Brasil volta a ser tolerante com a Argentina

Raquel Landim

29 de julho de 2011 | 17h10

Durou pouco a disposição do governo brasileiro de partir para a briga com a Argentina em defesa dos interesses do setor privado.  O Brasil voltou a ser tolerante com o país vizinho e os empresários de vários setores estão novamente reclamando dos atrasos para a liberação da entrada dos seus produtos.

Quando a presidente Dilma Rousseff assumiu, aumentou a expectativa de uma “diplomacia de resultados”, em que o governo privilegiaria o interesse das empresas ao invés das prioridades estratégicas. Seria o contrário da administração Luiz Inácio Lula da Silva.

Em sua visita a China, por exemplo, Dilma não poupou esforços para tentar resolver a situação da Embraer, que sofre boicote do governo chinês. Mas esse pragmatismo parecia ter atingido até as relações com a região. No governo Lula, as arbitrariedades de Argentina, Bolívia ou Equador eram aceitas em nome de consolidar a liderança do Brasil.

Autorizado por Dilma, o ministro do Desenvolvimento, Fernando Pimentel, disparou “um tiro de canhão” contra a Argentina e estabeleceu licenças não-automáticas para a importação de automóveis, provocando filas de carros argentinos na fronteira. A medida atingiu em cheio a economia do vizinho, mas também criou um dos piores conflitos da história dos dois países.

As rodadas de negociações técnicas não levavam a nenhum lugar, com os argentinos insistindo em manter as barreiras contra o Brasil. O governo de Cristina Kirchner apelou então ao Itamaraty. Segundo fontes envolvidas no processo, fez questão de lembrar que “deu um tempo” com os conflitos durante a eleição de Dilma e agora esperava a mesma gentileza. Cristina é candidata à reeleição em outubro.

O Itamaraty interferiu e baixou os ânimos. A ordem vinda do Planalto era apaziguar a situação. A ministra da Indústria da Argentina, Débora Giorgi, veio ao Brasil, e assumiu o compromisso de liberar as licenças de importação para os produtos brasileiros no prazo de 60 dias estabelecido pela legislação internacional. Na época, questionei no blog: “Dá para confiar na Débora Giorgi?”.

Pois é, não dá. A situação já voltou a ser exatamente a mesma. Os calçadistas possuem 526 mil pares aguardando licenças para entrar na Argentina há mais de 60 dias. Empresas da linha branca (geladeiras, fogões) dizem que seus produtos continuam retidos na fronteira. Fabricantes de têxteis relatam que, além do atraso nas licenças, o governo argentino começou a exigir que os importadores adotem o sistema US$ 1 para US$ 1: para cada dólar importado é preciso exportar outro.

 A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) contabilizou os prejuízos com as licenças não automáticas de importação da Argentina, que chegam a pelo menos US$ 1 bilhão. A entidade divulgou o estudo no dia em que Cristina chegava a Brasília e se reunia com Dilma – uma forma de fazer pressão. Adiantou pouco. Os conflitos comerciais continuaram fora da agenda das presidentes.

Empresários contaram ao blog que estão em contato quase diariamente com o ministério do Desenvolvimento, que tenta segurar algumas licenças de automóveis para conter o ímpeto protecionista Argentina, que está muito preocupada com o rombo nas contas correntes e com uma eventual corrida em direção ao dólar. O ministério do Desenvolvimento, no entanto, esbarra na interferência do Itamaraty no tema.

Até outubro, quando ocorrem as eleições presidenciais do outro lado da fronteira, nada deve ser feito. Parece uma reedição do governo Lula.

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