“Chinamérica”

Raquel Landim

24 de agosto de 2010 | 10h02

Três escolas públicas de São Francisco, nos Estados Unidos, estão ensinando chinês. O objetivo da prefeitura da cidade é ampliar o programa e incluir o idioma na grade curricular de todos os alunos. Algumas escolas particulares oferecem chinês no currículo e a demanda é tão grande que as mensalidades se tornaram caríssimas. Cada vez mais jovens loiros de olhos azuis deixam a cidade para fazer intercâmbio na China com o objetivo de se tornarem fluentes em mandarim – um idioma para lá de difícil.

“Estamos mais próximos de Pequim do que de Washington”, disse ao blog Mark Chandler, diretor do Departamento de Assuntos Internacionais e Comércio da Prefeitura de São Francisco. A afirmação é surpreendente, mas tem razões econômicas, culturais e políticas. São Francisco quer definitivamente se tornar “Chinamérica”, descolando-se da combalida economia americana e pegando carona na pujança chinesa.

A prefeitura abriu um escritório em Xangai e, em um ano e meio, conseguiu atrair 12 grandes empresas chinesas para a cidade. É difícil encontrar no centro financeiro de São Francisco alguma companhia que não tenha negócios com a Ásia. Em meio a maior crise da economia americana desde a Grande Depressão,  escritórios de arquitetura e engenharia da cidade não dão conta da demanda. Estão construindo edifícios em Xangai e obras de infraestrutura em regiões do interior da China.

Os laços de São Francisco com a China são antigos. Um terço da população da cidade é “chino-americana” –  chineses ou descendentes de chineses. São Francisco exibe orgulhosa uma das Chinatowns mais ricas e vibrantes do mundo. Mas não foi sempre assim. Os primeiros chineses chegaram a cidade em 1800 atraídos pela febre do ouro que dominava a Califórnia. Levavam uma vida dura, trabalhando nas minas ou na construção de ferrovias, e sofriam com o preconceito. Até 1950, não era permitido que chineses comprassem residências fora da região de Chinatown.

Hoje a proximidade com a China se tornou uma benção e ajudou São Francisco a ser um pouco menos atingida pela crise que outras regiões americanas. Mesmo assim, a cidade, que é focada na prestação de serviços e em empresas de tecnologia, sentiu o baque. A taxa de desemprego, que era de apenas 2% em 2001 e 2002, chega a 10% hoje. É normal ver mendigos circulando pelas ruas da cidade.

Outro motivo que ajuda a explicar a empolgação do funcionário da prefeitura de São Francisco com a China e o descaso com Washington é a pouca dependência das cidades americanas do governo federal. Ele explica que um terço do orçamento da cidade vem do Estado da Califórnia (que enfrenta uma situação fiscal crítica) e o restante são recursos próprios. Os repasses federais são insignificantes.

“Somos uma cidade aberta ao livre comércio. Ignoramos as bobagens que vem de Washington”, disse Chandler.

 

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