Coluna

Thiago de Aragão: China traça 6 estratégias para pós-covid que afetam EUA e Brasil

Argentina e os benefícios do protecionismo

Raquel Landim

21 de fevereiro de 2011 | 15h33

Na semana passada, os argentinos elevaram de 400 para 600 o número de produtos sujeitos a licenças não-automáticas de importação – um mecanismo burocrático que, na prática, serve para controlar a entrada de produtos no país. Mais uma vez, a medida foi tomada às vésperas de uma reunião com autoridades brasileiras para discutir a relação comercial entre os dois países. O desfecho também foi o de praxe: os argentinos prometeram que as barreiras não vão afetar os produtos brasileiros e o governo brasileiro disse que acredita. 

A ministra da Indústria da Argentina, Débora Giorgi, não esconde sua estratégia de utilizar as barreiras para fortalecer a indústria local. Ela afirmou, inclusive, que o país já conseguiu substituir US$ 9,2 bilhões em importações. Boa parte disso significa menos exportação, produção e empregos no Brasil. A indústria brasileira não vai mal, graças ao dinamismo do mercado interno, mas, em economia, deixar de ganhar também é perder. Ou seja, poderíamos estar produzindo mais.

Publiquei hoje uma matéria no Estadão que mostra que as empresas (brasileiras ou multinacionais) estão mudando sua estratégia. Ao invés de produzir no Brasil e atender o Mercosul, são obrigadas a ter fábricas nos dois países. Só nos últimos meses do ano passado, Vicunha Têxtil, Baterias Moura e Nokia cruzaram a fronteira. A Baterias Moura é um caso exemplar: vai transformar a Argentina em base de exportação para os países do Cone Sul. A decisão foi tomada em meio a uma pesada negociação com o governo argentino para “restringir voluntariamente” as exportações brasileiras de baterias de carros.

Nem mesmo as grandes multinacionais resistem ao protecionismo argentino. Nokia, Motorola e Samsung contrataram empresas terceirizadas para fabricar seus celulares na Terra do Fogo, zona franca no Extremo Sul da Argentina. Foram obrigadas a isso quando a Argentina elevou os impostos para celulares produzidos fora dessa região (muito parecido com a Zona Franca de Manaus). Na semana passada, os celulares foram incluídos na lista de licenças não-automáticas de importação. A Motorola, por exemplo, já informou que, com a nova medida, vai atender 100% do mercado argentino via Terra do Fogo. O impacto para o Brasil é direto. Nos últimos dois anos, as exportações brasileiras de celulares para a Argentina (o principal mercado) caíram 54%.

Com o protecionismo rendendo bons frutos, a presidente Cristina Kirchner, realmente, não tem motivos para parar. A Argentina tem todo o direito de refazer a sua indústria, mas o Brasil também deveria deixar de “tapar o sol com a peneira” e avaliar se o Mercosul ainda vale a pena. A resposta pode ser sim, já que nosso superávit com a Argentina chega aos US$ 4 bilhões. O que não dá para ignorar são os malefícios que o protecionismo da Argentina e a complacência do Brasil trazem para o combalido bloco.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: