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Argentina: a diplomacia do grito

Raquel Landim

15 de dezembro de 2010 | 13h09

Em reunião com representantes dos importadores de veículos, a ministra da Indústria da Argentina, Debora Giorgi fez um “pedido” singelo: “por favor, reduzam seus negócios em 20% no país”. Ela informou ontem que as montadoras terão que cortar em 20% as importações de veículos de fora do Mercosul em 2011. São cerca de US$ 200 milhões a menos, já que as compras de veículos extra-bloco estão em US$ 1 bilhão ao ano.

Conforme relato do correspondente do Estado em Buenos Aires, Ariel Palacios, o “pedido” foi feito em tom categórico durante um encontro com a Câmara de Importadores e Distribuidores Oficiais de Automóveis (Cidoa), associação composta por empresas como BMW, Volvo, Hyundai, Kia e Honda. Segundo a ministra, a intenção da medida é “equilibrar a balança comercial com terceiros países e avançar na integração da cadeia automotiva regional”.

A pergunta óbvia é por que as montadoras acatariam esse “pedido” que prejudica claramente os seus negócios. Uma fonte do setor explicou ao blog que as empresas aceitarão as condições, porque trata-se de uma medida de “força” e que o governo argentino ameaça segurar as licenças de importação contra a montadora que não cumprir suas condições. Adepta do desenvolvimentismo dos anos 50, Giorgi ainda pensa que é possível administrar o comércio.

É a diplomacia do grito e da dissimulação. Como não há nenhuma lei escrita, os países prejudicados sequer conseguem contestar a medida da Argetina nos órgãos internacionais competentes. Não é a primeira vez que a presidente Cristina Kirchner utiliza essa estratégia. Em outra ocasião, proibiu os varejistas de importar alimentos industrializados do Brasil e da Europa. Só que quando questionado oficialmente sobre o assunto, o governo argentino dizia que não havia proibição alguma.

Segundo especialistas do setor, a ordem de Giorgi afetaria principalmente os automóveis vindos da União Europeia e dos países da Ásia, prejudicando as vendas dos veículos coreanos, que crescem exponencialmente na América do Sul. Mas é possível que o México também seja afetado, já que o país não faz parte do Mercosul. Isso, sim, seria um duro golpe para as montadoras instaladas no Brasil e na Argentina, que trazem do México os carros médios.

A arbitrariedade da Argentina também não considera qualquer compromisso internacional do Mercosul. O bloco tem um acordo de livre comércio de veículos com o México, que até agora tem funcionado muito bem. A intenção é ampliar esse acordo para outros setores. Com a União Europeia, os diplomatas estão se esforçando para conseguir concluir um acordo entre os dois blocos, cujas negociações se arrastam há anos. Na semana passada, tiveram uma reunião em Brasília em que ficou acertado que a troca de ofertas começariam em 2011. E agora?

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