estão apenas jogando para a plateia.

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